PARA A DIVULGAÇÃO DA LITERATURA LUSÓFONA,
PÁGINA DE ADRIANO DE ALMEIDA GOMINHO
Notas do autor:
Natural de S. Nicolau Cabo Verde
Jubilado da Aviação Civil
Estudante de IV ano de Direito, em Lisboa,
65 anos de idade
Lisboa, Setembro de 2006
[última revisão]
e-books:
1)- FIGURAS TIPICAS DE S. NICOLAU,
2)- CAMINHO LONGE PARA S. TOMÉ -
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FIGURA 1
VICTOR
Enquanto o Sol se escondia na Centinha, foram passando pela minha retina algumas figuras típicas da ilha de São Nicolau, que me impressionaram durante a meninência, já não pertencentes ao mundo dos vivos, com excepção do Victor - um pescador dos Carvoeiros. Quem sai da Estância, seguindo a estrada da Chãzinha, sempre com o vale das Maiamas à direita e o mar da Prainha ao fundo, vai dar à povoação dos Carvoeiros, alcantilada no meio do verde das plantações de bananeiras e cana sacarina. Os telhados são encarnados e as paredes caiadas de um branco imaculado, pintalgando a paisagem, tendo por fundo o azul do mar. Foi assim que vi a Povoação dos Carvoeiros. Durante a minha meninice, ela era também bela, mas com poucas casas de telhas encarnadas - as de alguns americanos - que voltaram à terra "para nela deixarem os ossos" - como dizia tio Cleto! O cinzento das coberturas das casas de palha confundia-se, agora, com o escuro da paisagem.
Passemos adiante:
Foi nos Carvoeiros que nasceu o Victor - um criado da casa dos meus pais - que, nos anos quarenta, logo após a guerra e fome duradoiras, veio procurar trabalho na Estância, era o autor ainda menino. Homem rude, vivera sempre no interior da ilha, trabalhando a terra ou pescando nos mares do Silvão, de bote ou à linha. O Victor era alto, espadaúdo, tez escura, rude mas sincero e gostava de contar estórias de bruxas e de feiticeiras aos meninos da minha idade. Mamãe, que precisava de um trabalhador para a Ribeira da Caixa, contratou-o, de imediato. Recordo-me dele, pois ainda vivia, quando lá estive, em 1994. Perguntava-me, com a maior das naturalidades: "O menino come com essa coisa que tem bicos e parece um arpão para a pesca do polvo"? Tratava-se de um garfo, coisa que ele até então desconhecia. À noitinha, ou quando se procedia à debulha do milho, das favonas e dos feijões das hortas, abeirava-se de mim para contar os encantadores contos do Lobo e do Chibinho, dos Capotonas, dos Gongons e das feiticeiras da Ribeira Prata, Ribeira Funda. Belas estórias, Victor!
Em data recente(1994) fui encontrá-lo (velhinho, claro está), a medir e vender água em latas, no Chafariz Municipal da Estância, porque a Bica da Passagem já não existia. O Victor, aos poucos, foi tomando contacto com um meio diferente e, anos depois, constituira família, continuando a trabalhar nas nossas propriedades. Lembro-me da época das podas aos tamarindeiros, cuja lenha mamãe vendia às padarias, a bom preço. O Victor dirigia a faina, escolhendo os ramos menos necessários, serrando os troncos e acarretando-os para o local de secagem. Certa vez, mamãe notara que algo de anormal se passava. Ainda não vendera a lenha e os montões de feixes estavam cada vez mais magros...
- Victor! O que se passa com a lenha?! - perguntara-lhe mamãe, meio furiosa!
- Nada, Nhá Mélia...
Mamãe mandou vir da Estância alguns quilos de cal virgem que misturou com água e, com um pincel, numerou os feixes de um a quarenta.O Víctor não sabia ler e só contava até dez, pelos dedos. Assim que o galo cantou na amendoeira brava do quintal, mamãe levantou-se e foi direitinho contar os feixes de lenha e deu pela falta de um, com o número treze. Fez as suas investigações e, dias depois, foi encontrar o feixe de lenha no quintal da casa da companheira do Víctor, na Estância, ainda por desmanchar... Muito envergonhado e apanhado na ratoeira, o Victor confessou-se autor do desaparecimento da lenha, prometendo não mais tornar a fazê-lo... No dia seguinte, com um lápis nas mãos e um pedaço de papel retirado de uma saca de cimento, abeirou-se de mim:
- Didi! (assim me chamava), a partir de hoje, quero aprender a ler, escrever e contar, pelo menos até treze...
FIGURA 2
PAI PEDRO
Do terraço da casa do papai, olhava o Alto de São João e veio-me à memória a grata figura de Pai Pedro, um parente meu que lá morava:
Pápedro - era assim conhecido por todos. Sempre o tratei por tio. Ia à sua casa no São João, para brincar com um garoto que ele criava - meu companheiro na Escola da Rochinha. Gostava de visitá-lo, pois, além das muitas coisas bonitas vindas da América que tinha, coisas novas para mim, possuia uma bela e valiosa colecção de relógios de bolso, com as tampas em prata trabalhada, exibindo figuras de barcos e de sereias, entre muitas outras. Os mostradores eram de esmalte branco e os números romanos impressos a negro, o mesmo acontecendo aos finos ponteiros das horas, minutos e segundos. Cada relógio de bolso tinha a sua corrente de prata, já um pouco escurecida pelo passar do tempo. Enquanto Pápedro descansava, estirado na sua cadeira de balanço, vinda da América, fumando um cachimbo de louça, que enchia com o tabaco das suas lavras, picado, delicadamente, numa tábua lisa com uma afiada faca, feita de mola de gramofone, eu e o Rui iamos à gaveta da sua velha escrivaninha de mogno, tomada pelo caruncho dos anos, local onde guardava as preciosas relíquias e, pé-ante-pé, fugíamos para o quintal com uma dessas relíquias no bolso - para as nossas brincadeiras de meninos. A curiosidade levava-nos a desmanchar, às escondidas, o complicado mecanismo de rodas dentadas e de reluzentes pinos. No fim, com pena nossa, não conseguíamos repôr as minúsculas peças nos seus eixos e, sobre a mesa da cozinha, ficavam espalhadas, para nosso desespero, algumas mágicas rodas amarelas e dentadas, as que não cabiam na preciosa caixa de prata trabalhada.
O relógio, para desencanto nosso, já não fazia o habitual tique-taque. Estava morto. A roda de balanço já não girava como louca, para a esquerda e para a direita, embora a corda estivesse toda enrolada. Regressávamos à casa e recolocávamos o objecto inerte no local habitual, como se fosse um defunto a descer à cova, e aí ficava a repousar, a um canto da bafienta gaveta da escrivaninha de mogno. À saída, passávamos pela cadeira de balanço e Pápedro ainda se conservava na mesma posição, de boca aberta e cachimbo apagado pendente do queixo. Pápedro era muito avarento - talvez a criatura mais avara que conheci em toda a minha vida! Tratava-se de um proprietário abastado, dono de várias hortas na Ribeira de João, local onde os bananais e as plantações de cana sacarina cresciam com viço e com a água aos pés, correndo junto às vedações de canas de carriço, protegendo as suas vastas e bem cuidadas herdades de regadio. Vejo Pápedro, homem já entrado na idade, de estatura mediana, trajando roupas vindas da América e calçando botas pretas de cano alto com atacadores até ao cimo da canela.
Quanto à sua histórica avareza, conta-se que, certa vez, deu seis bananas verdes e mais um naco de toucinho para a criadinha lá da casa pôr na cachupa do jantar. À hora da refeição ele verificou que faltava uma banana e, de imediato, chamou pela Zepa, sua esposa:
- Zepa!..Zepa, há qualquer coisa errada nesta cachupa!
A mulher, sentada ao lado, nem falava antevendo a cena. Pápedro alinhou as bananas na travessa, afastou a cachupa para os lados com uma colher de alumínio e, enquanto tamborilava com os seus grossos dedos no tampo da mesa, foi contando as bananas, em voz alta: uma, duas, três, quatro e cinco...e cinco...!
- Zepa, aqui há gato! Dei para pôr na cachupa seis bananas e só vejo cinco nesta travessa?! Alguém comeu uma banana...
A mulher olhou para os dois (criadinha e esposo) sem querer despertar a ira de um vulcão adormecido. O relógio da Sé batia as oito badaladas da noite. Era a hora do jantar. Lá para os lados do Monte Fora, os supleta-e-fogo saíam dos escuros buracos das rochas. A Julinha era gente de confiança da casa e não tinha necessidade de roubar o que fosse, mormente uma banana da travessa que vinha para a mesa, pois sabia do controlo do seu amo.
- Zepa, já me roubaram outra vez. Há dias foi a garoupa que chegou à mesa meio encolhida com a fervura, sem uma posta, que até sei ser a do meio. Agora é a vez da banana! Nossenhor me valha! Gente sem propósitos...
- Não, padrinho, não roubei nem peixe nem banana - falou a Julinha - indignada!
Pápedro, com raiva, espumando pelos cantos da boca, muito contrariado e de mãos segurando o peito onde um agastado coração arfava, descompassadamente, começou a comer. O relógio da Sé batia a badalada da meia-hora quando a refeição terminou. A banana em falta, envolta num naco de toucinho de couro rebelde, repousava, para seu espanto, no fundo da travessa. Dizem que Pápedro ficou envergonhado com a sua sovinice crónica, coisa falada em todas as casas da Estância. Noutra ocasião, fumava o seu cachimbo americano, sentado na cadeira de balanço, quando um tição de lume, que mandara vir do fogão para acender o tabaco para não gastar um pau de fósforo, lhe caiu pelo cano de uma das botas que trazia. O lume começou a queimar-lhe a perna e, mesmo com uma faca ao lado, não quis cortar e danificar o belo atacador. Desenfiou-o, calmamente, ilhó-a-ilhó, com o lume chamuscando a sua carne. Por fim, conseguiu livrar-se do tição sem danificar o atacador, de bom nastro. Só que a ferida de má carnadura levara muitos meses a cicatrizar, não obstante os cuidados do zeloso enfermeiro, que escarafunchava-a em vez de a curar, fazendo render os seus honorários... Ainda hoje, quando vejo um relógio de bolso numa montra, vem à minha mente a figura do Pápedro, um homem que viveu uma vida inteira amealhando fortuna para legar a um desconhecido. Quantos avarentos como ele, por esse mundo fora...!
FIGURA 3
UM REGEDOR EXEMPLAR
Olhei mais além, lá para os lados dos Penedos (possíveis restos de um metereorito, de há milhões de anos) via-se a casa onde morava Nhô Djei - um regedor muito querido na Estância. Na minha meninice, ele já era um ancião maduro e uma figura respeitada na terra - uma verdadeira autoridade - no bom sentido do termo - inspirando em todos uma ideia sólida de autoridade, misturada com o medo às leis, coisa que qualquer um tem. Quase sempre, Nhô Djei usava roupas pretas e trazia uns óculos de aros metálicos sobre o nariz, de hastes já esverdeadas do suor que corria por detrás das suas orelhas um pouco afastadas da cabeça esguia. Olhava de riba da armação, quando queria ver ao longe, só utilizando as lentes, tapadas de poeira e dedadas, quando necessitava de pôr a sua firma num Atestado de pobreza ou noutro papel. Era um burocrata assumido, servindo, a contente de todos, a freguesia de Nossa Senhora do Rosário. Tinha nomeação vitalícia! A sua secretária - uma mesa de cozinha raspada e pintada de verde - uma cadeira de espaldar preto, de fundo de palhinha já rota e bem disfarçada com uma almofada de um branco já encardido pelo uso (objectos vindos da América), um tinteiro de duas bocas, uma para a tinta encarnada e outra para tinta preta, um mata-borrão salpicado com o negativo das suas assinaturas, algumas canetas de pau, rimas de papéis amarelados e, finalmente, uma velha máquina de escrever da marca Remington, de teclado negro disposto em quatro filas, tudo fazendo parte do recheio da Regedoria. A máquina de escrever, por ser americana, não tinha o "~" e o "ç" e, mesmo esse "c", por defeito de fabrico, saltava para o chão, cada vez que era pressionada a tecla. Dava dó e vontade de rir só de ver nhô Djei, de rabo para o ar, à cata do maldito "c", mal encaixado do berço, como dizia, constantemente - quase pedindo desculpas aos presentes. A máquina de escrever (um verdadeiro luxo nos anos quarenta e tais) era destinada à passagem de atestados especiais "para fora da ilha", ou registo de alguma queixa, que, pela sua gravidade, iria parar às mãos do Juíz do Julgado Municipal de São Nicolau. Apoderava-se de mim uma natural curiosidade quando lá ia, muitas vezes só para ver funcionar aquela maravilha da tecnologia. Um rolo de borracha negra por onde deslizava o papel, uma fita que com apenas um toque mágico numa alanvanca escrevia a preto ou a encarnado e o som metálico da campaínha, escondida algures, tilintando quando o parágrafo chegava ao fim... Maravilhas da tecnologia americana - pensava eu! Ainda hoje, gosto de ver e apreciar as antigas máquinas de escrever, talvez recordando-me de nhô Djei, embora fiquem à distância deste computador, onde, agora. escrevo, pensando na singular figura do já falecido Regedor. Mas, adiante...
Quando lá ia tratar de algum assunto, ou simplesmente ver o exímio burocrata despachando as pessoas que faziam filas na escadaria de pedra lavrada do quintal, de acesso à varanda de madeira da sua casa-Regedoria, onde as atendia do parapeito de uma janela, atrás da qual ficava uma velha secretária, encontrava uma outra figura carismática - a do oficial de diligências - nhô Zé de António Teófilo. Era ele quem fazia as notificações ou intimações do Julgado ou da Fazenda, transportando os mandatos num canudo de lata, já preta pelo uso, levado a tiracolo com um cordel, também amarelado pelo tempo. Ainda o vejo, alto, magro, de barba branca, bigode farto e recurvado, cara encovada e jeito de quem estava sempre atarefado. Era temido por todos, pois no ventre daquele canudo escuro transportava as indiscutíveis ordens emanadas da Lei para a Grei - como dizia! Ficara com a alcunha de Ti-Lei, pela profissão e experiências, e até recitava de cor as leis e posturas municipais. Mas voltando-me ainda ao Nhô Djei, o homem em apreço:
O seu quintal estava sempre apinhado de gente que queria apresentar queixas, solicitar atestados de pobreza para os mais diversos fins ou, simplesmente, pedir-lhe um conselho numa questão de marido e mulher. Sentado frente à secretária, meio carcomida pelos carunchos e olhando o povoado lá do alto dos Penedos, vendo o fumo escapulir-se das chaminés das casas da Estância, na maioria cobertas de palha de cana ou soca, molhava a reluzente pena de aço da sua caneta de pau num tinteiro de vidro sujo pelas moscas, coçava a cabeça com falha de cabelos e ensaiava a sua assinatura no ar, antes de a arriar ao papel - qual avião, percorrendo a pista, numa aterragem de precisão. Tinha uma caneta de tinta permanente MG, da América, mas só para os momentos solenes. Quando não queria estragar o seu mata-borrões, de difícil recarga, escavava um bocado de caliça debaixo da janela e com o pó, trazido na ponta dos dedos, salpicava o papel, esperando que o excedente da aquosa tinta preta do tinteiro de vidro amarelado e sujo fosse absorvido. Com os atestados ainda ao vento para uma secagem completa, lá iam as pessoas escadaria abaixo, satisfeitas com a eficiência de nhô Djei - um excelente Regedor, que apenas tinha por paga a satisfação do dever cumprido.
E hoje?...Haverá por este mundo fora algum Regedor como nhô Djei? O leitor conhece algum? Eu não, por mais que o procure...
FIGURA 4
UM CARTEIRO DE FAMA
Do terraço da casa, via-se o edifício da Câmara, onde também funcionavam os Correios. Não pude deixar de recordar a grata figura de nhô Xim - um bom carteiro e um amigo do papai. Via- o todas as vezes que ia aos CTT levantar as cartas do papai, separadas num cacifo a ele reservado. Como era menino, punha-me em bicos dos pés para ver a austera figura de nhô Xim - o carteiro - e, nas faltas, era mesmo chefe da Estação. Lá andava ele muito atarefado, por entre as sacas de serapilheira acastanhada - as célebres malas - com os dizeres de CTT em letras garrafais. Abria e fechava os sacos e atendia o único telefone da ilha - um que ligava o porto da Preguiça à Estância. Sim, o único! Era um aparelho de manivela, daqueles que só os mais velhos ainda têm na memória. Nhô Xim já era um homem entrado na idade quando eu ainda menino. Vestia-se, quase sempre, de caqui amarelo. De estatura baixa, atarracado mesmo, face cheia e avermelhada e procurava ser amável quando não andava atarefado, dando à manivela ao telefone, com um rum-rum que se ouvia pelo barrote acima, fazendo tocar uma teimosa campaínha no longínquo porto da Preguiça, apenas a sete quilómetros.
- Estás a ouvir-me bem! - gritava ele! - sou nhô Xim!
Cá de fora, eu ouvia os estalidos produzidos pela electricidade estática correndo nos arames de cobre, atravessando montes e vales, suspensos dos postes de madeira, levando e trazendo mensagens...
- O Ildut já entrou no porto? - perguntava! Mandem-me a mala, e depressa! Vocês têm aí algumas sacas de batatas no armazém? É que um mau cheiro chega até cá...
Esses pequenos retalhos de conversas ficaram gravados na minha mente de menino e para sempre. Nhô Xim pousava cuidadosamente o aparelho no gancho, olhava as indispensáveis pilhas mergulhados num recipiente de vidro junto à coluna onde o telefone estava aparafusado e falava-me, com um sorriso na face:
- Então, menino, tu vens levantar as cartas do teu papá? Como está ele!
Com passos vagarosos, fazendo ranger as tábuas do chão, dirigia-se ao cacifo, o primeiro do lado direito da fila de cima, e de lá retirava as cartas do papai. As pessoas aguardavam, cá fora, em bicha, até que ele tocasse ou mandasse tocar a corneta de aviso de mala aberta. Já com as cartas nas mãos, eu saía a correr dos Correios, passando pela janela de tabuínhas, virada para o Poente, onde, momentos antes, juntamente com outros garotos da minha idade, fazíamos a vida negra ao nhô Xim, quando carimbava as cartas, com a melopeia de Xim-está-doido-está -doido, ao ritmo cadenciado das pancadas do pesado carimbo de ferro sobre a almofada de borracha já pisada, e desfazendo-se aos bocados. Nhô Xim, suado, irritado e sem saber quem estava do lado de fora, vinha espreitar pela janela de tabuínhas, sem nada ver, gritando:
- Vão mas é pr’o Diabo...!
Quão bondoso era nhô Xim - o carteiro da Estância - um homem singular e querido de todos!
Um descanso à sua alma e que me perdoe das tropelias de uma criança...
FIGURA 5
FIDJINHA JATA
Pela calçada da Ladeira vira subir uma das pessoas que mais medo me incutia, quando menino e moço. Um exemplo de longevidade, vivendo em condições extremamente precárias. Tratava-se da Fidjinha - vulgarmente conhecida como a Jata (a maluca). Quando pequeno, eu brincava pelas ruas da Estância, como todas as crianças da minha idade e gostava de espreitar através das grades da Cadeia, situada no centro da Vila. Da janela, os presos olhavam para mim e, de mãos estendidas, pediam-me cigarros. Lá dentro, reinava uma sinistra escuridão e um cheiro a mofo chegava até mim, vindo das grossas grades de ferro que retiravam a liberdade àquela gente de face amarelada. Além dos presos do delito comum, havia os malucos - os mais perigosos - e, por isso, detidos por precaução. A Fidjinha nunca esteve detida pois não era pessoa calma, criatura inofensiva, pelo menos durante o dia. Andava mal vestida pelas ruas, rota, suja e com as pernas em chagas, que tapava com folhas de chaluteiras. Apoiava-se, quase sempre, num longo cajado e não falava o crioulo, mas sim um refinado português. Diziam que não era a voz dela, mas sim a de um espírito nela entranhado. Contava-se que, outrora, a Fidjinha fora uma senhora de boas famílias de esmerada educação e, por desgostos amorosos enlouquecera-se, havia um ror de anos. Raras vezes andava de dia e, só quando o sol se punha por detrás do morro da Centinha, é que ela vadiava pelas ruas, acompanhada do seu inseparável e comprido cajado. Noutras ocasiões, normalmente quando a Lua estava cheia, trocava a sua habitual calma por uma agressividade sem limites, e, por qualquer "dá cá aquela palha", corria atrás dos garotos de cajado em riste, para os agredir.
Certa vez, fui comprar cigarros, a mando do papai, e tive o azar de me encontrar com a Fidjinha, numa altura em que a Lua estava redonda. Vi a pobre e doente mulher encostada à entrada de uma das vielas medievais, a única que ia dar à minha casa e impossível de se transpôr sem se ficar ao alcance do seu inseparável cajado já polido pelo uso, coisa que nunca largava. Olhei para ela. Nesse dia, trazia os cabelos esbranquiçados, muito emaranhados e com algumas folhas secas e palhas à mistura, certamente caídas da árvore debaixo da qual passara a noite, como era seu hábito. Os seus olhos brilhantes numa face amarelada, as suas roupas em farrapos, as unhas compridas e sujas, os seus braços magros e compridos, o seu corpo esguio com as pernas salpicadas de feridas metiam-me pavor e nojo. Pelo caminho, fui assobiando para afugentar o medo que me invadia. Engano meu! Quando passei por ela, senti as suas mãos agarrarem-me pelos ombros e o cajado zumbindo nos meus ouvidos. Corri, quase sem fôlego, até chegar à casa, com a Fidjinha Jata (maluca) no meu encalço.
Anos depois, mais precisamente, em 1994, volvidas mais de quatro décadas, para espanto meu, ela ainda vivia, velhinha e apoiada ao seu inseparável cajado de chaluteira. Posteriormente, vim a saber que já não pertence ao mundo dos vivos, mas guardo na alma o medo daquela mulher, que nunca a ouvira falar o crioulo, mas sim um refinado português, de fazer inveja a qualquer um, coisa dos espíritos - dizia a voz do povo...Ainda hoje penso como foi possível a um ser, abandonado nas ruas, dormindo ao relento e sem qualquer assistência médica poder viver tantos anos?!. A Lua Cheia tinha uma grande influência naquela criatura, que, durante o resto do mês era uma pessoa tímida e recolhida no seu ego, a um canto de um muro qualquer!
FIGURA 6
O Jack das Maiamas
Conheci-o quando ele conversava com papai, sentados nos muros das hortas de bananeiras nas Maiamas, ouvindo a água cantar de pleno em pleno, correndo pelas levadas, enchendo os canteiros onde as palhas secas e os insectos mortos ficavam a boiar. Alegremente, eu corria pelos campos e olhava com admiração os coqueiros, cujas folhagem gemiam nas alturas, com medo de levar com algum coco na cabeça. Sim, eles caíam das copas, quando o vento da Prainha soprava mais forte e sem aviso prévio, enterrando-se no lodo fofo dos canteiros. Abrigado pelas largas folhas das bananeiras, filtrando raios do sol e deixando passar uma claridade esverdeada e vendo os pardais dos coqueiros debicando as papaias maduras nos pontos mais inacessíveis das papaeiras que desafiavam o céu, via eu, ao longe, a figura de papai conversando com o Jack das Maiamas - um trabalhador do campo, um homem cheio de sabedoria popular - um verdadeiro filósofo, à sua maneira... O Jack, homem de meia-idade, de estatura baixa, rosto de cor clara mas com a marca dos anos, as mãos calejadas pela dura vida da enxada e, acima de tudo, um bom conversador era um celeiro de sabedoria popular. Morava a caminho da Prainha, numa casa de paredes de pedra e barro, coberta de palha, renovada de dois em dois anos. Era dono de algumas terras, mas trabalhava outras hortas como rendeiro, incluindo as Maiamas - umas propriedades da minha família. Da sua casa avistava-se um mar sempre revolto, fazendo rolar os seixos de basalto polido, com um ruído característico que se ouvia à distância. O Jack também se dedicava à pesca à linha, quando o mar estava de feição. Ao lado da sua casa havia uma velha purgueira, o local preferido para ele fumar o canhoto e contar as histórias várias passadas durante a segunda guerra. Eu gostava de o ouvir, mormente quando contava os episódios dos submarinos e dos barcos ao largo daquela costa, não faltando os torpedos, as explosões e as chamas iluminando o horizonte. O Jack punha entusiamo em tudo o que relatava, enquanto ia enchendo o seu canhoto com a erva da terra, picada sobre uma tábua. O fumo saía do canhoto e, enquanto as galinhas trepavam ruidosamente para a velha purgueira para aí passarem a noite, ia conversando com papai. Depois, o silêncio descia ao vale, ouvindo-se ao longe a água correndo pela ribeira por entre os pedregulhos. Do outro lado do vale, viam-se as ruínas da casa da Mãe Antónia - uma bisavó minha - ainda com as suas paredes brancas pintadas sobre um fundo escuro dos bananais e matas de tarafes. Quanto ao pendor filósofico do Jack, não vou falar dele, pois daria para um tratado. Ele já faleceu, mas, no meu imaginário de menino ficaram as suas mágicas histórias da guerra, relembradas cada vez que um avião passava roncando sobre a vila - estórias que ele me contava, sentados nos muros das hortas, ouvindo o vento assobiando por entre as folhas dos coqueiros e tarafes ou o gemido das bananeiras parindo os seus cachos.
Sim, as bananeiras gemem ao parir os cachos, à tardinha...
FIGURA 7
NHO PADJAL
Olhando o vale da Ribeira Brava e contemplando o esqueleto da velha amendoeira brava da antiga horta de nhô Tomás - sim, as árvores morrem de pé! - relembrei-me das inúmeras vezes que brinquei debaixo da sua frondosa e acolhedora copa, ao lado da Coima. A algumas décadas de distância, ainda via a figura de Nhô Pajal, um zelador do Município - o velhote - vulgarmente conhecido por nhô Pajal, ribeira acima, por entre os calhaus das últimas enxurradas e vestido de cotim militar. Vejo a sua alta e magra figura, coluna vertebral curvada pelo peso dos anos, caminhando para a Coima, visível da varanda da casa de papai. Nhô Pajal era o encarregado da dita Coima (um recinto circundado por altos muros - uma prisão para os animais apanhados na via pública ou entregues às autoridades) por prejuízos causados nas hortas. A Coima situava-se mesmo ao lado de uma Lavandaria pública - um recinto com muitos tanques de cimento, onde o povo ia lavar as suas roupas, quando as ribeiras não levavam água. Desse local, avistava-se o interior do recinto, onde os burros, as cabras, os cavalos e os bois coabitavam em fraterna harmonia, disputando a exiguidade de um espaço mil vezes recalcado pelas patas dos animais. Sentava-me num dos bancos de cimento, à sombra de um frondoso tamarindeiro, deixando cair as pétalas amarelas sobre a minha cabeça, quando os paradais partiam em debandada para a amendoeira brava da horta de nhô Tomás. Gratas recordações de nhô Tomás, um homem bom e amigo de todos, já não pertencente, infelizmente, ao mundo dos vivos. Regava as suas bananeiras com as sobras da lavandaria, uma água espumosa mas que adubava as suas viçosas plantas, ostentando belos cachos e altas papaeiras carregadas de frutos maduros. Postado no muro sobranceiro à Coima, eu ficava a contemplar, com uma certa revolta íntima, diga-se em abono da verdade, esse tal presídio para os animais, vulgarmente chamado de Coima. Ao meu lado, debruçado sobre o mesmo muro, um ancião recém-chegado dos Campos do Norte retirara da cabeça o seu boné de xadrez, enxugou a testa com um lenço amarelado pelo uso, em cujas pontas trazia algum dinheiro embrulhado. Com as mãos em concha (as lavadeiras conversavam em voz alta, contando as estórias das patroas da Estância), gritava: - Nhô Pajal? Nhô Pajal...
O zeloso funcionário do Município, lá em baixo, no recinto da Coima, tentava desembaraçar um bode preto cuja corda se en-rolara aos chifres. O desinfeliz animal berrava mais alto que o ancião, postado ao meu lado.
- Nhô Pajal! - insistia o homem! Venho levantar o meu burrinho...!
Nhô Pajal olhou para o alto onde estavamos, tapando os olhos meio escandeados com a alvura dos lençóis, que as lavadeiras estendiam pelos muros fora, depois de corados com anil e excrementos das galinhas, pois, na época, ainda não havia os milagrosos detergentes que tornam tudo mais branco que o branco...
- Sou eu! - Antône de Titinha, lá do Norte, e venho buscar o meu burrinho, aquele que deu entrada na Coima ontem, e que tanta falta me faz lá em casa para o trabalho nas hortas, como nhô
Pajal bem pode calcular. O fiscal, lá de baixo, olhou o seu interlocutor e falou-lhe:
- Dê uma volta e entre pelo portão!
Mostrou-lhe o caminho com os dedos. O portão era de rija madeira e dobradiças de ferro forjado, sempre fechado com uma grossa corrente que até dava para amarrar um vapor. Nhô Antône enrolou a corda que trazia nas mãos e apressou-se, pois o zelador tinha pressa em fechar o recinto, tendo já nas mãos uma pesada chave de ferro. Na lavandaria do povo, algumas raparigas batiam as roupas nas muitas barrelas de cimento, enquanto a água jorrava das torneiras de latão polido pelas mãos, correndo as sobras para as levadas que iam ter à horta de nhô Tomás, com uma água misturada à branca espuma do sabão. Do alto do muro, as flores do velho tamarindeiro pingavam sobre mim.
Pude seguir o diálogo:
- Nhô Pajal, o meu burrinho não teve culpa! Foi só um instantinho e a coisa aconteceu. O animal roeu a corda e entrou na horta de nhá Cacai e ele só teve tempo de comer umas ramadas de aboboreira velha e cinco covas de milho, ainda por trabalhar. O velho zelador, encostado ao muro dianteiro da Coima, tentando dar descanso à sua coluna vergada pelo peso dos anos, friagem do tempo e desgostos da vida, coçou a cabeça com alguns cabelos pretos, e disse-lhe:
- Sabe Nhô Antône, Lei-é-Lei! Estou aqui para cumprir e fazer cumprir todas as posturas municipais. Você paga a coima e já pode levar de volta o seu burrinho para o Norte...
- Mas, nhô Pajal não podia dar um jeitinho à coisa?! Se for preciso, até trago um dinheirinho comigo, enrolado neste lenço, está a ver! Vim preparado (fez menção de retirar o lenço do bolso das calças com as moedas sonantes).
- Não e não! Lei-é-Lei! Você não me ouviu agorinha mesmo dizer isso! Paga, passo-lhe o papel e leva o burro...
A um canto, um bezerro, nascido no cativeiro, castigava os úberes secos da mãe, à cata de algum leite, que a escanzelada vaca ainda lhe podia dar. Na amendoeira brava da horta de nhô Tomás os pardais chilreavam, querendo fazer coro com as cantadeiras da coladeira nhô Antône Scadêrôde, que estava sendo acompanhada pelo bater das roupas nas barrelas de cimento estalado. No interior da Coima, nhô Antône - o homem do Norte - não teve outro remédio que pagar a multa para poder levar de volta o seu burrinho de estimação, que tanta falta lhe fazia na lavoura:"o meu companheiro fiel na palha, na lenha e quando vou à Fonte" Já no Largo da Passagem, encontrei o dito ancião levando o jumento pela corda, a caminho do Bebedouro Municipal. Nenhuma clemência foi concedida ao pobre homem, que perdeu um dia de trabalho no campo, para vir à Estância retirar o seu pobre animal da Coima, convicto de que conseguiria quebrar o gelo entranhado na alma daquele zelador fiel.
Ainda pensando no fiel zelador do município, olhei para um grupo de moças do povo que se dirigiam ribeira acima, com trouxas de roupas por lavar. Veio-me à memória uma lavadeira da mamãe, de nome Filipa Paula: Na Ladeira, um pouco acima da minha casa, morava ela - a principal lavadeira de roupas das boas casas da Estância. Vivia num rés-de-chão de uma constru-ção antiga, de muitos séculos, habitada na parte superior por uma outra família, vizinha da casa dos meus avós paternos. Era baixa, atarracada, muito ágil apesar da sua idade, e fumava canhoto, sentada à soleira da porta da sua casa de chão de terra batida, paredes de pedras à mostra, mas muito limpa e arrumada. A cama de finca-pé via-se coberta com uma colcha de retalhos de várias fazendas coloridas e os poucos móveis enfeitados com toalhas rendadas. A única porta, quase sempre semi-cerrada e sustida no local com ajuda de uma pedra polida pelo uso, guinchava, tristemente, nas desengonçadas dobradiças seculares, quando soprava uma aragem fria e cortante, vinda de uma vereda, a que chamavam de Canalinho. Quando menino, ia à sua casa levar-lhe algum recado da mamãe. Encontrava-a, quase sempre, sentada na soleira da velha porta, fumando no seu inseparável canhoto, cuja erva largava um cheiro acre que invadia o quintal e sentia-se a distância. Ao lado, no quintal, as galinhas debicavam pedaços de hortaliças que ela ia cortando, com paciência, sem pressas, com ajuda de uma faca bem afiada. Nhá Filipa, pelo menos, duas vezes por semana, batia à porta da casa da mamãe para levantar a trouxa com as roupas para lavar na Ribeira, ao mesmo tempo que dava dois dedos de conversa, antes de seguir para as Àguas Caídas, local das lavagens. Levava sabão da terra em bolas e o imprescindível anil, embrulhado na ponta de um trapo. Muitas vezes, ia eu ao local entregar-lhe alguma coisa deixada no chão do nosso quintal. Aproximava-me da verdejante Ribeira de João, por entre hortas de bananeiras, plantações de cana sacarina e frondosas mangueiras carregadas de aromáticos frutos maduros, cujas copas não me deixavam ver o céu. Ouvia a água a cantar de pedra em pedra, seguindo ribeira abaixo. Do dique, avistavam-se as lavadeiras de saias atadas à cintura com cordas de bananeiras e, entre elas, nhá Filipa lavando as roupas, à saída da bica, local onde a água era mais límpida. Do alto, eu contemplava aquela boa gente, de vestes garridas, movimentando-se por entre os brancos lençóis espalha-dos pelas pedras das margens. Algumas banhavam-se semi-nuas nas pequenas represas feitas de pedras e palhas, indiferentes aos olhares fortuitos dos caminhantes. Era fácil, para mim, identificar as toalhas da casa da mamãe.
Nhô Padjal era a bandeador (homem que tocava o tambor e lia os editais da Edilidade). Era uso nessa época, 1950, as posturas municipais e avisos importantes serem divulgados, como na idade média, por meios usuais, isto é, tocando tambor para juntar as gentes e em seguida lia-se o conteúdo do papel. Quando o som do tambor ouvia-se nos basaltos e empenas do Largo da Igreja, todos corriam à espera de Nhô Padjal para se inteirarem das novidades da Estância...
FIGURA 9
NHA ZABEL
Falando-vos de vidas difíceis, vejo a austera figura de nhá Zabel - uma mulher que alugava alimárias para transporte de cargas. Sempre a conheci vestida de tecido preto, já coçado pelo tempo, debruçada sobre um muro de pedras soltas do seu quintal, no S. João, onde morava. Quando menino, ao dirigir-me à Ribeira da Caixa - uma propriedade da minha família - passava pela sua casa. Ela era alta, forte e com uma cara de poucos amigos. Nunca a vi sorrir e raras vezes falava. Vivia do aluguer das suas mulas - os únicos meios de transporte de pessoas e mercadorias entre a Vila e o interior da ilha, nos anos quarenta e tais... Nunca cheguei a saber dos motivos para tão persistente luto de um preto refinadíssimo, cor que ela transportava sobre os ombros curvados, anos a fio, e enquanto durou. Talvez a reminiscência de uma viuvez precoce que tivesse levado, para sempre, o sorriso daquele rosto perturbado e perturbador. Até diziam que era feiticeira! Raras vezes a ouvira falar, mesmo com os vizinhos. Do alto do muro da sua casa, cujo topo estava protegido por fragmentos de vidro de garrafas de varias cores para evitar a entrada de suspeitos, pedaços esses que o sol fazia faíscar como diamantes a determinadas horas do dia, nhá Zabel olhava o mar, lá ao fundo, do alto onde morava. Igualmente contemplava o casario da Estância, sempre de canhoto descaído nos lábios, deixando escapar o fumo aos rolinhos, à espera que alguém lhe batesse ao portão, para alugar alguma das suas impacientes mulas, retidas no curral e esfregando os compridos pescoços nas traves da barraca, procurando afugentar as impertinentes nuvens de moscas dos cavalos, próprias da épocas das águas. Quando eu passava junto ao muro do seu casebre, sentia aquele cheiro característico a erva queimada, vindo do seu canhoto. Com um misto de respeito e de medo, cumprimentava nhá Zabel, que, lá do alto, respondia-me:
- Bom dia, menino! Mantenhas à sua mamãe.
Sim, ela conhecia a minha família a quem alugava as montadas quando delas necessitava. Cheguei a viajar do Tarrafal para a Estância numa das suas mulas - a preta - a mais mansa do curral, animal que ela reservava para as pessoas mais chegadas. Ainda conservo nas narinas o cheiro a couro dos arreios e do seu selim, sempre bem untados com sebo de carneiro. Também oiço o ranger da sela nas albardas almofadadas que protegiam o lombo dessa mansa mula preta. Contava-se que, certa vez, um dos comerciantes abastados da praça, necessitando de uma sela para se deslocar com urgência ao porto da Preguiça, mandou um criado seu à casa de nhá Zabel, com o pedido de um selim, por empréstimo ou alugado.
Procurarei reconstituir o diálogo:
- Bom dia, Nhá Zabel!
Nhá Zabel, debruçada sobre o muro do quintal, com aquele ar de aborrecimento sem fim, vestida de preto como era seu hábito, deve ter sacudido a cinza do canhoto sobre as pedras do muro, olhado de alto a baixo o mensageiro, dizendo-lhe:
- Bom dia, rapaz! O que queres, rapaz, assim tão de madrugadinha ainda!
- Venho trazer-lhe um recado do meu patrão...
- Diga lá...
- Nhô C manda pedir a sela de Nhá Zabel...
A mulher, certamente atirara o xaile preto para cima dos ombros, e, do alto do muro, olhou o rapaz, deitando ao mesmo tempo um rabo de olho para as suas impacientes alimárias, à espera dos feixes de palha das manhãs, antes de partirem para os fretes.
- Então nhô C mandou pedir a minha sela!
- Sim, senhora! Foi o recado que ele mandou.
Entretanto, as mulas já estavam na rua, com os cascos rangendo nas pedras das calçadas de São João. O relógio da Sé batera as seis primeiras badaladas de um dia que começava muito cedo.
- Está bem, rapaz! Tu não tens culpa! És apenas um moço-de-recados... O criado, visivelmente assustado com a visão daquela sinistra e cativante figura vestida de negro dos pés à cabeça, procurou desviar a atenção para os pardais que faziam os ninhos nos beirais de um palheiro.
- Vais lá baixo e dizes ao teu padrinho que nhá Zabel só tem mulas para alugar e que não usa sela. Pode ser que um dia venha a fazê-lo, mas ainda não...!
O rapaz olhava para um ninho, marcando-o para depois ir lá retirar os pardalitos, quando nascessem...
- Nhá Zabel é mula (desaforada), mas ainda não usa sela! Sela, sim, mas de nhás mulas (das minhas mulas), seu garoto-de-uma-figa e não te esqueças dar o recado direito ao nhô C...
O mensageiro partira Ladeira abaixo com uma mensagem que, pela certa, nem chegara a entender...
FIGURA 10
NHO ROQUE
Muitas vezes fui chamar o barbeiro nhô Roque, para ir à minha casa cortar os cabelos a papai. Ele morava na Chãzinha - local donde se avista um majestoso vale e o mar da Prainha, sempre revolto, como pano de fundo. Para lá se chegar, seguia eu pelo caminho de cima, verdadeira vereda, encontrando-me com as mulheres que iam fazer os despejos na Montureira Municipal, vulgarmente conhecida pela designação de Colaça. O cheiro nauseabundo dos currais dos porcos, misturado com o dos lixos ardendo lentamente a descoberto, empestava o ar. As canhotas (abutres), empoleiradas muros e rochedos vizinhos, exibiam os pescoços compridos e pelados e as penas de um branco sujo, olhavam para mim com indiferença, habituadas à proximidade do caminho. Por fim, chegava-se à casa do barbeiro nhô Roque. Figura alta, magra, tez escura, gestos delicados, cabelos e sobrancelhas brancos. Era assim o barbeiro do papai. Ele e os filhos não tinham mãos a medir para darem vazão às barbas e cabelos dos muitos amigos que, sentados nos muros, principalmente aos sábados e domingos, aguardavam a vez de serem atendidos.
- Bom dia! - cumprimentava-me, com amizade!
Uma tesoura, manejada com destreza, parava de crepitar em se-co ou nos cabelos do freguês, que, sentado num mocho, à sombra de uma papaeira, olhava o Morro do Lombinho. Lá longe, o mar revolto e as pedras rolando numa praia quase sem areia.
- Bom dia, menino - respondia-me, com um certo atraso...
- Papai gostava que nhô Roque fosse lá à casa cortar-lhe o cabelo, quando tiver vagar, claro está!
O barbeiro parava, acendia um cigarrinho de palha de milho, para depois me responder:
- Sim! Diga ao papai que vou lá hoje, depois da sesta, pela fresquinha da tarde.
Por momentos, ficava eu especado no seu quintal, observando tudo, sem saber porquê! Talvez, para um dia poder reproduzir a cena, gravada na minha memória. Um freguês já estava rapado e um outro preparava-se para tomar o seu lugar no mocho, ainda em equilíbrio instável devido ao chão irregular, calcetado com lascas de pedras, cujos intervalos viam-se tomados pelas madeixas de cabelos de vários tipos e tonalidades, encurralados pelo vento num dos cantos do muro. Nhô Roque, com uma tira de couro preso nos dedos do pé, afiava uma navalha-de-barba americana - da marca "Self" - que, juntamente com a tesoura e duas máquinas de cortar cabelo, ainda nas caixas de origem, constítuiam as ferramentas do seu trabalho - o meu ganha-pão - como afirmava, orgulhosamente. Uma tigela, um pincel já desprovido da maioria dos pêlos e cabo estalado, uma toalha amarelada pelo uso, tudo isso fazia parte do seu estojo de emergência. Eu olhava o interior da casa, cuja porta se mantinha sempre aberta com ajuda de uma pedra. Lá dentro, a mulher costurava vestidos de noiva numa velha máquina de pedal. As galinhas procuravam um local para os ovos do dia, debaixo de uma cama coberta com uma colcha de retalhos coloridos. O chão de terra batida, vulgar nas casas das gentes mais pobres, via-se impecavelmente limpo. Nas paredes, alguns calendários de anos já passados (quarenta e oito e outros), como se o tempo tivesse ficado fossilizado no meio dos retratos familiares e de eventos de interesse. A costureira atendia as candidata a noivas lá dentro, indiferente aos olhares curiosos dos circunstantes. Uma a uma provavam as peças íntimas, apenas protegidas por uma cortina de tecido transparente, suspensa do tecto de um improvisado varão de cana de carriço.
No exterior, sobre os muros de pedras soltas, viam-se os alfobres de tabaco e couves, plantas que nhô Roque levaria para a sua hortinha na Ribeirinha, quando a época das águas chegasse. Os pardais debicavam as papaias lá no alto das papaeiras fêmeas, pois as papaeiras macho só deitavam flores, cobrindo as pedras do quintal com um manto branco e perfumado. Na data marcada, o barbeiro batia à porta da casa, conforme ficara combinado. Papai usava as seus utensílios de barba, embora o barbeiro trouxesse a mala bojuda com todos os seus apetrechos. Conversavam sobre os mais diversos assuntos da vida local, das chuvas que não vinham ao falecimento dos amigos comuns. No fim, papai gratificava-o e bem. Foram sempre bons amigos. Dois homens e duas figuras que me cativaram. Descansem em paz - os dois - ele e nhô Roque...
FIGURA 11
QUIAS BARÓMETRO
Conheci alguém que, quando ia cortar o cabelo, usava de todos os subterfúgios para se esquivar a qualquer pagamento ao barbeiro. Tratava-se do Quias - um barómetro das chuvas. É com saudades que recordo-me dele. Alto, magro, barbas sempre por fazer, usando roupas de boa qualidade que os amigos lhe davam e que, aos poucos, iam ficando rotas e descaídas naquele corpanzil desengonçado e encimado por uma cabeça pequena no tamanho, mas grande no conteúdo. O Quias era amigo da minha família e estava sempre disponível para ir levar algum recado, mesmo que para fora da vila, contando, é claro, com uma pequena recompensa em dinheiro para a groguinha ou em géneros para ajuda da casa. Vejo-o subindo a Ladeira, com um telegrama nas mãos para entregar na vizinhança. Batia ao portão com o papel dobrado no bolso, cobrava o recibo bem como a dádiva e retirava-se de imediato quando pressentia ser o mensageiro de alguma má notícia. Ouviam-se choros e gritos. O povo juntava-se e o Quias já ia longe do barulho...
- Adeus nhô Bento qui bái p’á terra de sôdade...Eram as guisas habituais...
Se fosse a notícia da morte de algum americano, uma pensão choruda viria a caminho, passados poucos meses e, a isso, ficava atento. O Quias descia a Ladeira apoiado nas paredes. O hábito da groguinha, tomada de manhã à noite em todos os botequins da Estância com os amigos ou mesmo desconhecidos, era o seu maior inimigo. Frequentemente, batia à porta da casa da mamãe, sempre com a mesma frase na boca:
- Nhá Mélia, hoje não me dá um troquinho para o rapaz molhar a goela?
Nhá Mélia (assim era conhecida a mamãe) nem sempre ia nas cantigas do Quias, mas, algumas vezes, lá abria os cordões à bolsa. Assim que sentia as moedas na palma da mão, partia na direitura do primeiro botequim aberto. Recordo-me do Quias, com saudades. Certa vez, após desembarcar no Tarrafal, eu e ele tomamos o caminho da Ribeira da Caixa. A dada altura, a mula, alugada à nhá Zabel, começou a tropeçar-se nas pedras do carreiro, ameaçando cair a qualquer momento. O Quias transportou-me "às cavalitas" até chegarmos à zona mais segura da Ladeira do Cabeçalinho. Ele contava-me longas histórias de feiticeiras da Ribeira Prata, terra da sua naturalidade, que "voavam" de noite, espalhando fachos de luz e montadas em vassouras. Miudo que era, acreditava nos contos, e que ficaram a fazer parte do meu imaginário infantil. O Quias conseguia prever a vinda das chuvas, facto que fez dele um homem muito procurado pelos agricultores.
- Nhô Quias, quando é que chove! Posso fazer as semen-teiras a seco?
Normalmente acertava.
- Estes ossos velhos são o meu barómetro! - dizia - no intervalo de dois cacos (copos de grogue).
Figura singular a desse barómetro, que conheci durante a minha meninice...
FIGURA 12 - UMA CARTA
A ZÉ DA LUZ DA LADEIRA
um amigo doente:
Outra figura típica do meu tempo da escola primária e da meninice, foi a do Zé da Luz - um grande inventor:
Vi-te, Zé, quando estive em São Nicolau, em 1994. Fotografei-te, a teu pedido, encostado a um dos muros de São João, ao lado de um portão amarelo. A tua pose era a mesma que tinhas, quando, nos anos cinquenta, logo após a feitura da tua quarta classe, com distinção, e por não teres posses, por seres pobre, não frequentaste o Liceu, em São Vicente, como eu. Nessa altura, tiraste uma carinha, (fotografia) para o teu contrato de trabalho para as roças de São Tomé. O tempo deixou marcas no teu corpo e a tua mocidade foi-se. A tua odisseia e a de outros colegas da escola primária, teus companheiros nas malditas roças de São Tomé, levou-me a escrever, a pedido de um de vós, por ser mais letrado - só por isso - o Romance TERRA LONGE...
Recordo-me das nossas tropelias de crianças nos tamarindeiros da Mina ou nos espinheiros do quintal da casa do meu avô, vizinha à tua - a tal árvore que, por amor a todos nós, as criancinhas de então - despira-se dos seus espinhos, quase por milagre, para podermos brincar à vontade, lá do alto a que chamávamos de cesto-da-gávea, lembras-te! Víamos a Estância, do Seminário à torre da Sé. Sim, Zé, brincámos aos marinheiros, talvez com vontade de partir para longe, como sonhara Nhô Chic’Ana, "nem que fosse num esquife de piteira..."
E o que aconteceu?
Tu foste parar às malditas roças de São Tomé - aquela terra longe - que roeu o teu corpo e marcou a tua alma, para sempre...
- E tu, mais sorte que eu tiveste? Pensas e com toda a razão...
Em 1994, volvida uma vida, fui encontrar-te encostado a uma parede, de pernas fracas, andar trôpego e o rosto tapado de barbas brancas. Já não vais na ponte de comando do teu barco alegórico, feito de paus de piteira, sacas de serapilheira e folhas de papel das sacas de cimento, aquando dos festejos do Carnaval, no grupo "Os Ladeiristas" que dirigias. Vejo-te, ainda no Grupo, tocando o cavaquinho e ensaiando as marchas, ou fazendo as lanternas e balões de papel de seda para as Divinas e Festas de Nossa Senhora do Rosário. Sinto o cheiro a ramos frescos dos tarafes e lacacões - espécies hoje já extintas - com que enfeitavas os paus de carrapata, fincados no chão, depois de engalanados, no Largo da Igreja. As velas eram acesas no interior das lanternas e balões, logo que Sol desaparecia no Monte da Centinha. Luzes trémulas encantando os nossos olhos de crianças sem horizontes, fechadas numa porção de terra, rodeada de água por todos os lados - coisa que o nosso Livro de Geografia chamava de Ilha. De vez em quando, uma lanterna ou balão pegava fogo e, com um baque surdo, tombava sobre as negras pedras das calçadas. Corríamos para apanhar os pedaços dos nossos sonhos: o arame e a vela meio ardida, entranhada nas frestas das pedras, tomadas pela grama verde da época das chuvas.
É assim a vida, Zé...! A vida...
Um sonho, um balão, que, quando menos se espera, se incendeia e cai...Fica um abraço do teu amigo - daquele que saltitava contigo sobre os montes de areia preta, aquando da construção da Escola Central, em 1946, onde papai, o nosso professor, leccionou durante tantos anos, ensinando as primeiras letras a nós e a muitas gerações de crianças, hoje homens.
Em 1994, com mágoa, fui encontrar a nossa Escola Central transformada na Biblioteca João Lopes, continuando, por ingratidão política, esquecido pelas gentes responsáveis de S. Nicolau, o nome do grande professor e figura de destaque no meio, que foi Luís Almeida Gominho, meu papai e nosso mestre.
A ele e à mamãe, que me deram a vida, dedico-lhes, de alma e coração, este livro, [CAMINHO LONGE PARA S. TOMÉ - II PARTE] escrito em Dezembro de 1995, no virar do I Centenário dos seus nascimentos (1895-1995).
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Falei-vos das ALGUMAS FIGURAS TÍPICAS DE S. NICOLAU, com relatos de uma vivência passada, para memória dos vindouros. Tentei repescar algumas figuras - as que mais marcaram o meu imaginário infantil - infelizmente todas já desaparecidas do convívio dos vivos.
Lisboa, 15 de Maio de 2005
Autor: Adriano Gominho
adriano.gominho@sapo.pt
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[e Book]
ADRIANO DE ALMEIDA GOMINHO
CABO VERDE
(648k)
CAMINHO
LONGE
DE S. TOMÉ
[romance]
LISBOA, AGOSTO DE 2005
“Cabo Verde não é Europa,
nem é África. É Cabo Verde.
(Uma reacção química onde os reagentes não aparecem no final, mas sim, o resultado o povo cabo-verdiano)”
(*) Palavras do saudoso professor e amigo,
Doutor Baltasar Lopes,
proferidas numa entrevista a uma Rádio, em Lisboa, em 19 de Maio de l987.
DEDICATÓRIA:
À memória dos meus pais,pela passagem do I Centenário dos nascimentos
(1895 -1995)
À minha mulher e companheiraMaria Teresa Gominho
A todos os colegas da escola primária
que foram parar às roças de
São Tomé,
a José da Luz, recentemente falecido.
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Fome é ter uma camisa de lã
no Verão,
as mesmas botas quentes do Inverno,
deitar-se apenas com uma chávena de café à noite,
ver o filho que estuda à luz da vela,
por fotocópias pagas pelos colegas...”
(*) in “Público”
pg. 3, em 4.7.1994
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NOTA PREAMBULAR
Durante a minha meninice, assisti, com mágoa,
à partida e à chegada de contratados da ilha de
São Nicolau, em Cabo Verde, gentes que, para
não se deixarem vencer pela fome, não tiveram
outra hipótese que não fosse ir sofrer a vida, nas
inóspitas e malditas roças de São Tomé. Assim, se
o engenho e a arte me ajudarem, é meu intento
guiar o leitor amigo ao interior de uma dessas
roças (uma qualquer) e, possivelmente, levá-lo ao
cerne das almas de uma pobre família a de Nhô
Djonzinho, um bom rabequista nascido e criado
nas áridas e amareladas terras do Norte-a-Baixo,
.
Escrito em Lisboa, Agosto de 1997
Revisto pelo autor em Abril de 2005
ADRIANO GOMINHO
Bibliografia consultada
*LOPES (Baltasar) Romance CHIQUINHO, 2ª edição, PRELO - Lisboa 1961)
*MARKY (Sum) Romance AS MULATINHAS - RECORD EDITORA
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ESTÂNCIA Vila da Ribeira Brava
ILHA DE SÃO NICOLAU
DÉCADA 1950/1960
CAPÍTULO 1
Foi num daqueles dias em que, na vila da Ribeira Brava, vulgarmente chamada de Estância, uma leitosa e persistente névoa descia pela encosta do Monte Fora e, teimosamente, ficara a pairar sobre as esguias e hirtas hastes das carrapatas da Ladeira da Igreja, onde já mal se enxergavam os plenos de pedras soltas, laboriosamente feitos pelos melhores pedreiros da ilha, a troco de um salário que servia, apenas, para mitigar a fome dos muitos anos de uma persistente estiagem. O Pico do Lombinho qual sentinela de pedra, postada entre o céu cinzento e a ressequida terra amarelada vigiava a adormecida Estância, ainda tomada pelo fumo branco da feitura do café da manhã, brotando mansamente das casas. Na Ladeira de São João um dos Bairros da Estância alguns burros e mulas, retidos nos currais de pedra, expeliam vapores pelas narinas erguidas ao ar, após uma noite fria de um Novembro qualquer. O zurrar de uns contagiava os outros e os sons estridentes, silvando mesmo, ouviam-se em desafio, indo os ecos morrer lá para as bandas da Coima, após bailarem de rochedo em rochedo. No Terreiro o largo principal da Estância, o secular relógio da Sé, que, segundo algumas versões dos mais antigos, tivera, em tempos idos, um vidro redondo, devia bater as primeiras sete badaladas da manhã. Também era voz corrente, que o hipotético vidro fora partido por coices de uma mula demoníaca, vinda dos lados da Prainha, numa noite escura como breu, passando pelas vielas da Estância de Baixo, arrastando uma pesada corrente de ferro pelo chão da negra calçada de basalto, retirando chispas de fogo das pedras, indo parar, espumando lume pela boca, no Largo do Terreiro, para, logo depois, partir aos coices esse tal vidro redondo do relógio. Lendas...lendas, mas, adiante...Esse relógio de mostrador branco, ponteiros pretos e números romanos, já comidos pelo tempo e mal desenhados sobre um mostrador sem cor como vos ia contando, para não perder o fio à meada devia bater as sete primeiras badaladas, nessa manhã sombria, fria e triste. Estava eu à varanda da minha casa. Mentalmente, fui contando as secas pancadas do badalo de ferro no bronze secular e esverdeado do sino, bem alojado no alto da torre e protegido dos pássaros por uma rede de aço, já apodrecida pelo tempo. Seis...sete...oito...nove...quinze, vinte e mais badaladas... Algo de errado se passava nas escuras entranhas, prenhes de rodas dentadas e de complicadas engrenagens, molas, cabos, roldanas e pesos do secular relógio da Sé.
- Está desmaquenado! dizia a Maria de Miguel Teia uma vizinha da minha casa - que, na altura, desenformava um binde de cuscuz de milho amarelo de Angola, para vender aos fregueses, hábito de todas as manhãs na Estância.
O Toi Maninha, que descia Ladeira abaixo com o seu burro coberto de moscas e preso a uma corda de coco, a caminho do bebedouro da Passagem, foi acrescentando:
Está mas é desenfreado!
Na verdade, também eu reconhecia que esse relógio estava desafinado, ou aliás, tinha tomado o freio nos dentes, como soe dizer-se. No Alto do Pasmatório, alguém procurava o Mano Tau, a única criatura de Nossenhor que Nhô Padre Capuchinho deixava subir os degraus de ferro da íngreme escadaria de caracol para proceder ao seu conserto.
Nhô Mano? gritava alguém, com as mãos em concha!
Nhô Mano? Viram esse homem? perguntava o apressado sacristão a todos os transeuntes...
Entretanto, o jumento do Toi Maninha, já muito impaciente, tentava rebocar seu dono, puxando-o pela corda de coco, em direcção à Passagem, onde ficava o bebedouro, cujo ruído da água, caindo da bica de ferro para o tanque, já se ouvia perfeitamente.
Sabem que esse relógio faz muita serventia a toda a Estância acrescentara Toi rebocado pela Ladeira abaixo pelo jumento, morto de sede e apoquentado com as moscas dos cavalos, zumbindo, incessantemente, à volta das suas orelhas caídas.
***
Quem era esse tal Mano Tau? Estará curioso o leitor amigo!
Figura muito singular, a desse homem que conheci durante a minha meninência, quando me deslocava à sua velha carpintaria, situada num sobrado abandonado, no Alto do Pasmatório (local onde existe uma Igreja protestante), para lhe dar algum recado do papai, ou, simplesmente, para admirar os trabalhos que ele fazia com a madeira, nomeadamente, violas, violões, cavaquinhos, rabecas e outros instrumentos musicais.
Da última vez que o visitei, foi para saber se já colara as per-nas da cadeira de balanço de papai coisa da sua estimação e que, dias-há, estava na sua oficina aguardando uma folga do artista, a chegada do grude de São Vicente ou boa disposição.
O Mano era um homem de mil ofícios: carpinteiro, relojoeiro, mecânico e muito mais. Na sua atravancada oficina e residência, ele corria de um lado para outro, por entre os montões de cavacas e de serraduras de aromáticas madeiras da Guiné. No ar havia sempre aquele cheiro a grude acabado de cozer em banho-maria, a vernizes e a tintas. Nas paredes viam-se penduradas as ferramentas, os moldes em papel, as facturas e até calendários de anos já passados. Havia um, de mil novecentos e quarenta, vindo da América e com uma vista da Estátua da Liberdade. Mano Tau era um homem robusto, atarracado mesmo, já com os cabelos e barba brancos, trazendo, quase sempre, por detrás da orelha direita, um lápis amarelo de ponta grossa daqueles que os carpinteiros usavam. Na orelha esquerda viam-se os restos de um cigarro morto, manchado de nicotina e retorcido. O Mano necessitava das suas duas mãos para colar a barriga ou as almas dos instrumentos musicais que reparava, e o cigarro, feito com tabaco da marca Gool, ficava guardado atrás das suas largas orelhas. Esse homem sempre me impressionou positivamente, desde a minha meninice, pela sua viva inteligência, pela sua habilidade manual e entusiasmo postos na feitura das coisas, das mais simples às mais complicadas, sempre movido por um grande sentido prático da vida. De trato afável, muito conversador e amigo da pequenada, que andava à sua volta para apanhar os restos das madeiras para os carrinhos de brincar, ou pedindo-lhe que fizesse, no seu torno, um pião de pau de laranjeira para as nossas brincadeiras. Mano Tau agradava a todos, dos mais novos aos mais velhos. Consertava os relógios de quaisquer marcas, de pulso, ou de algibeira, os gramofones americanos com as cordas partidas, as ventoínhas e até as telefonias a última palavra da técnica de então. Vestia-se, quase sempre, calças de ganga azul de suspensórios, que recebia de um tio da América, camisa de xadrez e gostava de beber o seu cálice de groguinha, na sua oficina ou nos botequins, acompanhado de algum amigo ou freguês satisfeito. Hoje, penso que, se fosse dado ao Mano Tau uma oportunidade para estudar (o homem que inventou uma máquina automática para medir os tecidos nas peças durante os balanços anuais), poderia ter sido um cientista ou, quiçá, um artista de renome. Infelizmente, quantos rapazes com talentos, como esse, ficaram pelo caminho! O ensino não era para todos... O Mano foi uma dessas criaturas perdidas no espaço e no tempo! Paciência, já faleceu! Foi esse artista que, empoleirado no alto das escadarias da torre da Sé, por entre as rodas dentadas, roldanas, pesos e engrenagens várias e com dois grogues na asa, tomados no botequim da esquina do Terreiro, tentava consertar os delicados mecanismos desse secular relógio, que fazia parte da história e das vidas das gentes da calma Estância – uma vila situada no vale da Ribeira Brava onde nasceu o autor.
A reparação do relógio era um árduo trabalho para o Mano Tau, pela exiguidade de espaço do trabalho e que certamente lhe tomaria quase toda a manhã. Ao descer o último degrau da escadaria de acesso à torre, e ao pisar o chão de lajes de pedra da porta da Igreja, trazia naquele rosto cândido e simples de um homem bom um nítido sinal de contentamento do dever cumprido. Sabia que as badaladas desse antigo relógio eram as únicas marcas no tempo para aquela pobre gente, sem mais referências que não fossem o assomar e o cambar do Sol, todos os dias, lá para os lados do Morro do Lombinho ou do Monte da Centinha. Falei com o Mano Tau, no Largo do Terreiro, à sombra das frondosas amendoeiras bravas carregadinhas de frutos encarnados, debicados pelos pardais de coqueiros, vindos do Tanchon. O suor escorria-lhe pelo rosto, sempre por barbear, onde os pêlos brancos já eram predominantes. Ele explicava a todos os curiosos, onde eu me incluía, os trabalhos complicados para ”pôr aquela geringonça nos eixos”, enquanto enxugava a cara com um lenço amarrotado e amarelado pelo pó e uso prolongado.
Mano? Nhô Mano, vai uma groguinha?
Era o chamamento de um dos comerciantes do Largo do Terreiro, seu reconhecido amigo de velhos tempos...
Vou já aí ter! Era a sua voz rouca, acompanhada pelo incessante gesticular dos braços.
O Mano continuava a falar aos mais curiosos, e eram muitos.
Após a trabalheira de hoje, o malvado do relógio está aí para durar. Ainda ele vai ficar a bater horas, quando o meu e vosso relógio o de dentro do peito,- o coração parar de vez, mais tempo, menos tempo! Sim ele também pára um dia...
Momentos depois, o velho relógio batia as doze badaladas do meio-dia. O som vinha do alto da torre, através da grade de ferro enferrujado, protegendo um sino de cor esverdeada. Como era hábito na terra, as pessoas idosas, as mais crentes, rezaram em surdina:
“Ave Maria, Cheia de Graça...”
CAPÍTULO 2
Seguindo eu pela Rua Direita por ironia a mais torta da urbe passei, como era hábito, pela Casa Neves, uma loja do mais próspero comerciante da praça naquela época e onde trabalhava uma irmã minha, havia um ror de anos. Junto às portas e eram muitas viam-se longas filas de pessoas aguardando a vez para darem os seus nomes, como contratados, para as roças de São Tomé. O rebuliço na estreita viela medieval era inusitado, assustador mesmo. Depois de salvar a minha irmã, parei junto ao edifício da Cadeia, local onde os poucos detidos espreitavam pelos gradeamentos de um ferro grosso e tenebroso, pedindo cigarros aos circunstantes, que passavam olhando para os lados com um ar de absoluta indiferença. Por momentos, fiquei parado, encostado no rugoso tronco de uma velha e frondosa amendoeira brava, cujas raízes levantavam as toscas lajes de pedra das calçadas (local onde hoje se situa um belo jardim). Observei a longa bicha que vinha desde a Casa Neves ao Largo da Cadeia, mesmo ao lado da Casa Alves. Era, meus Deus, a gente da minha ilha natal que queria fugir à fome, à miséria e aos sofrimentos trazidos pela seca que teimara em fincar os pés “naqueles grãozinhos de terra espalhados na meio di mar o arquipélago de Cabo Verde”. As folhas secas caíam dos ramos das amendoeiras (já não existe nenhuma no local, nem mesmo a velha amendoeira do Largo da Cadeia) e o vento, vindo da embocadura da Rua Direita, encarregava-se de amontoá-las junto às janelas bem gradeadas, local onde os presos espreitavam da escuridão daquele sinistro interior da prisão ou estendiam as mãos à caridade de quem passava. Sem destino certo, o meu olhar foi parar a um grupo, o mais maltrapilho de todos, naquela bicha interminável: o chefe de uma família, um homem alto, magro, tez amarelada pela fome e febre, de ombros encurvados pela enxada agora coisa sem utilidade com a qual, certamente, desfazia os duros torrões da ressequida e ingrata terra do Norte, anos antes; a sua mulher, embora de pouca idade, exibia um rosto amarfanhado pelas agruras da vida e anos passados na dura vida do campo na apanha da lenha de freira ou de tortolho, para vir vender, aos feixes, nas padarias da Estância, ao nascer de cada dia. O o filho um rapazinho da minha idade, dez anos (facto que me impressionou muito) e teria acabado a primária naquele ano de 1950, de rosto triste e distante, ar acabrunhado, pés descalços pisando as negras lascas do basalto das calçadas, calções de caqui já furados pelo uso, chupava, com os dedos melados e no meio de um enxame de moscas varejeiras, um pau de rebuçado, dos que a Quinha vendia, sentada no Largo da Passagem, parada no tempo. A filha do casal, de tenra idade, com uns seis aninhos e não mais, tímida, muito franzina, de olhos pretos e vivos como duas pequenas azeitonas, rosto escuro e manchado pela poeira amarela da caminhada desde as terras do Norte, olhava para tudo e para todos, como ar de quem não vinha à Estância, dias-há. Era essa uma família das que vinham dar os nomes, como contratados para as malditas roças de cacau e de café de São Tomé, fugindo à fome, deixando para trás o pouco que lhes restava: o casebre, as hortas que já nada produziam, os parentes e amigos doentes, enfim, a terra onde nasceram e donde nunca se ausentaram...O que contava, agora, era fugir, fugir quanto antes, das garras negras da fome, cujos tentáculos avançavam para eles em cada cambar do Sol. Embora sendo eu um espectador privilegiado pela sorte (o meu pai era professor e com o seu vencimento nos alimentava e educava, mesmo sem os produtos das hortas), sentia na minha pele o sofrimento daquela gente, pois naquela bicha estavam alguns companheiros meus da escola primária. A chuva não caía dias-há e, quando vinha, era sempre fora da época, para desgraça do povo ou por castigo de Nossenhor, que, no seu ilimitado poder, levava as pessoas à resignação, dizendo frases como: “é a Sua Vontade ou Maior é Deus”!...
***
Mesmo sem a chuva, Nhô Djonzinho, um bom homem do Norte, nunca deixara de enterrar todos os anos os tradicionais três grãos de milho e um de feijão ou favona, aguardando, pacientemente, e com esperança, que as chuvas caíssem daquele céu sempre azul, em forma de pernadas de água. Após as sementeiras feitas a seco, com as sementes compradas na Estância, por especial favor de alguns comerciantes e a bom preço, Nhô Djonzinho e a família ficaram naquela calmaria dos Campos do Norte, esperando todos os dias, e de olhos postos no céu, a almejada chuva de meados de Julho. Da última vez que ele descera ao povoado foi para trocar uma das portas do seu casebre por um calamã de farinha de pau e uma quarta de milho branco vindo de Angola. Ouvira dizer, para seu contentamento e da boca de gente de confiança, que nos sítios altos Cachaço, Lombo Pelado e Pico Agudo uma chuva miudinha caíra na noite anterior e se continuasse daria para o milho semeado a seco nascer. Sendo assim, pensava ele, ”mais dia, menos dia, vamos ter os Campos do Norte bem alagados e não vamos para S. Tomé”. Sonhava poder entrar pelo portal do quintal do seu casebre com os pés calçados com a lama encarnada dos caminhos, ver os beirais pingarem água e o gado de lombo molhado esfregando-se nas pedras dos muros do curral das vacas, como outrora, nos velhos tempos... Antes de repousar os fracos ossos na sua cama de finca-pé, já despojada da sua enxerga, cuja palha dera à cabrinha de estimação, de nome Ruça, que ainda sobrevivia à custa do seu desconforto, Nhô Djonzinho sentou-se no muro de pedras soltas, que ladeava o quintal, onde vegetava um enorme pé de purgueira desafiando todas as anteriores secas. Com os olhos fitos num mar distante e sem descortinar sinais de chuva, Nhô Djonzinho acendeu o seu canhoto com a erva da terra trazida da Estância e expeliu argolas de fumo, que o vento fresco se encarregou de dissipar para muito bem longe. Ficou sentado naquela postura até o cambar do Sol, pensando na vida, naquela pobre e ingrata vida de um filho de parida... Uma aragem fresca começara a soprar do mar, sem rumo certo, obrigando o homem a mudar do local e caminhar até ao fogão, à procura de um tição de lume para reacender o seu velho canhoto, agora morto e frio. Quando voltou do fogão com o canhoto aceso, sentiu no ar um cheirinho que o seu sexto sentido lhe segredara ser um sinal da chegada, para breve, das almejadas chuvas.
Falava à sua companheira Sabina:
Até estes meus ossos, castigados pela enxada a minha caneta não me enganam, mulher de Nossenhor! Estou a sentir aquela moínha subir-me da canela para a espinha, e fincar nos meus ossos da varanda - (clavícula)!
Nhô Djonzinho bateu com o seu canhoto nos umbrais da velha porta do casebre, apagou o lume com o tacão dos pés e meteu-se debaixo da única manta sebenta que ainda cobria a sua cama de finca-pé. A Sabina já ressonava de cansaço; regressara da Estância naquela tarde, após vender os feixes de lenha nas padarias, coisa cada vez mais difícil de se obter, apenas nos locais mais recônditos, nos buracos das perigosas rochas onde as próprias cabras, com medo, não iam comer as poucas ervas existentes.
***
Pela madrugadinha, Nhô Djonzinho deixou a incómoda cama de paus e veio cá fora tomar um pouco de ar fresco; olhou para o curral, esfregando os olhos de sono, e não viu a sua cabrinha Ruça, que, àquela hora, devia estar a ruminar a pouca palha de soca da parca refeição do dia anterior.
Onde estará a minha cabrinha? Já roubaram o meu tesouro!
Bocejou, esfregou os olhos ainda vermelhos de um sono mal dormido, cuspiu para cima das latas com lírios floridos de branco, e olhou, mais uma vez, para as pedras dos muros do curral.
Ai, ai , ai, Nhá mãe! Fiquei sem a minha cabrinha! E agora, que vai ser da minha vida? E o leite para a criançada?
Já mais calmo e vendo melhor com os olhos menos ensona-dos mas ainda avermelhados, caminhou até ao fundo da cerca e então viu a sua Ruça pendurada do outro lado do muro, sufocada por uma corda de coco, quase estrangulando a magra garganta do pobre animal, mas estava viva...
O céu, nesse dia, mostrava-se cinzento feio mesmo! Do mar, apenas um gemido, bem longe, quebrando a solidão dos campos ressequidos.
Triste, a porca da minha vida! exclamara Nhô Djonzinho falando à mulher Sabina, procurando acender o lume do fogão, para fazer um pouco de café, com as cascas trazidas da Estância, na véspera.
Com o canhoto descaído nos queixos e exibindo os dentes amarelados pelo tabaco, enquanto esfregava a testa enrugada com as mãos calejadas e unhas ainda com restos da terra preta dos campos, Nhô Djonzinho resmungava com a única interlocutora, naquele descampado:
Diga-me lá, mulher de Nossenhor, aonde vou buscar a comida para ti e para esses anjinhos, que ainda dormem lá dentro, envoltos naqueles bocados de mantas podres! Diga-me lá, mulher!
Absorto e olhando a vasta campina seca, que ia da sua casa ao mar, sentiu uma gotícula de chuva cair-lhe sobre a orelha esquerda. Nem queria acreditar! Essa gotinha de chuva era a primeira do ano e teve o condão de pôr uma pausa nos pensamentos ruins que verrumavam a pobre e fraca cabeça de Nhô Djonzinho. O dia clareara e o horizonte cada vez mais pardo e triste... A Sabina acendera o lume. O fumo esguichou-se pelas fendas das pedras e frestas da cobertura do casebre já com pouca palha de soca, retirada para salvar o animal da terrível fome.
Chuva! Chuva e mais chuva...Fartura do céu, amen...
A chuva realmente chegara, inundando os ressequidos campos. As pernadas de água varreram as planícies de lés-a--lés. Exclamava Nhô Djonzinho:
Nossenhor seja louvado...!
Eram as tão esperadas as-águas.
Com o canhoto apagado pela água da chuva, dirigiu-se ao velho casebre para dar a notícia à Sabina. Já no interior escuro, pois as janelas ainda estavam fechadas, encontrou a mulher ajoelhada aos pés de uma descolorida estampa de Nossa Senhora de Fátima, rezando com fervor, agradecendo-Lhe por ter mandado a chuva para os campos. A água já cantava nas pedras do quintal e fustigava a fraca cobertura de palha de soca que ainda restara. Os trovões ribombavam nos montes, os raios faiscavam nos céus e explodiam no mar e nos cabeços mais altos, iluminando os campos varridos pelas pernadas de água.
Santa Bárbara nos valha! rezava Nhá Sabina ainda ajoelhada ao lado da descolorida e suja estampa...
Os garotos, assustados era a primeira vez que viam a chuva cair meteram-se por debaixo do finca-pé, até passar a tormenta. Depois, era vê-los a brincarem nas poças de água lamacenta do quintal, nus e cabelos encaracolados pela chuva.
O dia ficara mais claro, o ar lavado de poeira e o mar azul e brilhante. Nhô Djonzinho muniu-se da cana de pesca, há muito encostada à velha purgueira do quintal, e desceu à praia, pisando a fofa lama encarnada que tapava o carreiro. Assobiava uma morna. De vez em quando, saltava os regatos por onde escorria a muita água das chuvas. Pretendia arranjar algum peixe para a comida do dia. Lá em baixo, na costa, as ondas rugiam por entre as fragas escarpadas atirando para o ar os restos de ramos e das palhas que as enxurradas lhes entregaram com as boas chuvadas. Até o rastejante lacacão tinha as suas duras folhas e as compridas ramadas viradas para o ar, tal a fúria da recente tempestade. Enquanto Nhô Djonzinho espetava uma lapa viva no aguçado e enferrujado anzol, ia deitando contas à vida:
- A vida é dura!
As ondas vinham lamber-lhe os pés, fincados nos buracos das rochas onde se empoleirara, à espera que algum bodião ou moreia preta picassem a isca mal presa ao anzol, baloiçando ao sabor do vento, na ponta da cana. Ele tinha receio que o mar, de repente, virasse mais brabo, apoderando-se do seu anzol “a minha segunda enxada” como dizia! No horizonte, deslizava um vapor, daqueles de muitos canudos, rumo às Américas...
Sim, Américas! Um bom rumo para um homem procurar trabalho. Só não o tomei dias-há, porque ainda tinha Fé em ver estes campos verdinhos, cheios de milho e feijão, com muita palha para os animais todos...
O solitário pescador continuava a falar com os seus botões:
É triste e duro deixar a terra onde a gente tem o seu cordão de umbigo enterrado para ir procurar a vida numa terra longe. Os meus vizinhos e amigos de peito, o Toi Cacai e o Lela, que tomaram um vapor de canudo igual, estão bem na América. Trabalham no duro, sim é verdade, mas têm as vidinhas arrumadas e não precisam de andar de cara virada para o céu à cata da chuva que nunca cai nestas ilhas. Uma moreia dera um esticão na linha, fazendo entortar a cana e interromper, por momentos, o fio do pensamento do solitário pescador, pendurado nas altas fragas da Costa Norte da ilha de S. Nicolau. Com os dedos dos pés bem fincados num dos buracos da rocha, puxou com firmeza a linha de nylon, que já queimava as suas gretadas mãos, numa dura luta com uma moreia pintada, já meio fora da água, não querendo largar o sombrio buraco da rocha. Dava cambalhotas no ar, enrolando-se cada vez mais na invisível e resistente linha de pesca.
Dizia o pescador, mais satisfeito:
Hoje estou com sorte! É uma pintada de preto e branco, com mais de uma braça de comprido e vai dar para o sustento da casa, pelo menos por alguns dias. Pena é não haver na despensa nem milho nem feijão,nem nada, pois então sim, a Sabina faria uma boa cachupa para eu acompanhar com umas postas desta bela moreia frita...
Nhô Djonzinho, satisfeito com a pescaria do dia, recolheu os apetrechos de pesca e guardou-os numa bolsa de lona; trepando a ladeira, entrou, com um ar triunfante, pelo quintal acima, ainda alagado pelas recentes chuvadas.
Sabina, tens uma das grandes para escalar...
A Sabina desenrolou a moreia, que ainda estava viva, abriu-a em duas metades e retirou-lhe as tripas quentes. Depois, espe-tou alguns bocados numa cana de carriço para manter as postas bem abertas e colocou-as a secar ao sol, em cima do muro do quintal, no meio de um enxame de moscas varejeiras, zumbindo desordenadamente, procurando participar naquele inesperado repasto, pois habitavam as barrigas inchadas de animais mortos e espalhados pelos campos. O fumo saira do fogão e um cheiro a moreia assada inundara o ar. Enquanto durasse a moreia pintada, a fome ficaria arredada daquele casebre, pelo menos, por alguns dias.
Nhô Djonzinho, já com as sementeiras feitas a seco, pôs-se a pensar na sua atitude precipitada em ter ido à Casa Neves dar os nomes da família para as roças de São Tomé.
Falava à Sabina, a sua mulher:
Sabina! Estou a pensar em ir riscar os nossos nomes na Casa Neves. Não sei o que me deu na cabeça para fazer tamanha asneira! Só de pensar em largar estas nossas terras do Norte, onde nós temos os cordões de umbigo, e embarcar para uma Terra Longe, que a gente nem sabe onde fica, fico com arrepios na espinha!
A Sabina ouvira tudo, para depois lhe responder.
E quem nos garante que vem aí mais chuva para as sementeiras crescerem! E depois? Se não vierem, o que vai ser da nossa vida e a daqueles dois anjinhos que dormem lá dentro?
As coisas corriam de feição para a família. Afinal, a chuva, a tão almejada chuva, acabara por chegar. O milho iria nascer tímido e fraco por debaixo das pedras, depois seria mondado, trabalhado e deitaria as bonecas com as barbas castanhas agarradas às canas como as crianças aos colos das suas mães; os feijoeiros trepariam pelos pés de milho, as aboboreiras dariam flores amarelas e abóboras compridas ou redondas. As barbas-de-bode cresceriam pelos campos para matar a fome aos animais, cobrindo tudo com um manto verde, dos montes ao mar. Enfim, a tal desejada fartura do Céu, amen! Sonhos e mais sonhos...
Após as primeiras chuvadas de Julho, regando copiosamente a ilha de lés-a-lés (o coveiro do cemitério da Tabuga, dizia que a molha era de três palmos, e ele, mais que ninguém, conhecia e cavava a terra), várias pessoas foram à Estância fazer a des-marcação dos nomes nos cadernos expostos na Casa Neves. O milho estava a ser mondado e trabalhado. As pequenas folhas ainda ostentavam as gotas de orvalho das noites frias, água que os pardais logo bebiam, pela manhãzinha. O céu de Julho continuava muito azul, ”mau presságio” no dizer de Nhô Djonzinho postado no quintal, junto à velha purgueira, conversando com um amigo, sentados no muro:
A minha cabrinha está salva! Já não vou ter precisão de ir vendê-la na Estância, ao Nhô Lima do Matadouro. Após colhetar o milho deste ano, irei comprar algumas peças de roupa para a Sabina e para os meninos. Não vamos precisar de embarcar para tão longe, para São Tomé como maltrapilhos sem eira nem beira, não achas, Chico! Para aquela Terra Longe cheia de cobras e de perigos vários...
Não sei o que te dizer, meu caro amigo! Estou a ver esse Julho de má cara, e já vamos a vinte e sete, quase no fim do mês.
Os dias foram passando; o milho crescera; os cabeços, outrora despidos e amarelados, cobriram-se de junças e de barbas-de-bode. Nhô Djonzinho, pela morrinha da tarde, sentava-se ao lado do pé de purgueira do quintal, sonhando com a fartura de comida na sua horta, mesmo aos pés, agora coberta de lindo e verde milheiral ondulante ao vento, como as ondas do mar. Sonhava com as canas da altura de um homem, com duas ou três espigas, as aboboreiras rastejando que nem lagartas por entre as pedras da Chã, parindo pelo chão muitas abóboras.
Sim, terei de deixar a cama de finca-pé, muito cedo, para ir enxertar as flores das aboboreiras, antes que o malvado do sol faça murchar as pétalas amarelas. Sem esse enxerto o casamento das flores das flores machos com as flores fêmeas não há abóbora que vingue!
Nhô Djonzinho dedicava especial atenção à velha purgueira do quintal, uma planta que o pai lhe deixara ao morrer. Gostava de ficar sentado à sua sombra, à hora da calmaria da sesta da tarde e aí fumar o canhoto, até esgotar a erva. As sementes eram colhidas, ensacadas e vendidas nas lojas da Estância a bom preço, principalmente no tempo da guerra. Os carregamentos de sacas daquela oleaginosa seguiam de barco para São Vicente para o fabrico do sabão. Também se retirava um azeite das sementes, muito utilizado na cura do reumatismo e das dores de barriga. Nhô Djonzinho, conversando com o compadre à sombra da purgueira, contava que, certa vez, em sua casa, a Sabina, ao fritar umas postas de moreia, enganara-se na garrafa e usou na cozinha o azeite de purgueira em vez do óleo de baleia...
Compadre?! Foi uma caganeira danada, que nem queira saber! Dias depois é que ela deu pelo engano, mas já era tarde.
A própria árvore de purgueira do quintal ressentira-se dos efeitos prolongados da seca e, só alguns ramos mais altos davam cachos de sementes. Quando caíam para o chão, os filhos tinham a dura tarefa de catá-las dos buracos das calçadas para dentro de uma saca de serapilheira, encostada ao seu sinuosos tronco, por onde escorria uma seiva leitosa. Uma nódoa que ficava na roupa, para sempre. Nhô Djonzinho, debaixo da sombra da árvore, contava aos filhos que, durante a última guerra, as sementes das purgueiras eram utilizadas na iluminação, sob a forma de brodjudos, ou em azeite, para as candeias de bronze de quatro bicos, acrescentando:
Nós fazíamos o sabão neste quintal, à sombra dessa frondosa amendoeira brava mostrara-lhes os restos de um tronco já seco, espetado no chão. Um tacho de latão, cinzas das bananeiras, azeite de purgueira e a mistura agitada com um pau de cafeeiro até fazer o ponto coisa que só a vossa mãe Sabina sabe. A massa, ainda quente, era embrulhada em palha de bananeira e pendurada num local abrigado para a secagem. Era com esse “sabão da terra”, que ela lavava as roupas, naquele tempo, meus filhos...
A purgueira de Nhô Djonzinho ajudara-o a mitigar algumas crises, com a venda das suas sementes. Agora, com a seca, os ramos definhados poucos grãos davam. De resto, há muito não vinham navios carregar as sacas de sementes para levar para São Vicente, como antigamente acrescentara de seguida. Esse pé de purgueira de tronco sinuoso e enrugado era o muro das lamentações do velhote o local onde ele deitava contas à vida quando, à tardinha, as galinhas começavam a pular para os seus ramos, largando-lhe nuvens de finas penugens sobre a cabeça desprovida de cabelos pretos.
CAPÍTULO 3
Chegara a época das mondas, sem as quais as junças, as gramas e as socas, em breve, cobririam o frágil milho recém-nascido. Nhô Djonzinho, muito curvado, aspirava profundamente o cheiro a terra molhada e a folhas apodrecidas, coisa que não sentia dias-há. Foi dando dois dedos de conversa com a mulher Sabina, esta de joelhos no chão, ao seu lado, arrancando também as daninhas ervas que iam ficando para trás, aos montículos, para a refeição da Ruça, agora fechada no curral por causa das sementeiras já nascidas. Ao cambar da tarde, o pobre homem sentava-se num dos penedos, à cabeceira da horta, donde via toda a costa Norte, e, em tom de profundo desabafo, clamava aos quatro ventos:
Que beleza, Sabina! Que formosura! Que lindeza de horta!
Ao lado ficava a horta do amigo Mano de Cleto um verdadeiro preguiçoso que apenas queria a vida do grogue. O milho, coitadinho, nascido havia duas semanas, esticava as folhas amareladas à procura do sol, meio sufocado pelas péga-saias e manégatinhos ervas daninhas que cresciam com redobrado viço, sufocando as plantas mais frágeis.
E esse malvado do Mano com a horta ainda sem a monda! A minha, essa não, está uma beleza...
Enquanto os pais mondavam a horta, a Nina e o Toni, filhos do casal, brincavam arredados do local, ao lado de um muro de pedras soltas, onde havia alguma sombra. Os garotos esquivavam-se, quase sempre, ao duro trabalho da monda, até porque as ervas daninhas, bem fincadas à terra já rija, cortavam a frágil pele das suas mãos e nem sempre tinham forças para arrancá-las de vez, de raíz. Pensavam terem dado aos pais um contributo na guarda aos pardais e aos corvos, que teimavam em arrancar as tenras folhas dos pés de milho e os grãos, agora ocos dentro da terra. Sentiam-se com direito às brincadeiras de meninos da sua idade, correndo por entre as ervas mais altas, enquanto os pais suavam em bica, dobrados pela espinha, fazendo a monda. A testa enrugada de Nhô Djonzinho e a face queimada da Sabina estavam alagadas de suor, pingando para o chão ressequido.
Falando, por entre os dentes:
- Dia quente, de um Julho comprido, sem fim! Mau sinal para um Agosto que aí vem, não achas, Sabina?
- Sei lá, homem de Nossenhor! Não me cheira a coisa boa! Este calor é demasiado para o tempo. As plantas não vão conseguir aguentar-se nas canetas até a chegada da chuva...
Nhô Djonzinho chamara pelo Toni, que veio a correr com medo de apanhar alguma sova do pai severo...
Toni? Vai ao quintal e traz-me o moringue da Boa Vista com água fresca, o que está à sombra da purgueira...
Toni voltou, momentos depois, segurando com medo o moringue de barro, e entregou-o ao pai, que, tomado pela secura do tempo, bebeu três golos do precioso líquido, pousando de seguida a bilha à sombra do muro, com redobrados cuidados. A Sabina, também estafada pelo calor ardente que fazia, até então de cócoras, erguera-se dificilmente e com os ossos aos estalos. Com as mãos em concha e voz esganiçada, chamara pela filha Nina, na altura a brincar do outro lado do muro da horta, quase que engolida pelas ervas.
Nina, Nina...Nina!
A filha resolvera finalmente responder à chamada da mãe, embora contrariada pelos incessantes chamamentos!
Vamos fazer o almoço para o teu pai...
As duas, mãe e filha, de braços dados, seguiram rumo à casinhota do quintal, onde era o fogão. Acenderam o lume e puseram a assar a derradeira posta de moreia, que ainda secava ao sol, invadida por enxames de coloridas moscas varejeiras.
Nina! Vais apanhar uns paus de lenha, mas daqueles da horta! Estás a ouvir-me e nem tentes fazer, como há dias, retirando alguns dos feixes para a venda nas padarias da Estância...
A Nina partiu correndo que nem uma seta pelo quintal fora, com a juventude dos seus seis aninhos, com a saia de xadrez encarnada, manchada pelo verde das ervas. Não catou a lenha no campo, não! Apanhou a mãe distraída e foi surripiar alguns paus, dos feixes já preparados para seguir para as padarias.
Mais um pecado, quando eu me confessar ao Nhô Padre, antes da missa da Páscoa...
O recinto do fogão era exíguo: um casinhoto de paredes de pedras soltas e cobertura de palha de soca. No seu interior, um poial com três pedras de cantaria lavrada, suportando uma panela de ferro preto de três pés. Do tecto, pendiam algumas teias de aranhas tisnadas pelo fumo da lenha. Com o lume aceso e o fumo saíndo pelas muitas frestas das paredes, sentia-se o cheiro da moreia assada na brasa. Nhô Djonzinho pousara a enxada ao lado da purgueira, exclamando:
Está na hora de sossegar este estômago, Sabina! O resto da monda fica para a parte de tarde ou para amanhã...
Com um braçado de ervas para a Ruça, agora de patas sobre o muro, aguardando impacientemente a chegada do dono, pôs-se a caminho do fogão. Parou e atirou a palha à cabrinha, olhando em direcção da sua horta. Duas tonalidades de verde estavam à vista: a do milho mondado e a do talhão ainda por mondar.
Ainda vamos ter trabalho para mais uns dois dias, Sabina! Temos de pagar a mão trocada ao compadre Cleto, não te esqueças. O trabalho pesa, mas não mata! É melhor assim do que abandonar esta casa, os nossos parcos haveres, a cabrinha e embarcar para aquela Terra Longe de São Tomé...!
Os dias foram ficando pelas costas, naquela calmaria podre de um cru mês de Agosto sem chuva, já a meio, e com os negros corvos rondando num céu azul claro muito transparente. Entretanto, o milho já tinha dois palmos de altura e as folhas, depois do meio-dia, começavam a ficar murchas, enroladas como o tabaco dos charutos. As plantas ainda conseguiriam aguentar-se por mais uma quinzena, mas, se a chuva não viesse nas próximas semanas, seria outra Desgraça, com “D” grande no dizer do velho e pensativo agricultor- já escaldado pelas anteriores e sinistras secas de má memória.
Vida de agricultor, vida desgraçada...
Os cabeços, até então verdes, começaram a ficar amarelados, com a chegada do temível vento seco de Leste, o Suão.
Nossenhor é Grande e o Mundo é Largo... dizia Nhô Djonzinho sacudindo a cinza morta do seu canhoto manchado de castanho da nicotina e cuspindo a saliva para o chão, procurando dar um pouco de coragem a Nhô Lela, já desa-nimado de todo...
A Sabina, após servir o almoço de moreia assada, partira para a Estância, levando à cabeça dois feixes de lenha para vender na padaria de Armando Fonseca. Quando o dia morria no horizonte e a negra noite já tomava conta do infindo e desértico campo do Norte, ela regressava à casa, cansada, com as vestes encardidas pelo pó da caminhada, trazendo amarrado num pano alguma comida e más novas: Ouvira dizer na Estância, da boca de gente de confiança, que as sementeiras do Campinho para cima também começavam a ficar murchas, como as do Norte. Até a Ribeira de João estava sem água. Na bica na Passagem, apenas um fio escorrendo e as mulheres enfileiradas com as latas ao pé, esperando a vez para as encher com o precioso líquido. Os animais também disputavam, aos coices, um lugar no Bebedouro Municipal, para ali matarem a sede. Depois de descansar um bocado e beber uma caneca de água, a Sabina continuava a fala:
Djonzinho, isto não vai mesmo nada bem! Não há sinais de chuva e as pessoas estão a confirmar os seus nomes na lista da Casa Neves, para contratados para as roças de São Tomé. Se o tempo continuar assim duro e de má cara é o que vamos fazer também, não achas?!
Sossega, mulher de Nossenhor! A chuva ainda vai cair!
Sim, certamente, mas fora do tempo, quando o milho já estiver todo seco e estorricado.
A monda fora acabada já com os pés de milho murchos. Só os que estavam junto ao morouço da horta de Nhá Filipa, ou nascidos à sombra da velha purgueira do quintal tinham algum viço, mesmo nas horas do cacimbo. Quando o desalmado sol do meio-dia, de um ingrato Setembro, ficava a pino e as galinhas se abrigavam nas sombras de bicos abertos e olhares vagos, Nhô Djonzinho contemplava, comovido, desesperado e com água nos olhos, a sua horta, que, semanas antes, via-se tapada com o verde das plantas. Até as aboboreiras, que cobriam por completo o chão de terra encarnada e barrenta, tinham as folhas enroladas e as abóboras, ainda em formação, espalhadas pelo campo quais soldados vencidos num campo de batalha mesmo antes do início dos combates. Metia dó!!
Ele falava à Sabina:
Mulher, sou homem-macho, mas até sinto vontade de chorar!
Era o dasabafo desse pobre agricultor e talvez o de muitos outros, vivendo de olhos pregados num céu ingrato. A Sabina, de dorso curvado pelo peso das lenhas, transportadas anos a fio às costas, ouvia o marido, calada e sisuda. Não conseguia palavras para o consolar. Não as encontrava, por mais voltas que desse ao seu cansado miolo. As ervas, essas sim, pondo a funcionar o mecanismo natural de perpétuação da espécie, conseguiram reunir as derradeiras forças para “parirem algumas minúsculas e invernosas flores”, das quais sairiam algumas raquíticas sementes para os anos vindouros. Dos cabeços altos aos desnudados e poeirentos Campos do Norte, o aspecto da ilha era cada vez mais desolador. A terrível e cíclica seca teimava em manter os pés bem fincados nas solitárias ilhas, abandonadas, por ironia do Destino, no meio de tanta fartura de água do mar... Nhô Djonzinho começava a ver a sua vida e a dos seus a andar para trás, como os caranguejos, lá em baixo, nas fragas da ruídosa costa. Antes de repousar os ossos doridos no finca-pé, vigiava o céu, espreitando com atenção, lá para as bandas da Ponta da Ilha, com intuito de enxergar algum sinal conhecido da chegada da chuva...
Nada, gente! Nada! Nem a Lua tem aquele halo colorido e nem os ossos me doem mais...
Todos os dias, ao saltar da cama, quando os galos cantavam na purgueira do quintal, ele espreitava pela janela de bandeiras de pau, dando de caras com a sua horta, cada vez com mais chão encarnado e descoberto. Mesmo àquela hora fresquinha, só os pés de milho junto à cozinha, local onde a Sabina jogava as águas dos despejos e das lavagens, ainda estavam de pé.
Nossenhor, que está lá de riba, vendo para a gente tem a obrigação de olhar para os filhos que Ele pôs aqui na terra!
As frágeis canas dos milhos, despojadas da seiva, ocas mesmo, já não tinham forças para se susterem de pé, mesmo quando o envergonhado Sol desaparecia no horizonte e chegava o cacimbo da noite.
Oh Sol maldito, que nos castiga sem piedade!
Cuidado, homem desalmado! Olha que o Sol também é de Nossenhor e Ele pode ficar zangado connosco respon-dera-lhe a mulher Sabina fazendo o sinal da cruz com o polegar direito sobre a testa enrugada.
O Sol é do Diabo, do Inferno, mulher!
Olha que Ele te castiga, homem de não-sei-que-diga!
À tardinha, quando a frescura chegava do mar, alguns pés de milho, os mais teimosos, tentavam levantar-se do chão quente e ressequido, para logo tambar, sem forças qual aleijado privado da sua única muleta. Os dias foram passando. Mais uma noite de calmaria. Nhô Djonzinho não queria desiludir a Sabina nem revelar-lhe o desespero que anavalhava a sua alma, dia e noite. As folhas dos milheirais iam ficando cada vez mais enroladas “até pareciam charutos” no dizer do trocista Toi Cacai, a quem chamavam de “maluco do Norte” porque dizia “não estar para fazer hortas para nada, para os bonecos e ficar de olhos fincados no céu á espera do que não vinha – a chuva” Nhô Djonzinho virava-se no finca-pé, fazendo ranger as canas de carriço mal atadas. Ao menor ruído do vento nos beirais desfeitos do seu casebre, ou a qualquer restolhar das folhas secas da purgueira no chão do quintal, ele saltava da incómoda cama, abria uma das janelas, a que dava para o mar, e espreitava o céu.
Nada, mesmo nada...! nem fumo nem mandôde de chuva!
Toni e Nina deixaram de frequentar a escola do posto escolar, havia já uma quinzena. Agora, nem a Escola! O mestre Luís ficara na Estância; já não havia alunos que justificassem a permanência de um professor naquele local ermo e descampado. A fome e as doenças iam ceifando os alunos, um a um, sem dó nem piedade! Nhô Djonzinho, por entre os dentes amarelos do tabaco, rugia:
Onde estará esse Nossenhor que abandona as crianci-nhas? Ainda há dias, ouvi o padre capuchinho dizer na missa, na Estância:
“Deixai vir a Mim as criancinhas”! Será que Ele as quer lá em cima, na Sua companhia?
Era um desabafo de desespero vindo da alma de alguém que sentia na pele o sofrer da pobre gente da sua ilha.
Sabina, sabes uma coisa? Esta noite tomei a decisão de ir à Casa Neves confirmar o nosso embarque para São Tomé, para a Terra Longe... O milho está todo seco e até o malvado mar, agora sempre brabo, já não quer dar mais peixes! Amanhã, vou vender a Ruça ao Nhô Lima do Matadouro, confirmar os nossos nomes na Casa Neves e falar com Nhô Jaime...
CAPÍTULO 4
Mal o sol rasgara o horizonte, o homem desceu ao curral e de lá retirou a cabra, que ainda dormitava junto ao muro. O animal levantou-se esperando pela palha, habitual àquela hora, um mimo do dono, sem falhar. Com lágrimas nos olhos, falou-lhe:
- Minha querida Ruça, hoje é o teu último dia! Tenho pena de ti, mas também tenho uma mulher e dois filhos para sustentar.
De focinho no ar, o animal parecia ter entendido a justificação do dono e abanou as orelhas cheias de moscas. Com a cabra presa a uma corda de coco, Nhô Djonzinho tomou a direitura do Matadouro, situado na margem da ribeira, à entrada da Estância, local donde já se avistava a velha ponte de madeira. Nhô Lima o homem que explorava o Matadouro veio ao portão, ainda com as mãos ensanguentadas da matança anterior e cumprimentou Nhô Djonzinho com um aceno de cabeça. Após uma demorada conversa, o negócio ficara fechado. O magarefe arrastou a cabrinha Ruça para dentro do matadouro. O animal, antevendo o seu fatal destino, fincou as patas na soleira do portão e olhou o dono, quase pedindo-lhe uma derradeira clemência.
- Fome é fome! dizia Nhô Djonzinho. Gosto muito de ti, Ruça, mas tenho lá em casa mulher e dois filhos para sustentar, como já te disse...
Com lágrimas nos olhos, embrulhou o dinheiro recebido num lenço amarelado pelo pó da caminhada, subiu a escadaria de pedra de acesso ao Matadouro, e retomou o caminho do centro da Estância, para ir confirmar os nomes na Casa Neves.
Nhô Djonzinho? falou-lhe Nhô Lima quando estiver de volta para o Norte, passe por cá para levar alguns ossos e miudezas para a gente lá da casa.
O regresso do desolado homem, após ter confirmado os nomes dos familiares como contratados para São Tomé, foi muito penoso e difícil. O cheiro da cabrinha Ruça chegara-lhe ao nariz, através da corda de coco que trazia de volta para casa, um odor rançoso a estrume de curral e a leite fresco, à mistura com o da palha nova. Ao chegar à Cruz de Maria do Carmo, no alto do Lombinho, sentira-se só, cansado e derrotado pela ingrata vida, um beco sem saída. Sentou-se à beira do caminho, à sombra de uma recurvada espinheira preta, agora coberta de cachos de flores amarelas. Com as mãos em concha, para se proteger do vento, acendeu o seu canhoto com a erva comprada na Estância e aí ficou algum tempo, apanhando o ar fresco vindo do mar, rugindo lá longe. Sentira, de novo, o odor persistente da sua cabra. Pôs a trouxa que trazia sobre uma pedra e olhou em direcção à espinheira solitária e triste, de copa curvada no sentido dominante do vento, esse maldito vento que fazia fugir a chuva das ilhas.
Vento do Inferno, ou de não-sei-que-diga!
No local reinava aquele silêncio habitual do meio-dia, nos campos. Os pardais saltitavam, preguiçosamente, de ramo em ramo, levando nos bicos algumas lagartas para os filhos, gritando desesperadamente nos ninhos e de bicos abertos.
Afinal, não é o que ando a fazer também Falou Nhô Djonzinho! Estou a levar a comida para os meus filhos! Quem me dera ser um desses despreocupados pardais do campo, em vez de gente...! Nossenhor me perdoe! Gostaria de ter nascido pássaro, em vez de homem!
Nesse preciso momento, um bando de negros e agoirentos corvos cruzava o morro do Lombinho, na direitura do Recanto. Algumas silenciosas canhotas, em voos circulares, com as largas asas espalhando sinistras sombras sobre a terra branca do caminho, de pescoços pelados e encarniçados, rondavam uma carcaça semi-desfeita de um burro, não muito longe do local, no meio de um enxame de ruídosas moscas varejeiras. Aquele triste e solitário caminhante um fugitivo da má sorte sentia, mais que nunca, o peso de ter uma família. A fome e a incerteza do amanhã traziam-lhe à boca o travo amargo das folhas das babosas. Num gesto repetido, enrolava e desenrolava a corda de coco que trazia. Olhou para o sinistro ramo da espinheira, agora sob a forma de um Diabo, baloiçando convidativamente, mesmo à sua frente, num chamamento quase irresistível, dizendo-lhe:
Anda cá, Nhô Djonzinho, seu desgraçado! Até tens a corda pronta! Pendura-te nela e em mim, aqui neste ramo!
Os corvos e as canhotas passaram, assombrando com as suas asas aquele fatídico local, donde se avistava o cemitério da Tabuga...
Não! Não vou...
Nhô Djonzinho rezou coisa que fazia poucas vezes jogou a corda para longe e ela ficou a baloiçar, pendurada num ramo da espinheira preta, enfeitado com grinaldas de flores amareladas. O Sol dizia adeus ao dia e desaparecia, lentamente, no longínquo oceano, deixando a água com alguns laivos encarnados e alaranjados, indo morrer lá para as bandas do casebre de Nhô Djonzinho, nas terras do Norte. Quando o homem transpôs a soleira da porta da casa, os grilos batucavam nas fendas dos muros e os supleta-e-fogo lançavam nos morros os seus lúgubres pios de fazer gelar a espinha a um filho-de-parida. A família aguardava-o, em redor do fogão, de lume aceso e fome na barriga. Nem houve tempo para moer ou cochir o milho branco dente de cavalo, trazido da Estância, que foi torrado numa tigela de barro da Boa Vista, juntamente com a areia, para que os grãos não saltassem pela borda fora, para regalo da única galinha poedeira da casa. Nhô Djonzinho, muito cansado e ainda trazendo a poeira do caminho no rosto e nos pés, de testa sempre enrugada, sentou-se num mocho, à entrada da cozinha e ficou a ver a sua horta morrendo à míngua de água. Era a derradeira tábua de salvação, para não ir parar à terra longe de São Tomé. Os pingos de lágrimas rolaram do seu rosto para o chão, enquanto sentia as folhas do milheiral estalarem em seco. Já não havia nenhuma cana em pé. Olhava o céu e pensava na canseira que tivera para conseguir as sementes na Estância, vendendo as portas de boa madeira do seu casebre feito com tantos sacrifícios.
E agora! Vejo morrer as plantas, sem nada poder fazer por elas! Vida de agricultor, vida ingrata e de desgraceiras... E a enxada, a minha inseparável companheira, para que serves agora? Para nada...!
A ferramenta sem qualquer utilidade, via-se encostada ao pé da purgueira do quintal, parecendo querer dialogar com o seu dono:
Que desgraça, meu velho! - Quando iremos, outra vez, para a Chã, partir aqueles malditos torrões de terra rija, como nos dias felizes de outrora?
Nhô Djonzinho respondia-lhe:
Não sei se voltaremos a encontrar-nos...eu, tu e os torrões. Os tempos são outros, minha querida enxada!
Nhô Djonzinho recordava-se, com certa nostalgia estampada no rosto, daqueles dias felizes de outrora passados na companhia da sua, agora inútil, enxada. Até precisava de secar os dedos na palha verde para que ela não lhe escorregasse das mãos. Acendeu o seu canhoto com a erva que ainda lhe restava, encheu o peito de fumaça e sacudiu um gafanhoto verde, chegado da horta. Nem queria acreditar no que via!
Nossenhor nos acuda! Gafanhotos? Essa terrível praga, vinda de não sei donde? Uma desgraça nunca vem só lá diz o nosso povo...
O pobre homem levantou-se do local, sacudiu as cinzas do canhoto no tronco da velha purgueira do quintal, subiu para cima do muro e saltou para dentro da sua horta. Nem queria acreditar no que os seus olhos viam...
Nossenhor, não contente com a seca, ainda nos manda uma praga de gafanhotos? Não, não pode ser...
Era a dura realidade! O que sobrara da horta estava a ser devorado pela maldita praga daqueles micróbios como ele dizia “vindos das profundezas dos Infernos”.
Sabina...! Sabina! Venha cá fora ver esta calamidade...!
A mulher, de saia atada à cintura com uma corda, saiu do fo-gão, esfregando os olhos vermelhos do fumo da lenha verde, e parou junto ao muro da horta, limpando as mãos a um avental.
Vês, vês...! Uma desgraceira nunca vem só! Esses micróbios vieram dar cabo do resto.
A Nina e o Toni, de bolsos cheios de milho torrado ainda quente, saltaram o muro e desataram a correr pela horta fora, à cata dos gafanhotos, que fugiam para os lados em nuvens, indo parar às hortas dos vizinhos, deixando os pés de milho reduzidos a canas e a um rendilhado, tudo o que dantes era verde. A galinha poedeira lá da casa já engolira tantos gafanhotos que estava prostrada à sombra, de papo bem recheado e bico aberto. Nhô Djonzinho viu assim desaparecer os derradeiros pés de milho, devorados pelas minúsculas mandíbulas daqueles insectos ruins, que não poupavam nada que fosse folha verde. A praga, vinda do mar, após devastar as hortas e as copas das poucas árvores ainda existentes, rumou para a Estância, Campinho e outros locais, devorando a ilha de lés-a-lés. O povo, ainda se organizara em brigadas, barrando a estrada do Lombinho, munido de folhas de coqueiros e de ramos de acácias, para darem cabo dos malditos gafanhotos. Entretanto, os insectos que ficavam esmagados no pó do caminho eram logo substituídos por outros, passando por cima de tudo e de todos, seguindo ribeira acima. A cena fazia relembrar a hipotética defesa do povoado, séculos antes, quando os piratas, desembarcados no porto da Preguiça, foram esmagados numa célebre emboscada, num local com o topónimo de Fundo de António Portuguesinho nome de um degredado do Reino que fugira da ilha , regressando tempo depois, chefiando os piratas invasores. Só que, agora, não havia nem ouro nem prata para defender, mas sim, o milho, apenas o milho, o ouro sagrado e necessário para matar a fome às desesperadas gentes da ilha de São Nicolau. A noite abraçara de mansinho os ressequidos campos do Norte; as estrelas brilhavam mais que nunca num céu escuro; o cacimbo, vindo do mar, fazia gotejar os beirais de palha de soca dos casebres. Perante tamanha calamidade, o velho e cansado chefe de família não conseguia dormir. Arrastando a perna esquerda, a mais atacada pelo reumatismo, apanhado na costa durante as pescarias, Nhô Djonzinho entrou para o casebre e voltou, momentos após, com a sua rabeca uma que o Mano Tau lhe consertara na semana anterior em troca de uma boa porta de madeira de mogno do seu casebre. Sentou-se numa pedra e encostou-se ao troco da purgueira, lançando negras sombras no chão esbranquiçado e ressequido do quintal. Falava à Sabina, que acabara de arrumar os pratos e a caldeira na cozinha, fechando a porta com uma pedra do mar:
Sabes, Sabina, hoje deu-me na veneta espantar as minhas mágoas, tocando uma morna só para ti...
Retirou um lenço do bolso e com ele limpou a humidade e as poeiras acumuladas na barriga e cordas da rabeca, recentemente arranjada pelo Mano Tau. No silêncio da noite, ouvindo os grilos batucando nas trevas, o tocador de rabeca afinou o instrumento com paixão, passou a resina pelos fios de carrapata do arco e encostou-a ao queixo. As melódicas, melancólicas e pungentes notas perderam-se o espaço, disputando o silêncio com os estridentes grilos. Com uma voz rouca, foi cantando:
“Quem mostrôbe esse caminho
longe,
caminho pâ
Santomé...”
Tocou, tocou até não mais parar. Sentia os braços tolhidos pela frieza da noite, tendo ao lado a mulher Sabina já adormecida...
“Sôdade, sôdade
de Nhá terra Sanicolau...”
A Lua cheia escondera-se numa nuvem, espalhando sombras no ressequido campo do Norte. A Sabina, de cabelos desgrenhados pelo vento e esfregando os olhos de sono, chamava-o, insistentemente por ele:
Para dentro, anda, Djonzinho! Há muita frieza lá fora...
Com o rosto molhado pelo cacimbo da noite, o homem conti- nuava a cantar e a tocar sem parar, como um louco desvairado.
“...se bô escrevême, n’ta
escrevêbo,
si bô esquecême, n’ta
esquêcebo,
até dia qu’un voltá...”
Foi a muito custo, que os crispados dedos de Nhô Djonzinho largaram o frio pescoço da madeira da rabeca. Parecia um náufrago agarrado a uma tábua de salvação, no seio de uma grande tormenta. Por momentos, a horta que morria moribunda, mesmo aos seus pés, saira da sua cabeça. Os dedos queimados não queriam abandonar as frias cordas de fino e cortante aço, num vaivém compassado; o cacimbo da noite impedia mais movimentos dos seus grossos dedos, tolhidos pelo reumatismo. Lá longe, na escuridão da noite, uma luz saía de uma janela e cortava a bruma, em feixes paralelos. Um vulto esguio, postado no frio peitoril de pedras de uma janela, ouvia a música, batendo com a cabeça num compasso certo, próprio de um tocador.
Todos nós, de vez em quando, temos alguma desgraça à perna, uns mais que outros assim pensava Nhô Zeferino com mais resignação, ouvindo, ao longe, Nhô Djonzinho tocando com alma aquela triste morna, no quintal do seu casebre.
A rabeca, finalmente, foi descansar ao lado do dono que, no finca-pé, conseguira adormecer, ouvindo o marulhar das ondas nas fragas da Costa Norte.
CAPITULO 5
Pela manhãzinha, Nhô Djonzinho foi acordado pelo tamborilar da água nas latas com lírios floridos de branco, postadas ao lado da escada de acesso ao casebre. Levantou-se. Da janela espreitou o horizonte escuro. Nem queria acreditar no que via...
Chuva, chuva... a tal chuva! gritara para a Sabina!
A mulher acordara-se, quase que entornando o penico, colocado ao lado da rabeca do marido.
Sim, a chuva, muita chuva, não ouves o barulho no mato, mulher de Nossenhor!
Era a tão esperada molha de Agosto ou de Setembro, que resolvera chegar, mas muito atrasada, já nos finais de um Outubro quente, seco e de má cara. Nhô Djonzinho estava triste! Chorava! Não de alegria mas de raiva. Por entre os dentes amarelados pelo tabaco, vociferava à pobre mulher, como se ela tivesse alguma culpa da vinda tardia da chuva:
E agora? Para quê a chuva, diga-me lá? O milho está todo seco e os gafanhotos já deram conta do resto! Ele não devia ter feito isso com a gente...!
O Toni e a Nina vieram ver a chuva, pela segunda vez. Sim, a chuva que fustigava a cobertura do casebre e entrava pelas fendas das portas e das janelas formando poças de água no chão de terra batida do casebre, nos buracos onde as galinhas punham os ovos das manhãs. Reinava uma geral alegria naqueles rostos, menos no do chefe da família, que não conseguia acender o canhoto para a fumaça da manhã e esconder o seu descontentamento. Tremia de raiva e a chuva não deixava avivar o lume na erva do canhoto. Não conseguia conter a raiva que verrumava a sua cabeça, ao ver a horta alagada, mas com o milheiral seco e enterrado na lama. Arrastando com dificuldade a perna esquerda, a mais atacada pelo reumatismo, saltou uma poça de água do quintal e postou-se junto ao muro sobranceiro à horta, vendo a chuva vassourar os campos pelados. Uma branca baba escorria-lhe do canto da boca, mesmo ao lado do canhoto, baloiçando ao sabor dos impropérios que vociferava para a Sabina, para os filhos e para a vizinhança toda:
Um homem tem alguma fé, mas assim tanto, não! Não aguento mais esta desconsideração...
Sabina, como sempre, rezava. Uma copiosa chuvada continuava a fustigar o quintal, agora transformado num grande lago de água barrenta. As torrentes escorriam em cascatas pelas valetas de pedra, rumo aos umbrais de uma cancela já sem porta. O malogrado agricultor, num acto desesperado de raiva, saltou o muro, enterrando os pés na lama misturada com algumas folhas secas do milheiral, agora rendilhadas pelos gafanhotos, baixou as rotas calças de ganga, umas que o tio Cleto lhe mandara da América, no Madalan, e virou o rabo para o céu, vociferando:
Chuva! Chuva? Agora? Cai aqui...!
A Sabina, espantada com o gesto desesperado do seu homem, e ainda embrulhada na manta com vários buracos feitos pelas ratazanas do campo, começara a rezar em voz alta, pedindo a Nossenhor as desculpas pela cabeça fraca do seu homem sofredor e que não o castigasse mais. Toni e a Nina, de cabelos molhados pelos pingos dos beirais, olhavam os pais abraçados, chorando no meio da lama do quintal, abrigados pela purgueira e sem nada compreenderem. Como crianças que eram foram correr barquinhos de papel na água que alagava as terras do caminho, correndo e saltitando atrás dos gafanhotos sobreviventes do dilúvio.
Três semanas após:
Alguns pés de milho, os situados no local onde a Sabina deitava as águas sujas, tinham espigas. Nhô Djonzinho sentou-se ao lado deles, respirando o perfume do pólen que brotava das barbas das bonecas ainda novas e acariciando as largas folhas verdes. Exclamou:
Sim! Se tivesse chovido a tempo e horas, toda a minha horta estaria assim, como esse pé de milho, à minha frente. Com bonecas e flores ao vento, espalhando o cheiro do pólen pelo ar. Mas não! O que vejo? Umas canas espetadas num mar de lama quais mastros de um navio naufragado no alto mar tão naufragado como está a minha vida...
Tremendo de frio e de raiva, acendeu o canhoto deitando algumas argolas de fumo para o céu, que acabara de ofender.
CAPÍTULO 6
Chegara o mês de Outubro e com ele, as almejadas festas de Nossa Senhora do Rosário a padroeira da principal freguesia da ilha. Nhô Djonzinho e a família, vestidos a rigor com a melhor farpela, vieram à Estância. O Largo do Terreiro estava engalanado com ramos de buganvilas, colhidas no alto do Pasmatório e tarafes das Maiamas. Só faltavam os tradicionais pés de milho com espigas coisas que só aconteciam quando o ano era de boas-águas.
No Largo, Mané Pexei, um bom tocador de rabeca, conversava com o amigo:
Sabes, Djonzinho, este ano não está para brincadeiras! Nem um pé de milho para enfeitar este Largo; até as canas sacarinas vieram das Queimadas...
Toni e a Nina atiravam pedras às amendoeiras que ladeavam o Largo, tentando arrancar alguns frutos encarnadinhos, repasto dos pardais dos coqueiros vindos dos lados do Tanchon. Entretanto, o adro da Igreja via-se composto: havia cachos de bananas com os corações a baloiçar ao vento da embocadura da Estância-de-Baixo e muitos mastros floridos. Os talos das canas de açúcar da cor roxa e flores prateadas estavam cobertos de um pó branco e embandeiravam as arcadas da principal porta da Sé. Nhô Djonzinho e os seus familiares ouviram a missa, mesmo à entrada, junto à pia da água-benta, bem fincada na parede, apanhando os salpicos caídos dos dedos dos crentes, ao fazerem o sinal da cruz, pois quando chegaram a igreja estava apinhada até à porta. Sabina, muito compenetrada, rezava com fervor. Queria agradecer algo à Nossa Senhora de Fátima, mas vinha-lhe à mente a conversa tida com o seu homem, quando desciam a estrada do Lombinho, a caminho da Igreja.
Agradecer-Lhe o quê?! vociferava o seu homem, muito zangado especado numa encruzilhada do caminho, para retirar dos dedos alguns manégatinhos bem fincados na sola dos pés.
Os filhos iam brincando com as hastes secas das babosas, agora transformadas em espadas das histórias dos temidos corsários, que visitavam as ilhas séculos antes. Já com os picos retirados dos pés, prosseguiram a caminhada, olhando as hortas do Tanchon, da Ribeirinha e das Maiamas, outrora verdes, agora completamente secas.
Se, ao menos, a chuvada de há dias tivesse vindo uma semana mais cedo, Sabina, a ideia de embarcarmos para aquela Terra Longe de São Tomé não estaria a verrumar de novo na nossa cabeça!
Sabina dava-lhe toda a atenção possível.
Sim! Tens alguma razão, Nossenhor me perdoe...!
Mas nada tenho a agradecer-Lhe. Em casa só há restos dos ossos da cabrinha Ruça e o milho só vai durar para mais três cachupas mal medidas.
O fumo do incenso perfumava o ar da Igreja, subindo em espiral do altar-mor ao coro, onde jazia inerte um secular órgão, com os seus longos tubos de metal e de madeira, instrumento que eu nunca ouvira tocar. Muita gente antiga e papai falavam desse monumento à música, de mavioso som, ouvido da Estância às escarpadas montanhas do Cachaço. Agora, até os garotos brincavam com os restos dos tubos pelas ruas da Vila, servindo-se deles como vulgares apitos. Para Nhô Djonzinho um homem que nascera com a música no sangue e na alma o pai também era tocador metia-lhe dó só de olhar para o coro e saber que as peças raras de um órgão de inestimável valor histórico e artistístico para a ilha de São Nicolau estavam a ser delapidadas e ninguém ligava o facto.
Se, ao menos, houvesse uma Liga dos amigos de Ins-trumentos Musicais poder-se-ia salvar esse precioso órgão, que, de outra forma, mais cedo ou mais tarde, iria parar para fora da ilha, para alguma Catedral da Itália, segundo as más-línguas do povo...
Acabada a missa e o leilão das oferendas, cujas receitas revertiam a favor da Igreja, a família de Nhô Djonzinho seguiu Lombinho arriba, percorrendo a estrada agora enlameada pelas últimas chuvadas, em vez da habitual e penetrante poeira amarela dos dias anteriores. Ao chegarem aos tamarindeiros do fundo da Tabuga, fizeram uma paragem forçada para deixarem passar um enterro, que, por sinal, levava um modesto acompanhamento. Vinha do Caleijão, pelo caminho de cima. O defunto, hirto e de aspecto terroso, embrulhado num lençol que já fora branco, era transportado numa padiola de paus de carrapata e de canas de carriço, atados com cordas, levada aos ombros dos amigos e conhecidos.
Mais um, coitado! dizia Nhô Djonzinho! Se não saírmos desta terra, com a fome que anda a dar por aí, qualquer dia sou eu, tu ou um dos meninos a seguir este caminho sem retorno, o do cemitério da Tabuga!
Homem desmaquenado, vira para lá essa boca preta!
Sabina benzera-se com a mão direita, da testa ao peito, indo o polegar, gretado na apanha da lenha, parar aos lábios, em sinal de esconjuro.
Veja lá se tiras mas é esse barrete da cabeça! Não vês um morto a passar?
Passar não! A ser levado aos ombros pelos outros, queres tu dizer!
Este não é momento para brincadeiras, homem!
Após o cortejo fúnebre desaparecer na curva sinuosa e barrenta da estrada, o ancião repôs o barrete na cabeça e sentou-se à sombra de um tamarindeiro do caminho uma árvore de copa curvada na direcção dos muros do cemitério da Tabuga. O Toni e a Nina subiram para os ramos mais baixos e colheram algumas vagens maduras, tragadas uma a uma; até atiravam as sementes pretas para o ar, ”para ver quem tinha mais força”.
Nunca mais chega um outro parente nosso das améri-cas, como o Jack, para me dar um boné novo? dizia Nhô Djonzinho!
Nhô Jack viera de visita havia anos e trouxe uma arca cheia de prendas para todos os familiares vivos, claro está! Triste desilusão quando constatou que o parente mais próximo era apenas e só Nhô Djonzinho por sinal, o familiar mais afastado. Foi assim que o barrete, agora velho e sebento, veio parar às suas mãos.
Sabina foi acrescentando:
Esse Jack ficou por pouco tempo nas terras do Norte da ilha. Sentira-se só, abandonado e desconhecido na sua própria terra de São Nicolau. Os amigos de ontem tinham morrido todos. Só via gente nova e desconhecida. Um dia, encavalitou-se numa alimária emprestada por um comerciante e passou pelo Recanto, local onde nascera, brincara e crescera. Da casa dos papais só restavam as ruínas com chaluteiras lá dentro e alguns pés de algodoeiro, espreitando pelos buracos das janelas. Apeou-se, amarrou a mula a um tamarindeiro do quintal, árvore que desafiara todas as secas, e encostou-se na empena das ruinas da casa e, comovido, chorou que nem uma criança!
Bezerro desmamado acrescentou Nhô Djonzinho!
Conforme contara a Bia de Zepa, que apanhava lenha por aquelas bandas, ela viu o visitante carpindo as suas mágoas em voz alta, com vergonha, pois homem velho não chora daquela maneira. Assim falava:
Era alí (apontava com os dedos), o quarto dos papais... A sala de jantar e o local onde mamãe fazia as suas costuras estavam tomados pelas grossas raízes salientes do velho e persistente tamarindeiro de tronco retorcido pelo vento. Papai escrevia e lia naquele canto, agora invadido pelos pés de algodoeiros floridos de amarelo vivo. Aqui, neste sítio, papai tecia as rédeas de couro para as nossas alimárias e para a Ginete, a sua égua branca de estimação. Mamãe assistia alí ao desmanchar dos porcos nos dias da matança e os meninos, meus colegas da escola do Recanto, ficavam naquele muro de pedras ensossas, à espera da bexiga do animal para fazerem uma bola de jogar... Belos tempos...Uma mocidade que já lá vai...
Pára de falar sózinha, Sabina!
Não vês que estava a contar a ti e aos meninos a história do Jack, o americano, teu parente muito longe!
Um negro corvo veio pousar numa das empenas da casa em ruínas, no silêncio do Recanto. Sabina ainda ouvia o Jack a falar sózinho, naquele descampado, pregando às poeiras dos tempos, qual Padre António Vieira aos peixes, relembrando-se de um passado já longínquo, em ruínas.O velhote assim cismava, naquele descampado:
Todos os anos, mamãe e papai faziam a comida dos anjos comida para as crianças mais pobres dos arredores. Havia um bom molho de capado e rolão. Belos tempos!
A mula do americano, impaciente de tanto esperar, ouvindo o vento uivando sinistramente nos morros escalavrados e sem um fio de palha para comer, fez tilintar os ferros da corrente da barbeleira cromada, acordando o Jack para as duras realidades da vida já vivida...
Enfim, tristezas! exclamara. Quando chegar a Boston irei fundar uma Associação para angariar fundos e roupas para mandar para toda essa gente que anda a passar muito mal nesta desgraçada terra de Cabo Verde...
Saltou para a sela encavalitada no lombo da montada, sacudiu o pó do chapéu de panamá branco, acendeu um charuto havano, enxugou os olhos a um lenço branco bordado a ponto-cruz e tomou a direitura da Estância, para aí marcar a viagem de regresso a Boston e trocar alguns dólares na Casa Maximiano, Agência do BNU. Chegado ao Largo do Terreiro, sentou-se no banco de madeira, chamado o dos engravatados, ficando a observar, com espanto nos olhos, os preparativos para uma boda das grandes, pelo número de acompanhantes e de alimárias amarradas na ribeira, na Passagem e junto ao Matadouro Municipal.
Nhô Djonzinho, após uma breve paragem para descansar num fundo onde corria um fio de água uma nascente dos pardais pôs-se a caminho do seu casebre no Norte, repisando a lama avermelhada e, acidentalmente, algumas bostas frescas que as vacas iam espalhando pelos carreiros. Na sua cabeça, a eterna questão! “E quando o milho acabar?”E... E...
Bem! Ainda tenho mais duas portas de mogno para vender ao Mano Tau ou a algum comerciante necessitado de madeira. O Mano, da outra vez, disse-me já não ter onde guardar tantas tábuas de portas que chegam à sua oficina. Os comerciantes também não dão muita importância à qualidade das madeiras. Para eles, pinho ou o mogno é a mesma coisa: para os caixões qualquer coisa serve. E depois de eu vender a última porta do meu casebre?
Conversava com a Sabina, recordando-se da época em que fizeram a casa naquele alto, virado para o mar de que tanto gostam.
As tábuas eram trazidas das praias, sobras que os vapo-res deitavam fora e vinham dar à costa. Com a madeira, subia pelos caminhos de cabras, contente e assobiando ao vento uma morna. Decorria a segunda guerra, nos anos quarenta e tais...Afinal, Sabina, passados tantos anos, o que vemos? Diga-me lá, se souberes! Desenganos, desilusões! Ainda sinto o cheiro da resina fresca, quando eu metia a serra nas tábuas, mesmo depois delas andarem a boiar no mar um ror de tempo. Amanhã, com um pé de cabra, vou desmanchar a última porta da casa e levá-la para vender na Estância. O buraco ficará tapado com uma esteira de canas de carriço...
Mas, homem, assim, pelo buraco entra a friagem da noite vinda do mar, incomodando os meninos, a dormirem nesse chão de terra batida!
Paciência, mulher, já nada mais temos para vender, não achas? Nem o teu fio de ouro aquele que a tua mãe te deixou ao morrer, com a indicação ”de o não venderes”, lembras-te...
Da casa, que Nhô Djonzinho construíra com amor e tenacidade e onde nasceram os dois filhos, só restavam as paredes de pedra e barro, uma cobertura de palha de soca apodrecida, um catre para ele e a mulher e uma cortina de pano descolorido já comido pelas baratas e traças. Na cozinha, uma panela de ferro que não via a cachupa, dias-há. A um canto, uma tigela estalada de barro da Boa Vista de bordas lascadas, onde torravam o milho e um pote remendado a cimento. Todo o recheio do casebre já fora vendido na Estância e o dinheiro empregue na compra da comida. Era essa a situação, quando aquela família resolvera confirmar os nomes, como contratados para as roças de São Tomé.
CAPÍTULO 7
A filha Nina, devido ao sol apanhado numa das caminhadas à Estância, ficara com febre e dores no corpo, para o desespero dos pais. Dizia Nhô Djonzinho:
Depois de valente coice, vem a pancada – lá diz o povo! Friezas que ela apanhou no quintal brincando à chuva, ou fatais picadas dos mosquitos do paludismo, nascidos nas poças das hortas como gafanhotos.
Na localidade não havia Posto de Socorros e doutor ou enfermeiro só na Estância. A família pôs-se a caminho do povoado, levando a filha doente numa cadeira de balanço, bem embrulhada numa manta menos rota a única da casa. A Sabina transportara à cabeça mais um feixe de lenha para vender na padaria de Armado Fonseca e Nhô Djonzinho, ajudado pelos vizinhos, lá levara a Nina, à pressa. Após atravessarem os despidos Campos do Norte já com o suor a escorrer-lhes pelas faces sujas da terra amarelada, vendo a poeira subir em redemoínhos medonhos “o Diabo disfarçado de pó” no dizer de um acompanhante, chegaram à Enfermaria Regional da Vila da Ribeira Brava, um edifício caiado a ocre amarelo, mesmo à entrada da urbe. O velho relógio da Sé batia as doze badaladas do meio-dia. As salas da Enfermaria estavam apinhadas de enfermos, vindos de todos os recantos da ilha. Era o paludismo, aproveitando-se da fraqueza daquela gente para se instalar nos debilitados corpos, ceifando vidas. Ao fundo da varanda, mais precisamente, do lado virado para a Prainha, funcionava a Farmácia do Estado a única na ilha onde o enfermeiro Luís preparava as cápsulas de amido com a quinina em pó um medicamento usado para debelar as febres de palustre. Quando tomado a tempo, evitava-se a fatal biliosas, que matava em poucas horas. O enfermeiro era um homem simpático, baixo, atarracado mesmo, tez escura e brilhante, cabelos esbranquiçados pela idade, muito sorridente e sempre com uma palavra para confortar os doentes. Às crianças oferecia-lhes as caixas de medicamentos já vazias, as serrinhas de aço com que cortava as ampolas, após as injecções de penicilina medicamento milagroso e descoberta recente. Atrás de um balcão de madeira escura da Guiné, via-se o enfermeiro Luís manuseando as espátulas de aço inox, destapando os frascos de vidro escuro com os milagrosos pós, ou aviando as receitas, espalhadas sobre uma secretária atafulhada de papéis. Quando faltavam as cápsulas de amido, até as finas folhas de papel de mortalha para os cigarros serviam de invólucros para a amarga quinina. O pó, na verdade, era bem amargoso. Ao largo fonteiro à Enfermaria, chegavam com frequência mais doentes, trazidos do interior da ilha em cadeiras de balanço ou em padiolas de paus. Alguns já vinham moribundos. As montadas enchiam o largo do local, relinchando de inquietação. A Nina a filha de estimação de Nhô Djonzinho ficara numa cama que vagara na noite anterior. A ocupante falecera de febres e já ia a caminho do cemitério da Tabuga, num caixão do povo (dos que a Câmara emprestava às famílias necessitadas) e que, findo o enterro, voltavam à Casa das Tumbas, mesmo por debaixo da Sé. Uma outra doente gemia numa cama de ferro, pintada de um branco sujo e estalado, oferta de uma Associação de cabo-verdianos residentes na América, aquando da inauguração do Hospital, no ano de 1946. Através da janela da Enfermaria das mulheres, onde a Nina se encontrava, via-se a horta de Nhô Jaime Neves, com algumas bananeiras ainda verdejantes e os altos coqueiros da propriedade do Tanchon, oscilando preguiçosamente ao sabor do vento da embocadura da ribeira. O enfermeiro Luís diagnosticara à Nina uma fatal biliosa. Falando abertamente ao pai, dormitando a um canto da varanda embrulhado numa manta, desenganara-o quanto à sorte da filha... A Sabina ficara a noite inteira junto à cama da filha. Os outros doentes, deitados onde havia espaço, gemiam ou olhavam para o tecto forrado com chapas de lusalite caiadas de branco, aguardando a hora da morte.
Vontade de Nossenhor! afirmava, com a voz tré-mula a mãe Sabina, já sem lágrimas para chorar...
A Lua cheia surgira redondinha por detrás do Morro do Lombinho (o ex-libris da Vila), reflectindo uma fria claridade no chão de cimento polido da varanda da Enfermaria. O pai da petiza, de corpo dorido de tanto dormir naquele chão duro e com a alma e o espírito vazios, não sabia o que fazer nem em que pensar. Uma ténue claridade entrava pelas janelas, cujos vidros estavam caiados de branco, iluminando os rostos daquela gente, em que o sofrimento e a resignação eram bem visíveis. No ar, um cheiro a desinfectantes, misturado com o odor acre a suor dos doentes em fase terminal.
A Nina faleceu pela madrugadinha, sózinha, com a mãe deitada aos pés da cama de ferro pintada de um branco sujo e estalado pelo tempo... O enfermeiro Luís não conseguiu salvá--la, nem com as injecções de penicilina, medicamento milagroso e conservado na única geleira a petróleo existente na ilha, pertença da Enfermaria. O enfermeiro Luís também chorou agarrado aos pais, pessoas que ele mal conhecia, quase pedindo-lhes desculpas por não ter meios nem a ciência, necessários para poder salvar a franzina Nina. O pequeno corpo deixou a enxerga ainda quente, onde passara as duas últimas noites de uma vida não vivida. Depois tomou o caminho do cemitério da Tabuga, num pequeno caixão de anjos, forrado de um branco já amarelado pelo tempo daqueles caixões que a Casa das Tumbas emprestava aos pobres, por algumas horas. O cortejo fúnebre seguiu pela estrada do Lombinho acima, mil vezes percorrida pela Nina e Toni, a caminho do casebre do Norte, correndo atrás dos gafanhotos escondidos nos tufos de manégatinhos e péga-
-saias. O pequeno corpo ficou sepultado, para sempre, na Tabuga, por entre os muros caiados de branco, “de um branco da cor das asas dos anjos” no dizer do pai conformado com o Destino e fitando as nuvens em flocos, lá para os lados do monte da Centinha.
***
Dias após, fui encontrar a família de Nhô Djonzinho a engrossar a bicha dos contratados, à porta da Casa Neves, confirmando os nomes para as roças de São Tomé. A Rua Direita tornara-se estreita para conter tanta gente, vinda de todos os recantos da ilha, agora com as colheitas perdidas, mesmo nos locais altos. As amostras de uma chuva, vindas tardiamente, não chegaram para demover os mais receosos. Essa efémera esperança depressa se transformara em desespero. Ou São Tomé ou a Morte pela fome, pela seca e pelas doenças...! As inscrições para as roças estavam a cargo dessa Casa Comercial, uma das mais prósperas e conceituadas da Estância. O loja possuia um balcão comprido de mogno, escurecido pelo passar dos anos e roçar dos cotovelos sobre o seu tampo. Nas prateleiras, cobrindo as paredes de uma ponta à outra, viam-se arrumados os cortes de coloridas fazendas acabados de chegar da vizinha ilha de São Vicente. De um dos lados da loja, ficava a área reservada aos artigos de mercearia, com as balanças romanas ou de pratos de latão e colecções de pesos em ferro ou latão, cuidadosamente arrumados numa caixa de madeira com vários buracos. A loja situava-se num rés-de-chão de uma nobre mansão, com quintais, pomares de laranjeiras e tangerineiras, jardins com dálias e roseiras sempre floridas. As hortas estendiam-se ao longo da ribeira, por debaixo dos caramachões de buganvilias floridas, caídas do Alto do Pasmatório. Na minha meninice, gostava de ir à Casa Neves levar algum recado da mamãe à Dona Mariquinhas, a esposa do senhor Jaime Neves. Era a única casa da Estância com campaínha eléctrica à porta do piso superior: um pequeno botão de porcelana branca, aparafusado ao batente. Mantinha os dedos colados ao botão, só para poder escutar o seu toque estridente no interior da casa. Uma vez seria suficiente, mas eu não retirava os dedos dele até que a criada, vestida a rigor, viesse abrir-me a porta. Coisas de meninos... Conheci, e bem, a Casa Neves, pois a minha irmã era lá caixeira, havia um ror de anos. O escritório propriamente dito situava-se ao fundo da loja. Nhô Jaime exibia uma elegante figura, a de um fidalgo mesmo. Alto, magro, de tez branca e olhos esverdeados, pessoa de fino trato um verdadeiro homem de bem e amigo da minha família. Nunca largava o seu cigarro, que queimava uns após outros, abastecendo-se de umas caixas de duzentas unidades, colocada sobre o cofre monobloco, vindas da fábrica de tabacos de São Vicente, para a venda no seu estabelecimento. Sentava-se numa negra cadeira americana de fundo de palhinha e almofada bordada, atrás de uma secretária do bom mogno da Guiné, sempre atafulhada de correspondências várias. Além de comerciante e abastado agricultor, era o agente de alguns veleiros que escalavam a ilha, para aí carregarem peles secas, bananas e sacas com sementes de purgueira ou descarregavam milho branco dente de cavalo de Angola, feijão e outros artigos da primeira necessidade. À luz de um candeeiro a petróleo, de quebra-luz de fina e azulada porcelana francesa, a sua esguia, austera e alva figura inspirava confiança a qualquer um. O fumo dos cigarros enchia o recinto e transbordava para a loja, quando o entrava pela porta aberta do escritório. Nhô Jaime tinha um tique especial: gostava de ver as horas num relógio de algibeira, de tampa trabalhada, preso às calças por uma grossa corrente de prata. Trabalhava em mangas de camisa branca, impecavelmente engomada com goma da mandioca, sobre a qual sobressaía um par de suspensórios pretos, de fivelas douradas, acessórios que ninguém mais usava na Estância naquela época. Era nesse Escritório, um tanto sombrio, pois a luz tinha dificuldade em violar a estreita e medieval Rua Direita, que recebia e contratava os trabalhadores para as roças de São Tomé. Era voz corrente que recebia quinhentos escudos por cada contrato firmado, como agente de uma Firma sediada em São Vicente, e com o exclusivo da contratação do pessoal para tal fim. As secas nas ilhas eram cíclicas e, segundo os mais antigos, a fome, que já ceifara em épocas anteriores milhares de vidas, uma dura realidade para o arquipélago. A operação de contratar gente para as roças de São Tomé podia, eventualmente, ser considerada um acto de pura escravatura, sancionado pelo então Governo do arquipélago, mas, se não tivesse existido, certamente, muita gente teria morrido de fome naquelas ilhas sem recursos, abandonadas pelo Governo Central, e à mercê da chegada, por esmola, do milho e do feijão de Angola. São Tomé, na época, era um bom produtor de café, cacau e coco, necessitava de mão de obra, dado que os são-tomenses furtavam-se ao duro trabalho das roças, cujos produtos serviriam, apenas, para enriquecer alguns patrões refestelados, lá longe, na longínqua Metrópole. Escravos? dirão alguns! Talvez sim, talvez não... Vejamos:
Os contratados recebiam antes de embarcar um adiantamento dos seus salários, para lhes ser descontado, aos poucos, nos magros salários e a alimentação em géneros seria fornecida pelas cantinas das roças. Repito: sem a ajuda de São Tomé e dos poucos trabalhos que o Estado ia arranjando, só para não distribuir de graça o pouco dinheiro disponível aos trabalhadores desocupados e famintos (as obras da fome: as estradas calcetadas e os diques nas ribeiras sem água, entre outras), o cemitério da Tabuga teria sido pequeno para conter tanta gente.
CAPÍTULO 8
A situação de seca, que se vivia em São Nicolau e em todas as ilhas do arquipélago, na década de cinquenta, era cópia das anteriores crises como a que o saudoso Baltasar Lopes, meu amigo e professor, soube descrever, com inigualável mestria, no romance "CHIQUINHO". Por ser o meu livro de cabeceira por excelência, e fonte de inspiração para eu escrever, deixo aqui uma das passagens mais cativantes, para aqueles que não tiveram a oportunidade de ler essa sublime obra de literatura cabo-verdiana, sobre a fome e a seca na ilha de São Nicolau, onde nascemos:
(*) “...No meu degredo do Morro Brás eu ia tomando pulso à crise pela diminuição progressiva da frequência do posto. O meu decurião, Emílio, foi o primeiro a desertar. Vinha de longe, de um lugar perto de Jalunga. Os condiscípulos informaram-me que a família de Emílio batera, fugindo à seca, em direitura da Preguiça. Soube tempos depois que ele não pôde aguentar a jornada e ficou numa moita de purgueira no Canal de Carambola. Lá fui eu com os meus alunos plantar uma cruz no lugar onde Emílio morreu.
Todas as manhãs era com apreensão de chefe de patrulha de regresso de combate que eu fazia a chamada. E raro era o dia em que não faltava um dos meus soldados.
Manuel João!
Não está...
Cândido Almeida
Não veio...
Está mal, professor...
Constantemente passava pela porta gente que fugia dos povoados de Norte-a-Baixo, em direcção à vila. Era um cortejo lamentável de homens, mulheres, crianças. Os animais domésticos faziam também parte do êxodo para outras regiões mais habitadas. Nelas, ao menos, havia a consolança de um olhar de cristão no meio do drama lancinante. Os meninos, com as barrigas inchadas sobre as pernas. E vinha de tudo: o pote de barro, a cama finca pé, as esteiras. A vaquinha magra e as cabras de porta não abandonavam os donos em tal provação. Os cachorros de língua de fora, farejando restos de ossos para enganarem a fome. Muitas vezes, os animais miúdos eram transportados no ceirão dos burros ou em balaios à cabeça das mulheres. Homens e bichos não conheciam distâncias naquela irmanação perante o destino comum...”
Mais adiante (continuo a transcrever o Baltasar, no romance CHIQUINHO):
“...Mas o meu decurião não aguentou muito tempo. Um dia ele teve de prestar também o seu preito de obediência à seca, quando a família fugia do Norte. Era muito longe. Não pude ir, com os meus camaradas, fincar uma cruz no lugar onde o Carrinho da Silva tombou...
Era, assim, a fome no Norte-a-Baixo, na terra de Nhô Djonzinho...
(*) In CHIQUINHO - Baltasar Lopes
pgs.266, 267 e 271, Romance cuja leitura recomendo .
PRELO - Lisboa 1961.
CAPÍTULO 9
Nhô Djonzinho partira para a Estância, nesse dia. Chegara à Casa Neves na altura em que o relógio da Sé batia as nove badaladas da manhã. Parou, sacudiu o pó da roupa e pediu para ser atendido pelo senhor. Timidamente, sentou-se num banco a aguardar a sua vez. A Rua Direita estava cheia e o rebuliço era grande. As mulas e os jumentos, chegados do interior da ilha, passavam com os cascos roçando nas pedras negras da irregular calçada de lajes de basalto e os ecos perdiam-se nas paredes da estreita viela. Um cortejo dirigia-se para o Largo do Terreiro. As pessoas nas lojas, incluindo Nhô Jaime e a minha irmã, vieram chaleirar toda aquela confusão que agitava a viela. Era mais um casamento de gente de fora-
-da-Estância.
Nhô Djonzinho, de boné sebento nas mãos, também veio ver o movimento, para logo exclamar:
Ainda há desgraçados que pensam em casamento, com este tempo tão ruim?
A gente da minha terra não está boa da cabeça! concluira uma caixeira da Casa Alves, espreitando pela porta grande da loja.
Nhô Jaime, o senhor dos contratos, acabara de regressar ao Escritório para atender Nhô Djonzinho, sem antes passar pelo armário para encher um cálice de grogue, bebida conservada numa garrafa de vidro trabalhado com sangue de drago lá dentro. Repôs a tampa estalada no bojudo gargalo faiscante e caminhou para a secretária. O líquido amarelado bailava no interior do cálice, ao lusco-fusco filtrado do candeeiro a petróleo do escritório, facto que fez crescer a água na ressequida boca de Nhô Djonzinho, ainda com o pó da caminhada arranhando-lhe a garganta.
Groguinho amarelinho! pensou ele. Há quanto tempo que não vejo uma groguinha assim tão sabe! Quem me dera poder saborear, ainda que um golinho desse seca-suor! Sim, o que vendem nos botequins nem cor de sangue de drago tem. Até parece a água que mal cai na Passagem. Se, ao menos, deitassem nas garrafas um pouco de sangue de berona para lhe dar tom!...
Nhô Jaime atestou o cálice pela segunda vez, cuspiu um pouco de tabaco agarrado aos lábios, puxou os suspensórios, sentou-se na cadeira ao lado da secretária atafulhada de papéis e falou paternalmente ao seu interlocutor expectante:
Nhô Djonzinho já pensou bem no assunto do seu embarque para S. Tomé? Há dias, estava muito indeciso! Quer mesmo ir para lá, não é verdade?
O candidato a contratado coçou a cabeça, limpou o suor e olhando para o cofre monobloco pintado a negro, ainda com a marca de fábrica legível e em letras douradas, com prateleiras bem recheadas de notas e as gavetas cheias de moedas sonantes, respondeu-lhe de imediato:
Sim, Nhô Jaime, quero ir! Depois de muito matutar, a minha resposta é um sim, claro e afirmativo... Não tenho outra saída! Que remédio...!
O senhor é que sabe! No entanto, ainda pode desistir, mas aguarde um bocadinho para eu aprontar o papel do contrato.
O candidato a contratado, durante a caminhada para a Estân-cia, tivera tempo de sobra para pensar e repensar no assunto e
não lhe restavam dúvidas. Não havia outra saída. Não queria passar o resto da vida, agarrado ao rabo de uma enxada, numa terra desgraçada, sem chuva!
Vou lombar no duro em São Tomé, mas sei, direitamente, que a minha família não vai morrer de fome...
Nhô Jaime acabara de preencher o contrato. Agora, necessitava, apenas, da firma de Nhô Djonzinho.
Então, vamos pôr a sua firma aqui, nesta linha apontara um espaço vazio do papel, com o indicador amarelado pela nicotina de anos. Vou ler os seus seus direitos e também os seus deveres para com o patrão da roça.
O pobre homem assinou o papel e ficou muito confuso com as explicações que ouvira.
É muita areia para a minha carroça...
O filho Toni ficara agarrado às pernas do pai. Ainda tentara ler com o rabo de olho o que dizia o papel, esticando o pescoço franzino, mas pusera de lado o seu intento, quando Nhô Jaime tossiu para limpar a ganganta do ardor do tabaco, olhando-o de soslaio, com ar reprovativo. Nhô Djonzinho recebera das mãos do agente uma senha picotada e carimbada, para ir levantar coisas na loja e um adiantamento em dinheiro, “para ser descontado quando chegar a São Tomé, não se esqueça” foi-lhe dizendo, enquanto esvaziava o cálice.
A Sabina esperava pelo marido na loja, ao lado do balcão, subitamente invadido por um mau cheiro vindo dos fardos de peles de cabras secos a serem pesados no quintal. O seu homem e o filho Toni vinham de mãos dadas, sorridentes. Deram uma fala e depois dirigiram-se ao balcão para levantarem algumas coisas: milho, feijão, amendoim, banha de hipopótamo de Angola em latas de vinte quilos, cotim militar e caqui para algumas roupas. A mulher Sabina fora contemplada com dois belos cortes de fazenda, um lenço com um pavão estampado e umas blusas de chita. O Toni com uns calções e Nhô Djonzinho com um pacote de cigarros de duzentas unidades e algum tabaco Gool, para o canhoto há muito apagado.
***
O Quias (um homem que sempre vivera sem trabalhar) espreitava os contratados, que, euforicamente, saíam das lojas como as canhotas espreitando as carcaças dos animais mortos nos ressequidos campos de Norte-a-Baixo. A primeira vítima foi o velhote Djonzinho, descendo os degraus da loja, de bolsos cheios de trocos tilintantes e embrulhos de papel pardo debaixo dos braços. O Quias coçou a barba de muitas semanas e chamou por ele.
Nhô Djonzinho do Norte? Nhô Djonzinho...?
O homem virou a cara para o lado, fingindo-se nada ouvir. O Toni foi correndo pela rua abaixo para comprar um pau de rebuçado de um tostão, na vendedeira de guloseimas a Quinha da Passagem.
Você já não conhece os seus amigos? Está rico! Vai para São Tomé, não é? Virou contratado e já está atrevido?
Era a voz do Quias, como sempre, com dois grogues na asa, tomados no botequim de Nhô Cícero.
Voltou à carga:
Não vem pagar um copinho ao amigo Quias, no botequim do Terreiro?
Nhô Djonzinho fora mesmo apanhado nas malhas da rede. Não havia maneira de se livrar daquele intruso, que conhecera aquando do enterro da filha, semanas antes.
Vamos a ver se consigo arranjar algum troco nos bolsos.
Nhô Djonzinho estava habituado a pelejar com as moreias pretas da Costa Norte da ilha, e, quando se dava por vencido, largava a linha de nylon, perdendo também o anzol. E agora? Como se iria livrar do Quias, pior que um polvo? O homem revolveu os bolsos à procura de uma moeda, pois as notas estavam bem atadas na ponta de um lenço de assoar e com um nó cego.
Está com azar, meu amigo, não encontro nenhuma moeda!
O intruso Quias, que de tolo nada tinha, coçou a cabeça, dias-há sem água e sabão, retirou um palito de fósforos que trazia na boca desde a manhã quando petiscara torresmos em casa do Toi Cleto, e gracejou:
Você está mesmo com a cabeça fraca dos velhos! Não se lembra de ter amarrado as moedas no lenço, quando saiu da Casa Neves.
Tem razão...A minha cabeça está mesmo fraca...
Entraram num botequim... Nhô Djonzinho pediu ao caixeiro para “botar duas groguinhas da boa, da de Santo Antão”. Dois cálices de vidro amarelado pelo tempo e lascado pelo
uso, retirados de uma bandeja de esmalte, pintada com uma vista esbatida do Monte Fuji, ficaram cheios até às bordas, do precioso néctar. Dizia o Quias:
Agora, vamos brindar aos presentes, aos ausentes, aos negligentes e, finalmente, aos contratados de São Tomé!...
O grogue, em poucos segundos, foi tragado pelos amigos de ocasião. Entretanto, o caixeiro fora chamado para atender um outro contratado, regressando depois ao balcão.
Então, para mim, não há nada! Já não me conhece?
Era um outro amigo, dos que só aparecem quando estamos na mó de cima.
Sim, desculpa-me lá, não estava a reconhecê-lo dizia Nhô Djonzinho, falando da sua cabeça fraca e pedindo ao caixeiro que ”botasse mais uma rodada para todos os presentes, ausentes e ...”
Mais três cálices foram cheios e o líquido sorvido de uma só vez pelas goelas abaixo. Até o boné do Quias foi parar atrás de umas sacas de chicharros da Boa Vista, tal o gesto com a cabeça.
Nhá mãe! gritara o Quias!
Que groguinha mais sabe! acrescentara um outro do grupo.
Uma sonora gargalhada saira do botequim e ecoara pelas paredes das casas nobres do Terreiro. A festança com o dinheiro dos adiantamentos feitos pela Casa Neves tomara conta dos botequins da Estância. Ao fim da tarde, alguns contratados, aos tombos, tomaram o caminho do Lombinho e da Cancela, acompanhados dos familiares com trouxas de compras, tudo à custa de um dinheiro que ainda não tinham ganho mas já quase todo gasto!
Titoi, um ancião que já fora chamado à Administração por subir o caminho do Lombinho gritando puta-qui-pariu, fazia-o, agora, na confusão dos contratados, berrando pi-pi-piu, que não era considerado palavrão, embora com o mesmo sentido, esquivando-se à ira do então administrador do Concelho. A Estância ficara vazia, quando o sol se escondeu para lá do monte da Centinha e o relógio da Sé batera as seis pancadas da tarde.
Nessa época, um irmão meu, que acabara os estudos e aguardava um emprego público, ia-se dedicando à arte da fotografia. Com uma máquina de foles da marca Agfa, do formato de seis por nove, fotografava os contratados que necessitavam das carinhas (fotos do tipo passe) para a documentação pedida pela Casa Neves. Na ilha, havia mais um fotógrafo o Frank mas o negócio dava para os dois, sem conflitos de maior. Meu irmão utilizava uma parede branca da rua com pano de fundo e, para rentabilizar os rolos de películas, fotografava dois contratados de uma só vez, ampliando as cópias. Os reagentes eram caros e dificeis de se obter no mercado, chegando mesmo a comprar o hipossulfito de sódio para os banhos de fixação na Farmácia do Estado. As semanas foram passando. Meu irmão foi colocado na ilha da Boa Vista e fiquei a substítui-lo nessa actividade, fotografando alguns dos contratados que iam seguir para as roças de São Tomé caso da família de Nhô Djonzinho.
CAPÍTULO 10
Dias após, Nhô Djonzinho regressara à Estância ainda com algum dinheiro nos bolsos, acompanhado da Sabina e do Toni. Queriam ser fotografados, pois Nhô Jaime tinha pressa em enviar toda a papelada para São Vicente, no próximo barco. A família pretendia ser fotografada pelo meu irmão, que anteriormente lhes dera um postal, mesmo colorido à mão, mas fui eu a realizar o trabalho. As costureiras da Estância também não tinham mãos a medir, tal o número de encomendas de roupas novas para as carinhas e não faziam outra coisa que não fosse dar à manivela das velhas máquinas de costurar Singer, cosendo os tecidos cortados com enferrujadas tesouras. Lembro-me desse dia. Não havia sol. Um dia triste e sombrio em que o céu está cheio de nuvens e a electricidade estática paira no ar. As pessoas que vinham pela viela medieval, cujo muro branco eu usava também como pano de fundo, dificultavam o trabalho. Nos rostos sofridos daquela gente, viam-se estampadas as saudades de um partir forçado, com destino às desconhecidas roças de São Tomé, por Caminho Terra Longe! Nhô Djonzinho, a Sabina e o Toni traziam roupas novas, compradas com o dinheiro do adiantamento na Casa Neves. O primeiro a ser fotografado foi ele o chefe da família. Vestia calças de cotim militar, ainda com a goma da fábrica, camisa azul e casaco comprado a um americano, ainda com o distintivo de um xerifado qualquer, cosido sobre o bolso esquerdo.Endireitei-lhe a cara ligeiramente suada, de forma a aproveitar a fraca claridade que havia, e regulei a máquina fotográfica para 5,6 de abertura, e 1/125 de velocidade. Quando ia disparar, notei que ele chorava. Parei. Ele pediu-me licença para limpar os olhos a um lenço de pano, ainda com algumas moedas atadas numa das pontas. Ainda hoje sinto o tilintar delas... Nhá Sabina, ao ver o marido chorar em público, coisa pouco frequente, chorou também. Duas gotas de lágrimas rolaram sobre a blusa preta, nova e brilhante, gotas que percorreram o novo tecido até tombarem para as lajes da calçada de negro basalto.
E eu que julgava dizia ela já não ter lágrimas para chorar!
Algumas pessoas desciam pela viela. De água nos olhos, aguardaram que disparasse a máquina fotográfica Agfa, de foles pretos. Um estalido seco no eco do silêncio dos muros. De uma janela vizinha, ouvia-se uma morna, por ironia, bem triste:
...”Hora di bai,
bô ê triste!...”
...”Como é triste,
a hora da partida!...”
Foi nesse dia cinzento e triste que me tocou fundo a problemática emigração forçada para São Tomé, tanto mais que alguns companheiros meus, terminada a quarta classe e sem posibilidades de continuar os estudos, iam embarcar para a Terra Longe de São Tomé. Como meu pai era professor, eu, um privilegiado, iria ter um destino diferente o do Liceu Gil Eanes, em São Vicente, outra ilha do arquipélago. Aqueles garotos, que em breve iriam embarcar, entre eles estava o Zé da Luz, brincavam comigo pelas estreitas ruelas, correndo arcos e fazendo chichela-chiche, ao cair das tardes mornas de cada dia na Estância. Após as fotografias, a família de Nhô Djonzinho seguiu para o Norte pelos escalavrados e ressequidos campos, vendo um mar que era a sua única tábua de salvação. Alguns sinistros corvos voejavam naquele céu azul, lançando as suas agoirentas sombras. A lama agora era pó, por falta das chuvas.
***
A data para o embarque fora marcada, à entrada da Casa Neves, num bocado de ardósia pendurado à porta. As festas de despedida aconteciam a bom ritmo, não obstante a carestia da vida. Como Nhô Djonzinho era tocador de rabeca nas horas vagas, recebera muitos convites e, entre eles, um para um baile no Juncalinho, local onde morava o seu compadre Toi Cacai. O casebre do Toi ficava num alto, numa cabeceira da sua horta, agora abandonada, e nada produzindo como todas as outras. Os poucos familiares ainda vivos juntaram as forças para uma festa de despedida. Infelizmente, não havia muitos capados para um bom molho, mas algo se havia de arranjar. Os homens foram à pesca das moreias ou apanha das lapas e percebas bem agarradas às rochas sobranceiras ao mar. As mulheres ficaram a alindar a sala para o baile. As frigideiras e o óleo para fritar os peixes que haviam de chegar estavam prepa-radas. Nhô Djonzinho e o compadre Toi Cacai desceram por um íngreme carreiro, em direcção à costa, conversando animadamente sobre o baile que ia ter lugar:
Hoje, o mar está mesmo muito brabo! Não vai dar mesmo nada! Até ele parece zangado com a gente. Já não bastava a falta da chuva e agora este mar mau! Nossenhor não está connosco...
Não digas disparates, compadre! Olha que Ele está lá de riba a ouvir e pode castigar-nos...
Quero lá saber, compadre! Costuma-se dizer que depois de coice vem a pancada. Fiquei sem a Nina, a horta nada dá e a própria Sabina anda cada vez mais adoentada...
Chegaram à praia de pouca areia, agora varrida pelas ondas alterosas que revolviam as pedras num som cavo, soltando nuvens de espuma para o ar. Sentaram-se numa fraga, deitaram as linhas para longe e ficaram à espera. Os outros pescadores distribuiram-se pela costa procurando retirar as lapas gigantes e as negras percebas agarradas às rochas, sempre fustigadas por um mar revolto e medonho. Findo a tarde, reuniram-se no topo do rochedo, num local combinado. Nos baldes havia duas moreias gigantes, cinco bodiões, lapas e percebes com fartura, além de algum peixe miúdo, ainda saltitante, coisa para fritar...
Lá em cima, em casa do Toi Cacai, as mulheres olhavam a encruzilhada dos caminhos à espera dos baldes com alguma coisa, pois, sem a comida, o desastre seria total. Um baile sem comida?!
Onde já se viu festa sem comida e grogue era o falar de Pedro de Bia, ainda de boné nas mãos.
A tarde chegara ao fim. Ao longe, um ar azulado e transpa-rente, tinto até ao horizonte de um alaranjado difuso, espalha-va uma calma paz sobre a terra desolada. Toi Cacai desimpedira a única sala do seu casebre, tendo arrumado os seus parcos havres na casinhota do quintal. Pouca coisa já possuía, diga-se em abono da verdade: uma cama de finca-pé, uma enxerga já despojada da palha que servira para alimentar a vaquinha de nome Bissau, de os ossos à mostra e covas na barriga. Outrora, dera leite para a criançada, mas estava seca como os campos em redor do casebre. Viam-se cadeiras, já sem os fundos de palhinhas, coisas vindas da América...
Sabe compadre! dizia o Toi quis largar tudo e dar o meu nome para as roças de São Tomé, mas pensando bem, resolvi ficar para ajudar a enterrar a nossa gente...
Deixa lá de coisas tristes, compadre! Você faz o que a sua cabeça lhe manda e não tem satisfações a dar a ninguém...
Chegaram ao quintal do casebre e entraram. A sala era de paredes de pedra e barro, sem qualquer rebouco exterior e o chão de terra batida. Dos vigamentos, suportando a pouca palha de soca que o vento e a vaca não levaram, pendiam algumas cordas de carrapata, outrora usadas para suspender e proteger as espigas de milho para as sementes da voracidade das famintas ratazanas dos campos. Algumas teias de aranhas, pretas do fumo de um candeeiro a petróleo, bailavam ao sabor da aragem vinda da janela virada ao mar. Um calendário do ano de 1950, já meio comido pelas traças, algumas gravuras recortadas da revista americana Life, com os imponentes arranha-céus de New York e a famosa Estátua da Liberdade, ao fundo. Era nesse aposento ou sala, como queiram, que ia ter lugar o grande baile de despedida. Nhô Djonzinho foi o primeiro tocador a entrar no recinto da festa. Parou e olhou para uma das gravuras colada à parede. Era a fotografia de um enorme vapor de três canudos, pintados a negro com listas encarnadas, deitando um fumo preto da queima do carvão de pedra nas fornalhas.
Sabe, compadre, fui um grande parvalhão! Quando eu era rapaz novo, podia ter tomado um desses vapores para a América, naquele tempo em que os barcos paravam para meter gente. Fiquei em terra! E agora? Ando a lombar no duro, para, depois de velho, ter de embarcar para as roças de São Tomé. A vida prega-nos cada calaca, compadre!
Agora, compadre, não vale a pena chorar sobre o leite que caiu da tigela! Nada resolve. Vamos mas é afinar a tua rabeca com o meu cavaquinho. Dê-me o som da prima...Os tocadores do violão e de viola entraram de cabeças destapadas e bonés nas mãos. A um canto abrigado da sala, mesmo junto à janela virada para o mar, estavam quatro mochos para os tocadores: Nhô Djonzinho à rabeca, Toi Cacai no cavaquinho, Nhô Esteves do Caleijão na sua viola de cordas duplas e barriga enfeitada com casca de tartaruga da Boa Vista e, finalmente, Nhô Celestino do Morro no seu violão novo, acabado de chegar de São Vicente no Ildut. Nhô Celestino era o mais conversador e divertido do grupo; levava a vida sempre a brincar e a rir, com uma perna às costas. Fora embarcadiço no Madalan navio que fazia a ligação entre o arquipélago e a América do Norte. Gostava de contar as suas aventuras “naqueles mares sem fim, misteriosos e cheios de lendas”. Falava nas lindas e formosas sirenas que surgiam dos mares, “quando menos a gente esperava, para fazer companhia aos solitários marinheiros”. Nhô Esteves, já com a sua viola afinada, falava ao colega Celestino:
Conta-nos aquela história da sirena que viu, quando estava de vigia, à proa do Madalan, naquela manhã cinzenta...
Bem, não gosto muito de contar essa história, mas, se tanto insistem, não me faço de rogado.Vamos a ver se a memória não me atraiçoa, como há dias. Numa dessas viagens, estava eu de vigia à proa do Madalan, fumando o meu cachimbo de loiça, cheio de tabaco americano daquele bem cheiroso, coisa fina que nunca chega à ilha. Nesse dia, o mar estava brabo. As vagas galgavam a proa, enquanto o navio, com as suas velas enfunadas, cortava o largo oceano. Os salpicos de água vinham bater no meu rosto, escorrendo pela capa de borracha preta, que trazia por causa do frio do Atlântico Norte.
Nhô Celestino fez uma breve pausa e bebeu um golo de grogue, retirado de um cálice que a Sabina lhe trouxera e que colocara aos pés do mocho, durante a afinação dos instru-mentos musicais. Depois, recuperou o fôlego (era asmático, doença que apanhara com o frio do mar), para prosseguir:
Foi num daqueles dias em que qualquer filho-de-
-parida, mesmo valentão, sente o cheiro a morte nas ventas.
Nova pausa, agora para salvar um amigo que não via dias-há.
Quando meti a cabeça debaixo da capa de borracha para acender o canhoto, dei uma olhadela para fora da borda e qual o meu espanto ao ver, mesmo à minha frente, uma bela sirena (coisa com corpo de mulher e outra metade de peixe, mas sem escamas). Nem nos Bares dos portos da América vira coisa assim...
Nova pausa. No quintal, ouviam-se as vozes dos convidados e parentes que vinham chegando. Outras pessoas, empoleiradas nos muros do quintal, escutavam as histórias de Nhô Celestino. No ar sentia-se um cheiro a moreia assada na brasa e a peixe frito em óleo de baleia.
Conta mais gritara um dos garotos entusiasmado com o que acabara de ouvir.
Agorinha não, menino curioso! Vou mas é acabar de afinar o instrumento, que ficou descontrolado com este mau ar do tempo que vem fazendo.
Com os ouvidos grudados ao violão e a mão esquerda nos escrebêjos (chave de afinação) foi cuidadosamente acertando as afinações, com um assobio sonoro servindo de tom, saído dos seus lábios lubrificados com a primeira posta de moreia acabada de assar. O cheiro a peixe frito e a moreia assada inundava o local, fugindo por entre as frestas das paredes de pedras soltas do barracão servindo de cozinha.
Nhá Tudinha, uma idosa de tronco curvado pelo peso dos anos, a pele mais enrugada que um maracujá esquecido na gaveta, mas que desafiara doenças e secas um ror de anos, sentada a um canto do quintal, enchia, calmamente, os candeeiros com um petróleo cor-de-rosa, trazido da Estância naquela manhã, com o dinheiro do adiantamento recebido na Casa Neves, no dia anterior. O Toni, o rapazote, muito pensativo, pois em breve abandonaria os poucos colegas de escola com quem brincava, olhava Nhá Tudinha e conversava com o Lídio, um garoto da sua idade, da povoação da Jalunga, que também ia embarcar para São Tomé:
Sabes, Lídio, em quê eu estava a pensar, agorinha mesmo! Em Nhá Tudinha, ele mesmo deu a resposta!
Mas como, Toni!
Estava a olhar para a sua cara e só de pensar que ela já foi nova e bonita, como a vi numa fotografia antiga que a mamãe tem lá em casa, faz-me revoltar contra a Mãe-Natureza! Olha os estragos que ela faz nas pessoas. Só tem pele enrugada e ossos salientes! Até fico com medo de chegar a velho e eu ainda tão criança!...
Deixa para lá as más recordações, Toni! Esse maldito tempo também se encarregará de nos transformar em farrapos velhos e nada. É a lei da vida, à qual ninguém pode fugir. Só as plantas se renovam em cada Primavera...
Nhô Djonzinho também acabara de afinar a sua rabeca; veio sentar-se cá fora, no quintal, “para apanhar um pouco de ar fresco do mar”. Um pouco mais abaixo, via-se a silhueta do seu casebre, agora recortada na penumbra da noitinha. Dos lábios saía um harmonioso assobio, próprio de um bom tocador de rabeca:
“Mar azul
Subi de mansinho
Lua cheia
Lumiâme caminho...”
Mar azul sobe de mansinho,
Lua Cheia alumia o meu caminho
Nhô Djonzinho pensava, talvez, na filha Nina que repousava na Tabuga ou na cabrinha Ruça que entregara, contra a vontade, ao Nhô Lima do Matadouro, a troco de algumas notas. Sentado no muro, ficou só e pensativo sem dar pelo passar do tempo, embalado pelo batucar dos grilos e o ribombar das ondas, fustigando, lá longe, as rochas da costa Norte. Entretanto, a sala fora ficando cheia e iluminada por uma difusa claridade amarela dos candeeiros a petróleo, que Nhá Tudinha acabara de acender e colocar nos suportes. Uma nesga de luz saía de uma das janelas, rasgando a leitosa neblina vinda do mar. Algumas vozes ouviam-se ao longe. Eram de pessoas a caminho da sala do baile de despedida. Nhô Djonzinho, com a perna esquerda acusando os efeitos da humidade apanhada nos muros do quintal, agarrou-se aos umbrais da porta e entrou para a movimentada sala.
Sabe, compadre, estou a pensar na minha casa, agora sem nenhuma porta...
Em silêncio, soluçava e limpava os olhos a um lenço amarrotado. Depois, foi ocupar o seu lugar de tocador e de chefe da banda. Os sons melódicos encheram o ambiente, até então triste e sombrio. Tratava-se afinal de uma festa de despedida de uma hora di bai, a hora da partida... As notas saídas dos dedos e soltas do arco de fibra de carrapata da rabeca do mestre Djonzinho, acompanhadas pelos trinados dos instrumentos dos outros músicos, agora num mi-maior, anavalhavam as almas daquela pobre gente, que, em breve, iria deixar os seus casebres, os amigos, os parentes, os ressequidos campos do Norte, enfim, tudo com um rumo desconhecido, o do Caminho Longe de São Tomé!
A rabeca era o instrumento com mais sentimento e alma. Os sons vindos das arcadas de Nhô Djonzinho pareciam ficar a pairar no ar, ferindo, como navalhas afiadas, as almas daquelas martirizadas vidas. Os pares dançavam agarrados, quase sem se afastarem do mesmo local. Cá fora, os vidiões (os não convidados), espreitavam pelas janelas, falando da seca, da fome e dos parentes recém-falecidos. Nos intervalos das músicas, os cavalheiros saíam pela porta fora, limpando as testas suadas e dirigiam-se ao local onde havia grogue e moreia assada. Por momentos, ficavam para trás as tristezas da porca da vida como dizia o anfitrião da festa. Sentado num mocho, Nhô Felisberto (feliz só de nome dizia em tom de chacota), contava a história da sua vaquinha Biluca, que sobrevivera à custa da palha de uma enxerga, ”e eu, este velho, com ossos deitados sobre uma manta, estendida numa cama de finca-pé...”! Enquanto comia uma boa posta de moreia assada, atirando as espinhas para uma ninhada de gatos famintos, olhando-o com ar de compaixão, continuou a narrar a última história da Biluca:
Certo dia, a minha pobre vaquinha roeu a corda de coco que a prendia à figueira do quintal e foi pastar à Fonte, local onde havia alguns pés verdes de cana sacarina. Comeu não mais que duas plantas. O dono da horta, que é meu inimigo por causa de uma contenda antiga, prendeu a vaca e levou-a para a Coima, na Estância. Quando soube do sucedido, larguei tudo e fui falar com Nhô Pajal o zelador da Câmara o homem que tomava conta dos animais presos. Encontrei-o na Passagem e falei-lhe em bom tom garantindo-
-lhe o pagamento dos prejuízos. Nhô Pajal não se condoía com os males dos outros e respondeu-me que a Lei era Lei! Se pagasse a coima, levava o animal... Depois, tentei falar-lhe ao coração:
Nhô Pajal? Tenho lá em casa uma boa ninhada de filhos para sustentar, e trago comigo um dinheirinho do adiantamento que recebi na Casa Neves. Dou-lhe algum, se dispensar o meu animal da coima!...
Não e não! Já lhe disse! Lei-é-Lei! Você vai pagar quatro mil reis à Tesouraria da Câmara e assim pode levar a vaquinha consigo para o Norte, ainda esta tarde.
Não tenho esse dinheiro, Nhô Pajal!
Se não tem, o problema é seu! A vaca vai para a pra-ça...
E foi mesmo! Fiquei sem a Biluca, que dava leite para a meninada lá da casa...
No interior da sala de baile, os corpos colavam-se uns aos outros, ao som das lânguidas mornas que saíam dos intrumentos musicais dos tocadores. Uma poeirada amarela, levantada pelos pés dos dançantes, todava o ar. Nhá Zeferina a anfitriã num intervalo de uma coladeira, Nhô Antône Scaderôde, aproveitou a ocasião para borrifar o chão de terra solta, espargindo a água com um bacia velha e furada, fazendo assentar a poeirada, que escurecia a fraca claridade dos candeeiros a petróleo, ainda mais de vidros enfarruscados. Foi dado seguimento ao baile. Chegara a hora de tocar o manchê música com a qual se dava por findo o baile. Logo que a rabeca deu o tom, fez-se silêncio na sala. Até os grilos se ouviam nas fendas das pedras dos muros do quintal. As corujas e as cagarras piavam nas rochas escarpadas e, ao longe, ouvia-se o ribombar das ondas fustigando a costa. Nhô Djonzinho ia puxando o arco da rabeca e observava a horta, através de uma janela virada ao Sul, agora sem os milheirais, sem ervas verdes e devorada pela última praga de gafanhotos. Lá fora, o Toi Cacai descansava o seu magro corpo numa pedra fincada no chão, servindo-lhe de banco, respirando o cheiro a maresia, vindo da negra costa Norte. Os instrumentos musicais foram guardados nos estojos. Para muitos era o último baile das suas vidas nas terras do Norte, antes da debandada forçada para as roças de São Tomé, fugindo à negra fome...
CAPÍTULO 11
Naquela época, 1950, as roças de São Tomé eram uma das saídas possíveis para as fomes que assolavam Cabo Verde. Outros rapazes, colegas meus da Primária, em vez da dura vida nas inóspitas matas de cacau de São Tomé, preferiram trabalhar em cargueiros e petroleiros, de riba da água da água do mar, cruzando os frios Oceanos do Norte da Europa ou suportar o calor tórrido da Costa Arábica, encharcando os pulmões do cheiro pestilente a petróleo bruto. Holanda era um dos portos onde os barcos metiam gente uma de mão de obra barata - por ser clandestina, claro está! O Toi um colega da primária um rapaz inteligente, e que não teve posses para continuar os estudos, foi um deles. Andou um ror de anos a bordo dos barcos. Segundo me relatava por cartas, a vida a era dura para um rapaz que acabara de deixar os bancos da escola, para ir trabalhar no convés de um petroleiro, habituado a um clima ameno das ilhas de Cabo Verde. De repente, viu-se con-frontado com o rigor do frio do Norte de Europa e dos mares do Japão, no convés de um barco, usando grossas galochas de borracha e impermeável, trabalhando por entre as tubagens transportando o ouro negro, que fazia e faz girar as civilizações. Mesmo ele, o Toi, não conseguiu superar as agruras da vida. Foi no refúgio desses tubos, por onde corria o crude, exalando vapores venenosos e explosivos, que ia ganhando a vida. Enviara todo o dinheiro para a terra,” para lhe comprarem uns palmos de terra para trabalhar quando deixasse a perigosa vida do mar”.
Sonhos, sonhos de um rapaz chamado Toi! Anos volvidos, (1994), fui encontrá-lo na Estância, sentado num dos bancos do Terreiro, a catar do chão as beatas dos cigarros. O dinheiro fora utilizado por um familiar seu na compra de terras, que pôs em nome próprio. O Toi ficou sem nada. Hoje é um doente mental. Tive pena dele. Antes tivesse ido parar às inóspitas roças de São Tomé, como muitos dos meus colegas da primária. Nunca sabemos qual o caminho certo a tomar na vida e, normalmente, apostámos no cavalo errado como dizia Nhô Djonzinho lamentando-se não ter embarcado para a América quando rapazote, e olhando com nostalgia os vapores de canudos pretos, cruzando o horizonte, enquanto lutava com uma moreia pintada, bem agarrada à linha de pesca queimando as suas calejadas mãos.
***
A data para o embarque para São Tomé aproximava-se a olhos vistos e o dia marcado a giz branco num bocado de ardósia, pendurado à porta da Casa Neves. Depressa, a nova chegara a todos os cantos da ilha de São Nicolau. As famílias vinham em direcção à Estância, transportando as suas malas de tábuas de caixotes das bolachas, vindos de SãoVicente para minimizar a fome resultante da seca. As tábuas de um pinho deslavado eram despachadas pelos comerciantes, logo que as bolachas eram vendidas. O comprador levava o caixote para fora, ainda com migalhas de bolachas misturadas com o papel pardo, avidamente disputadas pelos garotos. As redondas bolachas, vendidas a um tostão cada, ajudaram a matar a fome a muita gente. Conservo na memória a imagem daquelas crianças, sentadas no banco da Passagem e segurando com as mãos escuras as deslavadas bolachas, acabadas de chegar de São Vicente. Com a madeira dos caixotes, o carpinteiro Nabes, que morava na Estância-de-Baixo, fazia as malas para os contratados. Também arranjava os tambores para as festas populares de São João e São Pedro e, certa vez, fez um para mim. Nhô Nabes pintava as malas com as cores mais garridas possíveis (verdes e amarelos) ao gosto dos contratados. O Largo da Passagem, nesse dia, enchera-se de contratados que chegavam à Estância, a pé, ou em burros e mulas. Foi num dia em que a Câmara mandara abanar as mangueiras do jardim Monsenhor Bouças. As mangas, abundantes nas épocas de fome, caíam com um baque surdo, por entre folhas amarelecidas pelo vento de suão. O zelador iam apanhando as frutas, vendidas a um tostão cada. O Quias, como sempre, aparecia para ajudar e para comer.
Falava ao zelador:
Nunca vi um ano de tanta fartura de mangas!...
Ano de fome, ano de mangas confirmava ele atarefado em catar as frutas do chão para uma lata.
Na verdade, nos anos de pouca chuva, as árvores pariam de forma anormal. Só que a manga nem sempre servia para matar a fome, pelo mal que causava às barrigas inchadas da pequenada. Da casa da Passagem, fui observando os contratados que continuavam a chegar ao Largo, vindos pela ribeira. No seu piso térreo, funcionava a sapataria de António Cavaquinho, um bom artífice que não tinha mãos a medir para dar vazão aos muitos pedidos de sandálias e sapatos para os contratados. O martelo castigava a dura sola, sempre de molho numa tigela da Boa Vista, exalando o cheiro a couro fresco de curtimento caseiro, que chegava ao local misturado com o do tabaco barato de cultivo local. Outra figura conhecida e que acompanhava a chegada dos forasteiros à Estância, era a do Finado, morando ao lado da tal sapataria do Cavaquinho. Estranho nome, acha o leitor! Já lhe conto a sua origem. Quando o Quias trazia uma má notícia de falecimento de gente conhecida, lá ia o Finado (razão da alcunha), de fita métrica nas mãos, tirar as medidas para o caixão, coisa que ajudava a fazer sem nada receber. Normalmente, a madeira era comprada ao Páchico ou na loja de Nhô Chêjo. Na falta, qualquer porta velha servia para o efeito.
Madeira para a terra comer! dizia o Finado, fazen-do humor negro!
Durante a minha meninência, eu assisti à feitura de alguns desses caixões, quase sempre no quintal da casa do defunto. Um garrafão de grogue acompanhava as serras, as plainas, os martelos, a caixa com os pregos e as tachas douradas de vários tamanhos. A serra entrava na madeira; um cheiro a resina fresca inundava o ar; o vento espalhava as serraduras pelas fendas das calçadas de pedra; os garotos brincavam com as figuras geométricas da madeira que sobrava. Quando chegava o momento de forrar o caixão, o Finado já mal conseguia aguentar-se de pé, devido aos grogues bebidos. O martelo, em vez de acertar nas cabeças das tachas douradas, castigava os seus magros e compridos dedos e soltava, como não podia deixar de ser, um porra, com todas as letras. Conta-se, que, certa vez, durante a feitura de um caixão trabalho que todos executavam com um mórbido prazer (“é para ele e não para mim”), um recém-viúvo mandou comprar um garrafão de grogue num botequim da Passagem. Com a pressa em arranjar a vasilha, a Cacildinha uma criadinha lá da casa foi descobrir uma que fora utilizada no transporte do petróleo para a lanterna, cuja luz iluminara, pela última vez, o rosto cadavérico e amarelado da defunta. O Finado foi o primeiro a dar pela chegada do garoto, ao transpôr a porta com o garrafão de grogue debaixo dos braços:
Para cá esse garrafão, para eu molhar a goela seca!...
Não, senhor Finado. Vou dar o garrafão de grogue a Nhá Cacilda, quem me mandou fazer o recado!
Menino mofino de um raio, vais mas é caçar pardais...
Assim que tragou o primeiro cálice de grogue, acrescentou:
Isto não é grogue! É petróleo puro! Coisa para as lan-ternas ou candeeiros.
Entretanto, os outros convidados serviram-se do grogue e lavraram os seus protestos junto ao amargurado viúvo, absorto na contemplação do corpo da defunta, tão maltratada por ele em vida... O Finado, mais uma vez, falou:
Cacildinha? Dê-me mais um cálice desse intragável gro-gue com petróleo!
De cálice em cálice, o Finado e outros acompanhantes foram esvaziando o garrafão, que até trazia no fundo alguns grãos encarnados das sementes de Santa Clara, coisas que a finada usava para tingir o petróleo incolor.
- Grogue com petróleo, onde já se viu...
E o garrafão estava no fundo e todos arrotavam a petróleo, nesse dia da feitura de mais um caixão para um finado distinto...
***
Os dias foram ficando para trás e a data para a chegada do navio Ildut ao porto da Preguiça aproximava-se. A Estância adquirira redobrada animação. Havia mais pessoas e mais alimárias, transportando as bagagens dos contratados.
Até parecia dia da festa da Padroeira! no dizer de Nhô Djonzinho já de roupagem nova feita no alfaiate Mário.
Por todos os lados, viam-se famílias inteiras nos preparativos para a partida. Havia algum dinheiro dos adiantamentos feitos pela Casa Neves. Alguns chefes afogavam as mágoas de um partir forçado no grogue incolor que corria nos botequins da Estância. A garotada corria pelas estreitas vielas, misturando-se com os meninos e meninas que saíam da Escola da Irmandade e apedrejavam as mangueiras do jardim da Passagem, à cata de alguma manga resistente aos abanões, levados a cabo no dia anterior. No Largo da Passagem, a Quinha uma vendedeira de rebuçados em paus , sentada no banco de pedra lavrada, exibia o seu tabuleiro de madeira recheado de açucrinhas de leite, embrulhadas em papel de seda de várias cores, para desespero da criançada sem um tostão furado para as comprar. As montadas, em correrias desenfreadas, iam matar a sede no bebedouro local. Os garotos, de cadernos debaixo dos braços, aproveitavam-se da desatenção dos donos das alimárias para lhes arrancar algumas porções de crinas das caudas dos cavalos, para os laços das chicras (armadilhas para caçar os pardais). Algumas famílias já seguiam Lombinho acima, na direitura do porto da Preguiça onde já estava o navio, fugindo assim ao rebuliço da última hora. Outras, menos apressadas, sentadas junto ao seus parcos haveres, aguardavam a chegada da camioneta de caixa de madeira, onde seguiriam misturadas com as suas bagagens. A pacata povoação da Preguiça (que nome, meu Deus!), com algumas casas espalhadas pelo morro sobranceiro ao porto e um Forte do século XVI dominando a baía, transformara-se, de repente, num mar de gente e de frenéticas alimárias. O pequeno comércio local, quase sempre num marasmo dos dias sem barcos no porto, também colhia os benefícios da situação. Dona Augusta, uma senhora de fino trato, e, desde o falecimento do marido e do único filho Augusto, ocorrido numa fatídica faina de pesca submarina, refugiada num luto de um preto retinto e pesado, não tinha mãos a medir para dar vazão a todos os fregueses que se acotovelavam no balcão de madeira de mogno da Guiné do seu botequim. Ela morava nas traseiras do seu estabelecimento, numa casa em frente ao edifício das Alfândegas (hoje em ruínas), mesmo à beira de um precipício, sobre a baía. A sala de jantar dava acesso ao botequim através de um corredor muito estreito sempre atravancado de sacas contendo chicharro e chacina da ilha da Boa Vista, para o abastecimento das populações carentes de proteínas. Só que, com o estalar da crise, esse corredor ficava vazio, pois as mercadorias eram vendidas mesmo antes de entrarem na loja. Ainda vejo a cativante figura da dona Augusta, uma senhora de tez clara salpicada de pintas castanhas que lhe incutiam uma certa graça. Ela tinha rugas no rosto e veias azuis espalhadas pelas alvas mãos, que gostava de pousar sobre o balcão, fazendo contraste com o escuro do mogno da Guiné, já manchado pelo sujo de muitas mãos e cotovelos dos pescadores e catraeiros. A um canto do balcão, via-se uma bandeja esmaltada com desenhos de ramos de bambus e pássaros orientais, já desbotados pelo roçar dos fundos dos copos e cálices de vidro. Do outro lado do balcão, uma rede protegia das moscas uma travessa com peixe pequeno frito, torresmas e pastéis os tira-gostos tão apreciados pelos bebedores de grogue. Das vigas escuras, suportando o soalho de pinho da Espanha do piso superior, pendiam alguns papéis mata-moscas de fabrico caseiro, pintalgados de insectos mortos. Dona Augusta era uma senhora que irradiava simpatia. De invulgar energia, não tinha mãos a medir para atender a todos os fregueses, e eram muitos, nesse dia de embarque dos contratados para São Tomé. Limpava as mãos a um pano branco, preso à cintura com alfinetes de ama, percorrendo o corredor de acesso à sala de jantar e restaurante, fazendo ranger, com os seus cadenciados e firmes passos, as tábuas mal pregadas de um velho soalho de pinho. Pela janela da sala principal, onde ficavam os fregueses de mais destaque, recebidos em ambiente familiar, via-se a praia mais próxima, de areia preta e roliços calhaus à mistura e botes multicores varados na linha de rebentação, onde brincava despreocupadamente a meninada nua. Os sons dos cascos das mulas descendo a Ladeira ouviam-se reflectidos nos muros das Alfândegas; o marulhar das ondas chegava abafado e distante; um mar calmo estreitava-se por entre as escuras fragas que circundavam o porto, deixando a baía mergulhada numa tonalidade azulada e sombria. Os muros caiados de branco limitavam um pequeno cais, erguido sobre as rochas; um farol cortava a linha do horizonte com a sua torre branca; alguns grampos de ferro, carcomidos pela ferrugem e destinados à amarração dos navios, viam-se espalhados pelas rochas, como argolas olímpicas.
Fui encontrar Nhô Djonzinho sentado junto ao Farol, olhando para o ignoto horizonte, de lágrimas nos olhos. Reco-nheceu-me. Fora seu fotógrafo, havia dias. Falei-lhe e ele falou-me:
Estou triste! Vou partir sem saber se um dia poderei pisar de novo esta minha terra donde nunca devia sair!
No momento, veio-me à mente parte de um poema do grande poeta cabo-verdiano, já falecido, Eugénio Tavares, que cito:
“ Aquele que fica não vai
Aquele que não for não regressa...”
A maioria das pessoas nunca tinha deixado a sua terra natal, onde criavam as cabras, os porcos e as galinhas. Agora, nada havia a fazer! Fugir, fugir para a ignota Terra Longe, ou ficar naquela ilha escalavrada, para morrer à fome, entregues à Vontade de Nossenhor. Triste sina! a de um povo mártir morrendo de sede, rodeado de água por todos os lados!... Na Estância, outros contratados subiam para as camionetas, estacionadas à sombra das amendoeiras bravas do Largo do Terreiro. As viaturas tinham bancos laterais e caixas abertas. Ao passarem pelo Lombinho, os contratados despediram-se do branco casario do povoado, com o mar da Prainha ao fundo. Muitos não poderam suster as lágrimas de saudades, que rolaram sobre as bagagens cobertas de pó. As camionetas gemiam ladeira acima, deixando no ar uma nuvem de pó e de fumo. Alguns quilómetros depois, o Campo da Preguiça, e a bela povoação do Caleijão, de que fala o autor do CHIQUINHO, o professor doutor Baltasar Lopes da Silva. Em frente, o desfiladeiro do Fundo da Manca, o Morro, a Caldeira e o mar, ao fundo. As acácias e as espinheiras pretas, que outrora cobriam a zona, tinham desaparecido, devoradas pelas cabras ou mutiladas pelas pessoas, em busca da lenha da cachupa. O meu falecido pai já dizia naquela época, que dois C’s seriam responsáveis pela desertificação das ilhas, além do “S” da seca: O C das cabras e o C da cachupa alimento que necessitava de várias horas de bom lume de lenha para a sua cozedura. O tempo, infelizmente, veio a dar-lhe razão. Sem vegetação não havia chuva e, sem esta, impossível a reflorestação das ilhas, onde as nuvens passavam por cima para despejarem a sua preciosa carga de água no mar, por ironia do destino... Para trás ficara a Estância, mergulhada numa nuvem de poeira e de calor, trazidos pelos quentes ventos de Suão, de Leste. As camionetas pararam à sombra de um tamarindeiro que à berma da estrada parecia querer desafiar a seca e a voracidade das cabras. O condutor aproveitara a ocasião para desentorpecer as pernas e fazer as suas necessidades fisiológicas. A garotada descera da caixa e subira à árvore, à cata das suas vagens, que ainda deviam estar amargas, pelo frazir dos magros rostos onde brilhavam os negros olhos. A viatura parára junto ao botequim da dona Augusta para largar as pessoas. Nhá Filipa Paula, uma mulher da Ladeira, viera despedir-se das suas amigas e conhecidas. Abeirou-se de um grupo, salvando-o, um a um, desejando a todos, sorte e boa viagem na Vontade de Nossenhor... Nhá Filipa era uma anciã conhecida da minha família e lavava as roupas de algumas casas da Estância, além de carregar às costas as malas dos CTT, entre a Estação e o porto da Preguiça. Conheci-a muito bem. Algumas vezes, fui à Ribeira de João transmitir-lhe algum recado da mamãe, ou levar-lhe o sabão que deixara por esquecimento lá em casa. Sentado no dique, eu ficava a observar as lavadeiras, espalhadas por entre o verde dos bananais que cresciam à volta dos regatos e o branco dos lençois estendidos a secar, quando havia água, claro. As lavadeiras, de saias acima dos joelhos, atadas com cordas das bananeiras, mergulhavam as pernas nas improvisadas represas e passavam a pente fino a vida das gentes da Estância aquilo que em linguagem vulgar se chamava de ”lavar da roupa suja”... Nhá Filipa, agora solitária e triste estava sentada no muro do cais da Preguiça, de água nos olhos, despedindo-se dos parentes e amigos. Nesse dia fizera uma folga na árdua tarefa de lavar as roupas das casas da estância para ir ao porto, sem antes deixar, no recinto da Alfândega, as malas dos Correios que transportava às costas...
CAPÍTULO 12
Nhô Djonzinho, com os ossos doridos da caminhada, dei-xou a acolhedora sombra do branco muro das Alfândegas e dirigiu-se ao botequim da Dona Augusta, donde vinha uma grande animação de gargalhadas sonoras, em todos os tons. As bandeiras das portas estavam escancaradas e os contratados entravam e saíam vezes sem conta. Uma lufada de ar quente varria o ar do interior pesado do botequim uma mistura de vapores de grogue, de peixe a fritar e dos corpos suados pelo calor que fazia. Alguns pescadores partiam; outros chegavam das fainas da pesca, descendo a Ladeira de remos e redes nas mãos, assobiando mornas e caladeiras, indiferentes à sorte daqueles “patrícios que, em breve, iam partir para as malditas roças de São Tomé” -no dizer de um deles Nhô Zeferino “nós jogamos todos os dias as nossas vidas neste mar que, sem aviso prévio, torna-se brabo quebrando navios, mormente os nossos frágeis botes”. O velho pescador, na pausa de uma cachimbada cheia de erva mal cheirosa, falava da história da Preguiça. Dizia que, segundo a tradição oral, que passara de geração em geração, a primeira povoação fundada na ilha foi no século XV, edificada no Porto da Lapa. Nessa época e nos séculos seguintes, todo o arquipélago era ponto obrigatório de passagem e de aguada dos navios de piratas, que vinham da América do Sul a caminho da Europa, carregados de ouro, prata, pedras preciosas e escravos, aprisionados na Costa Africana. Como o Porto da Lapa revelara-se pouco defensável, os seus habitantes fundaram a vila da Ribeira Brav«a, distante da Preguiça cerca de sete quilómetros, situada num vale profundo. Para a defesa dessa nova povoação fora erguido o Forte da Preguiça, lá nas alturas, agora em ruínas e com os seus canhões apontados para a baía.
Nhô Zeferino sabe muita história desta nossa terra!
Sim, sou pescador, e como as guelras do peixe bodião, que fazem muito bem à memória da gente, sabiam...
Desatou a rir e retomou a história:
Conta-se que, certa noite, os corsôges desembarcaram aqui, neste porto, e neutralizaram os canhões do Forte, com pesadas balas de ferro de calibre superior, introduzidas nos canos com ajuda de pesadas marretas, manejadas pelos possantes braços dos escravos que traziam a bordo. Verdade ou lenda, se quiserem ver as bolas encravadas nas bocas dos canhões é só subir o morro, como diz o brasileiro...
E o Porto da Lapa, Nhô Zeferino, que foi feito dele?
Essa povoação entrou em decadência, após a população ter procurado refúgio naquilo que hoje é Estância, Vila da Ribeira Brava. Do Porto da Lapa só ficaram alguns vestígios e as barracas utilizadas pelos pescadores. Também ficou célebre uma pesada derrota imposta aos piratas, história que passou de geração em geração. Ouvi-a da boca do papai, que por sua vez a ouvira do avô, contada pelos seus bisavós: As colunas de piratas, desembarcadas no porto da Preguiça, após inutilizarem os canhões do Forte, como vos ia contando, marcharam rumo à Vila. Os sinos tocaram a rebate, logo que os mensageiros chegaram com a nova. Um grupo de populares organizou a defesa da povoação, montando uma emboscada numa ravina que viria a ficar com o topónimo de Fundo de António Portuguesinho. Foram utilizadas todas as armas disponíveis: pedras, paus, fundas de arremesso, armas de fogo de carregar pela boca e outras. O grupo, unido e bem comandado por um degredado do Reino, conhecedor das artes da guerra, colheu de surpresa as colunas de corsôges que, cercadas, ficaram sem possibilidades de retirada. Choveram então pedras e metralhas das armas de fogo, não tendo escapado um único pirata para contar a história aos companheiros que a bordo dos barcos, fundeados ao largo do porto, zarparam sem saber da má sorte dos companheiros. Os corpos foram sepultados no local, que, ainda hoje é conhecido por Fundo de António Portuguesinho.
Mas Nhô Zeferino quem foi esse português?
Para vos falar claro, surgem dúvidas: para alguns ele era um degredado do Reino, mandado para vir cumprir uma pena na ilha, por tercortadoum peito a uma mulher. Certo dia, evadiu-se da cadeia e fugiu num barco de piratas ancorado no porto. Anos depois, sendo um bom conhecedor da terra, das suas gentes e das riquezas existentes, voltou ao arquipélago como guia dos piratas, numa das habituais incursões ao interior da ilha, para roubar e saquear os bens do povo. Foi ele quem orientou e comandou os piratas rumo à Estância e ficou sepultado, juntamente com os outros piratas, no Fundo de que deu nome. Outra versão, essa mais verosímil, é aquela em que se diz que ele comandou a emboscada, ao lado do povo, contra os piratas e, por isso, considerado um herói. As dúvidas ficarão para sempre, meus amigos, herói ou vilão...
Nhô Zeferino, parára para acender o seu canhoto, enquanto os contratados se dirigiam ao cais de embarque, lá em baixo.
Depois falou:
Quando era dado o sinal de navio de corsôges na costa, o povo, amedrontado, enterrava todas as joias nos quintais e fugia para os buracos das rochas. Os piratas apoderavam-se de tudo o que encontravam: cereais, peixe seco, animais, frutas e as pessoas com melhor constituição física, para venderem como escravos na costa da África. Fala-se, que muita riqueza ainda poderá estar enterrada nos quintais da Estância e para sempre...
Nhô Zeferino, diga-me onde estão esses tesouros para eu ir poder ir lá cavá-los, em vez de ir para tão longe, para São Tomé dizia-lhe um dos contratados, prestes a descer para o bote, que o levaria a bordo do Ildut.
Visitei esse Forte. Lá do alto, via-se toda a baía. A minha memória parára no tempo em que os factos se passaram. À minha frente, como numa tela do cinema, via tudo. Um recinto rodeado de muros em ruínas, os canhões espalhados pelo chão, alguns ainda apontados para a baía e com as balas de ferro encravadas nas bocas. A Fortaleza desfazia-se em ruínas pela encosta abaixo, por entre as ervas daninhas. Sentira que a História da ilha ainda estava por escrever. Espero que, um dia, seja feita por algum historiador de Cabo Verde, mesmo das lendas, como a que Nhô Zeferino acabara de contar aos contratados que iam embarcar... Na minha fértil imaginação infantil, talvez fruto dos filmes de piratas, via surgir no horizonte uma frota de barcos corsôges, de velas enfunadas, dobrando a Ponta da Vermelharia, com os seus canhões apontados à Fortaleza. Afinal, eram as histórias que eu também ouvira da boca do meu tio Frank homem viajado e bom conhecedor do passado da ilha de São Nicolau sentado no seu regaço, quando a noitinha chegava de mansinho sobre o vale. O Forte agora estava votado ao abandono, tomado pelas freiras e chaluteiras. As cabras, empoleiradas nas ameias, olhavam aquele rebuliço das gentes que iam embarcar. Vi os pardais fazerem os seus ninhos nas fendas das ruínas, transportando a palha nos bicos e os corvos voejando sobre a seca encosta, receando-se da presença de estranhos naquele local ermo e abandonado.
Enfim, a História, ainda por escrever...
N.A:Recentemente, em 1994, visitei o Forte. Já não está tão abandonado. Os muros foram simplesmente deitados abaixo e as pedras utilizadas na construção de casas na Preguiça... Os canhões ainda lá estão, com as balas encravadas. No local, que de Forte já nada tem além dos canhões, existe um Monumento evocativo da passagem de Álvares Cabral pela ilha, a caminho do Brasil: 1464-1994. V Centenário das Descobertas Portuguesas. Escreveram a História, quiçá sobre a estória de Nho Zeferino?
CAPÍTULO 13
Do alto das ameias do Forte, via-se o casco branco do navio Ildut, cortando o mar azul e entrando no porto, com a ajuda do motor auxiliar. Não havia vento. Continuei a fitar o horizonte, obcecado com a visão dos barcos de piratas na baía, mas não havia nenhum. Era o Ildut o navio que vinha salvar as gentes acossadas pela fome e não para assaltar a ilha de S. Nicolau. Era o navio da salvação que as levariam para a ilha de São Vicente, onde o vapor Borba as aguardava, e daí para São Tomé aquela Terra Longe no dizer dos revoltados contra o destino cruel. Sim, não se tratava de um barco de corsôges, dos que, séculos antes, demandavam o mesmo porto para aí aprisionar gentes para escravos. Agora, os escravos eram outros os escravos da fome e da miséria - que dizimavam o povo de São Nicolau, a minha ilha natal. No convés do Ildut viam-se os marinheiros nos preparativos para a largada do ferro, nos baixios da baía. No cais, muitos gritavam, com lágrimas nos olhos:
Viva o barco da salvação! Viva...
Os botes movidos a remos tomaram a direitura do Ildut. O cais enchera-se de contratados, aos abraços e aos soluços, em comoventes despedidas. Todas as embarcações eram poucas e os catraeiros não tinham mãos a medir. Havia muita gente para transportar para bordo do navio. Até o Chico Bento um pescador que viera das bandas dos Carvoeiros que, dias-há,
tinha a sua embarcação varada nos calhaus da praia, à espera que o carpinteiro Nhoca substituisse algumas tábuas do fundo podre e a meter água, apressara-se a calafetá-la com as suas próprias mãos, mesmo à luz de uma lanterna a petróleo, só para não perder aquele dia de frete, coisa pouco frequente... Nhô Chico Bento era um pescador cuja figura muito me impressionava desde menino, quando ia à Preguiça, onde um irmão meu chefiava a Alfândega local. O pescador, um homem de boa estatura, braços musculosos, de rosto tisnado pelo sol do mar, e mãos calejadas pelos remos, possuia a tal embarcação com o nome de Virgem-do-mar. O ancião tinha uma particularidade rara e que me atraía. Trazia sempre a vista direita tapada com uma pala preta, à laia dos piratas dos filmes. Certa vez, aproximei-me dele, num daqueles dias em que o mar faz com que os pescadores fiquem em terra, jogando às cartas. Com receio de uma má resposta, indaguei-lhe dos motivos para o uso permanente daquela venda sobre o olho. Ele não se fez de rogado e falou-me:
Sim, menino, se estás muito curioso, vou explicar-te o que me sucedeu, há que tempos:
Olhei, mais uma vez, a cara do velho pescador, relembrando--me das histórias dos piratas que o tio Frank me contava.
Sim, menino, vou contar-te a minha estória. Certa manhã, numa daquelas manhãs em que a neblina fica grudada ao mar, estava eu a bordo do meu bote, como sempre, só, segurando nas mãos a linha, à espera de algum peixe. O mar via-se chão e com uma tonalidade cinzenta de chumbo coisa esquisita vinda das suas entranhas. Lá longe, as ondas castigavam os rochedos. Atirei a linha e depois amarrei a ponta à forquilha dos remos e acendi o canhoto para a primeira fumaça da manhã, com a erva que o compadre Lela me arranjara na Estância. O meu bote baloiçava, mansamente, sobre as ondas. Enquanto eu contemplava as argolas de fumo esvaindo-se naquele mar cinzento, olhei para bem longe, deitando contas à vida: aonde iria arranjar dinheiro para comprar um outro bote, quando a Virgem-do-Mar ficasse sem conserto? Sim, quando eu apanhava algum peixe não recebia todo o dinheiro das vendas. Muitos fregueses diziam para “pôr no papel”! Tudo fiado. Apenas a dona Bita me pagava em dinheiro cantante, mas, mesmo assim, via-me a braços para sustentar a meninada lá da casa. Absorto nos meus pensamentos, eu contemplava as ondas do mar, cismando sempre! De repente, quando espreitei para o local onde a linha entrava na água, um peixe-agulha saltou do mar cinzento e veio na direitura da minha vista, como uma seta mortal. Uma dor tomou conta de mim. Caí de bruços sobre as tábuas do fundo do bote que metia água. A caneca de azeitonas para a baldeação flutuava por entre os cavernames podres. Vi estrelas de dia, menino! Podes acreditar em mim! Sim, parecia mesmo coisa do Diabo! No mar também há o Demo para atormentar os pescadores. São os inimigos das sirenas. Recolhi a linha. Vendo apenas de uma das vistas, guiei o meu bote até ao cais. Já em cima do molhe, senti que não tinha forças para caminhar. Levaram-me para a Estância, onde Nhô Luís enfermeiro me tratou. Quanto voltei à Preguiça, já curado, cego de um olho que nem Camões, e com forças para caminhar, fui à capelinha agradecer a Santo António a graça em me ter deixado com a outra vista, para poder trabalhar a hortinha de milho no Caleijão e ainda pescar para a família.
Em silêncio, ouvi a história de Nhô Chico. A partir desse dia, em vez de ter medo daquele homem de palas negras nos olhos, passei a olhá-lo com redobrada admiração.
Os botes, em verdadeiras procissões, partiam para o Ildut e regressavam ao cais para transportar mais contratados. Nhô Djonzinho estava especado à ponta do cais, junto ao Farol, não mostrando qualquer pressa em querer embarcar. O bote do Toi Quinha, a Sereia-do-Mar, atracado às escadas de pedra, baloiçava ao sabor das vagas que desabavam em sonoras cascatas pelos degraus abaixo, meio cobertos de limos escorregadios e de repelentes ouriços do mar.
Alguém bateu-lhe às costas...
Nhô Djonzinho? Acorda!
A Sabina e o Toni, sentados no bote, baloiçando ao sabor das vagas que caminhavam em direcção à praia de calhaus, aguar-davam a sua descida.
Você está com medo? gritara o patrão do bote!
Nhô Djonzinho olhou para o patrão do bote e falou-lhe:
Medo? Medo não, eu estou habituado ao mar brabo da costa Norte.
Lá do fundo, do bote, a Sabina gritava para ele:
Salta lá, homem de Nossenhor! Salta, agora!
Nhô Djonzinho, impávido e sereno, observava os contratados já nos botes, alheio ao que se passava mesmo aos seus pés. O seu espírito vagueava longe daquele corpo, “nesse meu velho e
estafada carcaça” como dizia, por entre os dentes.
As suas fracas pernas, tolhidas pelo reumatismo e pela velhice, já não obedeciam ao dono tão prontamente. Tremiam. Ele queria caminhar, mas sentia-se sem forças, como se estivesse grudado àquele maldito cais, cimentado sobre as rochas escarpadas, como ele à sua terra natal. Foi o próprio Toi de Quinha quem subiu os degraus de pedra, deixando o Beto a comandar a embarcação, tentando encaminhar o pobre homem para o seu lugar na popa, onde a Sabina e o Toni, há que tempos o aguardavam, impacientemente.
O falecido escritor Baltasar Lopes, no seu romance CHI-QUINHO, transcreveu parte de um poema do já citado Engénio Tavares e que me veio à mente, naquele instante e local, mesmo sem querer:
“...O corpo que é escravo
vai,
a alma que é livre,
fica “
Era esse o dilema de Nhô Djonzinho um tocador de rabeca
das terras do Norte naquele instante crucial da sua amargu-rada vida. Ao longe, ouvia-se a voz timbrada do chamamento do Toi de Quinha.
Nhô Djon-zi-nho...Nhô Djonzinho...Nhô Djonzinho...
O eco perdia-se nas fragas. Uma terrível luta desenrolava na sua cabeça e na martirizada alma anavalhada pelo Destino cruel... Ficar e enfrentar a fome ou partir com o coração despedaçado de saudades... A Sabina e o Toni, sentados à popa do bote, ainda a cheirar a tinta fresca, esperavam pelo chefe da família, perante os olhares atónitos dos outros contratados, “já fartos dos desaforos do homem velho” no dizer do Lela. Lá em cima, junto ao Farol, Nhô Djonzinho abriu um estojo preto, forrado a veludo encarnado já desbotado pelo uso, e retirou uma rabeca e um esguio arco de fibras brancas de carrapata. Fez-se silêncio no cais. Apenas o marulhar das ondas nas praias e nos rochedos próximos. Do Ildut, fundeado no ancoradouro, com o seu brilhante casco branco pintado de fresco, reflectindo-se na água calma da baía, chegavam vozes muito abafadas. Alguns marinheiros contemplavam a cena. Nhô Djonzinho caminhou até à ponta do cais, mesmo ao lado do Farol. Encostou a rabeca ao queixo para tocar. O arco deslizou suavemente sobre as gastas cordas do fino e frio aço e sons melódicos, melancólicos e pungentes saíram do instrumento musical, brilhando ao sol. “Pareciam gemidos vindos de uma surda revolta interior” no dizer de Toi Cacai impaciente e à proa do bote, aguardando a descida do rabequista das terras do Norte...
Ouviu-se a morna:
“...Hora di bai bô ê triste,
é hora di sofrimento...”
(como é triste a partida)
São gritos da revolta! afirmava, comovidamente, um outro contratado...
Quando Nhô Djonzinho terminou de tocar a singela morna, limpou as lágrimas que caíram para a madeira do instrumento. Depois, fechou a rabeca no estojo preto e desceu para o bote, baloiçando com o seu peso, quando os pés tocaram a borda de madeira carcomida pelo tempo e salitre do mar. Era a hora di bai, a hora da partida, para ele e toda àquela gente... Nos rostos, viam-se as incontidas lágrimas. Até o guarda da Alfândega, um homem de má cara e rosto sempre fechado, que descia para a lancha da Capitania, limpou os olhos com um lenço branco, segurando, a custo, a pasta com toda a papelada necessária ao despacho do navio, dizendo:
Vamos lá, homens! Um dia, se Nossenhor quiser, vocês todos voltarão à nossa terrinha sabe de São Nicolau...
Os remos movimentaram-se rasgando a espuma das águas e atirando alguns salpicos refrescantes para os rostos sombrios dos contratados.
É assim a vida! afirmava o Toi de Quinha, puxando os remos com os seus musculosos braços, preparando-se para atracar o bote ao Ildut.
A curta distância, vinham outras embarcações cheias de gentes. As blusas e os lenços de cores garridas pintalgavam o azul do mar. Os homens agarravam os seus bonés, impedindo que o vento os levasse para longe. O colorido das vestes fazia lembrar um dia da festa de Santo António o Padroeiro da Preguiça com as suas regatas de botes enfeitados com bandeirinhas de papel de seda, festa para a qual vinham muitos forasteiros, emprestando mais vida ao porto. Após a missa, tocava-se a tambor ao desafio, colava-se a Santo António na praia ou no largo fronteiro ao botequim da dona Augusta, já com os corpos aquecidos pelo batuque, sol e grogue. Era habitual, após o almoço, hora em que os vapores do grogue subiam às cabeças das pessoas, haver cenas de pancadarias, motivadas por ciúmes, ajustes de contas antigas, ou apenas vontade de brigar. Toi Quiquinha dizia que” festa sem soco não era festa”! Os feridos seguiam para a Enfermaria na Estância ou para o endireita mais afamado, de nome Nhá Antónha Tuda, mulher que conhecia, como ninguém, todos os ossos do corpo.
Infelizmente, nesse dia, a corrida não era a de Santo António, mas sim, outra mais trágica. O bote onde seguia Nhô Djonzinho tomara a dianteira da regata e foi o primeiro a atracar ao navio, no meio da baía. O velhote foi o último passageiro a trepar pela escadaria de paus e cordas, pendente do casco. Os contratados subiam um a um, enquanto os botes se faziam ao largo, rumo ao cais. No convés, reinava grande azáfama. Nhô Djonzinho nunca tinha visto um navio por dentro. Quando pescava na costa Norte, via-os passar ao largo, rumo a América, mas pareciam muito mais pequenos. A Bandeira Nacional, hasteada à popa, era sacudida pelo vento, num agitar descontrolado, fazendo com que o pano ficasse em tiras, que lhes fizera relembrar a que se hasteava na Escola de Juncalinho, quando foi fechada por falta de alunos mortos pela fome...
O navio, com os contratados a bordo, fez-se ao largo, nesse dia doze de Janeiro, do ano de graça de l950, apanhando vento de feição que fazia com que o seu airoso casco cortasse as águas como uma seta, rumando a ilha de São Vicente. Alguns contratados, ainda assustados com a visão do interior de um navio muitos só conheciam os botes de pesca olhavam para tudo em redor, das grossas cordas à âncora sus-pensa à proa. A garotada divertia-se observando as largas velas bolsadas pelo vento e impelindo o navio, ou as roldanas guinchando sobre as suas cabeças, num gemido semelhante ao piar dos pardais nos coqueiros. Da casa do motor, vinha um barulho abafado. O cheiro a gasóleo fazia marear as pessoas. À ré, numa improvisada cozinha, fazia-se uma cachupa, cujo cheiro chegava ao porão. O Mané Quinhas, um contratado do Caleijão, sentado num barril de água potável, fumava um cigarro de palha de milho e contemplava a Ponta da Vermelharia, engolida pela bruma leitosa da noitinha. O farol do cais já não se via. As primeiras estrelas pintalgavam o céu, nesse dia em que os contratados se viram forçados a abandonar a terra de S. Nicolau onde tinham nascido, crescido e vivido...
Chorar para quê? falava o Mané Quinhas...
Já chorei a morte da minha filha Glória, dos rapazes Lelinho e Beto, todos enterrados na Tabuga. A vida foi sempre uma madrasta para mim...
O Ildut com a sua esguia proa cortava as águas do oceano. O Mané Quinhas foi à popa para daí ver desaparecer a sua ilha de São Nicolau, e não conseguiu suster algumas lágrimas, levadas pelo vento para salgar ainda mais aquele mar salgado.
Nossenhor é Grande e o Mundo é largo...
Depois de uma noite de viagem, o Ildut entrou na baía do Mindelo, em São Vicente. A cidade ainda estava adormecida e o cheiro a carvão queimado e fuel pairava no ar. No porto, viam-se muitos vapores fundeados e algumas lanchas cortando a baía de um lado para outro, cheias de marujos. O Borba o vapor que ia transportar os contratados para São Tomé estava ancorado no meio do porto, ostentando um casco escuro, sombrio, e chaminés vomitando fumo branco do vapor das caldeiras, que, lentamente, subia rumo ao Monte da Cara. A ilha de Santo Antão qual sentinela do Canal via-se no horizonte límpido daquela manhã com o seu perene capacete de nuvens brancas tapando os picos mais altos. Os botes partiam do cais de cimento rumo ao Ildut e, deste, para o Borba. Os catraeiros, em remadas rítmicas, cruzavam o porto por entre os navios e vapores. Nhô Djonzinho e a família foram os primeiros a embarcar no bote do Kodak, em direcção ao vapor.
Baía cheia de tubarões! dizia o Toni para o pai.
Como é que sabes estas coisas?
Foi um marinheiro do Ildut quem me contou. Disse-o, à frente de muita gente. Também contou que, há poucas semanas, apanharam um tubarão dos grandes, lá para os lados da Galé. Abriram-lhe a barriga e sabem o que lá encontraram:
Sei lá, filho...!
Encontraram lá dentro dois pés de galochas de borracha, uma lata de petróleo vazia, pedaços de madeira de um remo e outros objectos e ossos humanos...
Nhô Djonzinho, olhando a superfície serena da baía, ouvira tudo muito calado, sem saber se havia de acreditar ou não. Toni, embevecido com tudo o que via, nem falava. O bote do Kodak onde seguiam passara mesmo rente à popa de um vapor de bandeira estrangeira. Via-se um escuro casco com as chapas de ferro soldadas umas às outras ou presas por rebites cobertos de limos, lapas, cracas e até percebes, como nas rochas da costa Norte. Essa visão levara Nhô Djonzinho a exclamar, lá do fundo da alma:
Parece que estou a bordejar as falésias da minha terra!
Lá longe, do outro lado da baía, ficara o veleiro Ildut já sem gente a bordo e nos preparativos para zarpar para a ilha do Sal, com escala por São Nicolau. Ao longe, um padrão assinalando o local da amaragem do hidroavião de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, a caminho do Atlântico-Sul; perto da Galé, as carcaças dos barcos, afundados durante a guerra.
***
Chegara a hora di bai!
“...Hora di bai
bô ê triste,
ê
hora di sofrimento...”
A PARTIDA DE S. VICENTE
O Borba pôs as máquinas em marcha lenta e toda a estrutura metálica bem como as tábuas dos porões, agora transformados em camaratas, estremeceram, quando as hélices giraram à popa cortando a água. Uma pesada âncora de ferro, ainda com os restos de algas e lodo do fundo da baía, fora erguida com ajuda de possantes motores eléctricos. Os grossos elos da corrente, num tilintin sonoro, foram-se acumulando sobre o castelo da proa, ao pés de Nhô Djonzinho e do Toni, curiosos e observando as manobras dos marinheiros com as mãos protegidas por grossas luvas de couro. Três buzinadelas sonoras fizeram estremecer o casco e os corações daquela gente. Era a cidade do Mindelo que ficava para trás, pintalgada de luzes amareladas e o Farol do Ilhéu dos Pássaros faíscando como sinal de despedida. Das chaminés saíam rolos de fumos que, misturados com o vapor branco das enormes caldeiras da casa das máquinas, subiam juntos em direcção ao céu. O Monte da Cara, sempre carrancudo, contemplava, lá do alto, a partida dos filhos das ilhas, sem os poder socorrer, embora os contratados oriundos de São Vicente estivessem em minoria. O Porto Grande era um ponto de passagem de muitos vapores e o povo não vivia agricultura, actividade levada a cabo no Monte Verde ou Ribeira de Julião por alguns curiosos. Os barcos abasteciam-se de água e de víveres, vindos de São Antão. Vivia-se à volta do movimento do porto. Assim, a fome não afectava tanto a ilha como as outras, até porque os vapores iam deixando alguma comida em terra. A âncora repousava à proa, ainda com os limos e lodos agarrados à sua superfície enferrujada e tomada pelos bichos do mar. Nhô Djonzinho olhava a costa de São Pedro, negra como a noite e, fumava o seu canhoto, conversando com o Toi Cleto:
Agora sim, Toi! Estamos a caminho da Terra Longe de S. Tomé e entregues à bicharada e a Nossenhor...
Não diga isso, Djonzinho! Só Ele sabe da nossa sorte. Querias ficar em São Nicolau, naquele desterro do Norte e esperar lá que a morte te batesse à porta?
Agora era a vez de Nhô Djonzinho falar:
Já espreitaste um mapa que está na sala onde trabalha o comissário ad hoc?
Não...Ainda agorinha chegamos a bordo...
Olha, foi lá que me apercebi que Cabo Verde não está no fim do Mundo como se costuma dizer. Naquele mapa, vi todos os países do Mundo, os mares e os oceanos. Ele mostrou ao Toni, seu filho, o mapa e estavam lá: uns pontinhos na costa da África e mais nada. É ali que fica o arquipélago de Cabo Verde, estás a ver, menino.
O Toni, muito curioso, punha-se na ponta dos pés... O Toi Cleto também viera ver o mapa, sem antes apagar o seu canhoto, quando o Comissário chamou a sua atenção para um letreiro a encarnardo NÃO FUMAR, afixado à entrada.
Afinal, como vocês estão a ver, todas as Terras são o Centro do Mundo, e isso depende do local onde nós nos encontramos assim falava o Comissário de bordo! Aí, sim, é o centro do mundo onde vivemos, no momento...
Nhô Djonzinho e o Toi Cacai não compreenderam o que o Comissário acabara de dizer, mas o Toni, esse rapazito inteligente, sim! Veio para o convés, sentou-se sobre as tábuas do porão e pôs-se a cismar sobre o que ouvira. “Afinal, não havia terras no fim do Mundo nem de ninguém”, coisas que só existiam nas cabeças das pessoas velhas. No mapa da sala do Comissário, as nossas ilhas, uns pontinhos de moscas com todos os nomes, e até a ilha de São Nicolau lá estava. Toni deu pulos de contente. A Sabina, que vira o Toni sentado sobre as tábuas do porão olhando muito pensativo o mar, veio ficar ao seu lado.
Estás com saudades da nossa terrinha, meu filho!
Nhô Djonzinho, coçando a perna doente com a ponta do canivete, com o qual acabara de picar a erva da terra para o canhoto, entrou na conversa:
Quem diria que eu havia de passar aquela linha direita que via, quando, sentado nas fragas do Norte, pescava as moreias! Foi para além dela que o meu compadre sumiu, a caminho da América, para lá ir ganhar a vida. Foi nessa viagem que ele viu as tais sirenas de que sempre fala.
A Sabina, bordando uma toalha, coisa que aprendera quando frequentara o Colégio das Madres no Caleijão, pousou a agulha para lhe responder:
Querias uma sirena, não é! Tens a mim, aqui ao teu lado...
Uma generalizada gargalhada abafara o ruído das caldeiras do vapor. Empurrado pelas potentes máquinas, o barco deslizava pelo oceano abaixo, deixando na sua esteira as ilhas do arquipélago. A noite chegara, misturando no mar os vários tons de amarelo e de laranja. Um húmido cacimbo começara a afectar as pernas de Nhô Djonzinho, pelo que desceu ao porão, agora transformado em camaratas rudimentares e acomodou-se a um canto, numa esteira de palha por cima das rijas tábuas do fundo do barco. À hora do jantar, serviram uma refeição de peixe seco e arroz, distribuídos em terrinas para cinco pessoas. Muitos dos contratados, mesmo com fome na barriga, não conseguiam comer devido ao enjoo e à fraqueza que traziam nos corpos e às tristezas nas almas. Outros, ao invés, comeram até mais não poder mais, “tirar as barrigas da miséria”. No convés, um outro grupo, o do segundo turno, aguardava a vez para a esperada refeição. A noite invadira o mar e as almas daquela gente num manto de infinda tristeza. Nos espíritos, a eterna dúvida! Voltariam ou não a pisar a terra donde sairam? Após o jantar, Nhô Djonzinho foi sentar-se à proa, um local por ele eleito para substituir a sombra da velha e carcomida purgueira do seu quintal, onde dava asas à sua imaginação. Riscou um pau de fósforos de cera e acendeu o canhoto. O vento uivava nos cabos de aço e nas roldanas das baleeiras, baloiçando mesmo por cima da sua cabeça. Da proa, mal iluminada por uma lâmpada suspensa de um cabo de borracha preta, observavam-se os camarotes dos felizes passageiros, com as ventoínhas girando nos tectos. O mar, aos poucos, mais agitado, à medida que o Borba se afastava do arquipélago, rumando o Atlântico-Sul. Uma em cada sete vagas castigava a proa. Nhô Djonzinho, habituado à faina da pesca, não sentia medo. Uma rebentação mais forte apagou-lhe o canhoto, deixando as suas barbas a pingar água. Com um lenço de pano cru, enxugou a face e caminhou até à popa, sem antes espreitar pela bocarra do porão cheio de contratados. Pelo caminho, foi falando com os seus botões:
Sim, de fome, ninguém morre neste barco...e em cabo Verde...
Com cautela e segurando-se ao corrimão para não cair pela borda fora, o ancião foi chaleirar o interior da sala bem iluminada destinada à primeira classe. Naquele agradável espaço, havia muitas mesas forradas com toalhas brancas, brilhantes copos de cristal, facas e garfos em prata e criados negros fardados de branco, transportando travessas com comidas que ele desconhecia, salvo as lagostas de antenas encarnadas viradas para o ar.
Sim, lagostas conheço-as muito bem e abundam na costa Norte da minha ilha. Quando havia festa numa das casas da gente branca da Estância, recebia alguns pedidos de lagostas. Como só eu conhecia os buracos onde elas andavam era só chegar e agarrá-las. Pela madrugada, espreitava a maré e mergulhava. Antes que o Sol nascesse, já tinha uma lata cheia delas. Depois, punha-me a caminho da Estância e batia ao portão da casa: Senhora, já cá estão as suas lagostas. Uma voz vinha do interior do quintal dizendo-me: entra, entra, Nhô Djonzinho...
Bom dia Nhá Mélia...
Bom dia Nhô Djonzinho!
A senhora aqui tem a sua encomenda. Como vê, não faltei com a minha palavra. Nhá Mélia retirava algumas moedas de uma caixinha preta onde guardava o dinheiro e entregava-me algumas, além de me dar umas camisas e calças usadas, ainda em bom estado, peças que o marido já não usava. Eu ainda passava pelo botequim da Passagem e bebia uma groguinha, para mandar pôr na conta da dona Amélia.
Após a recordação das vermelhas lagostas, Nhô Djonzinho parou de conversar e olhou, mais uma vez, para o interior da sala de jantar do barco. Viu muitas senhoras e os senhores bem vestidos, que até pareciam estar numa festa de casamento. O filho Toni, há que tempos, andava à procura do pai. A mãe, muito aflita, já lhe tinha dito:
Queres ver que o teu pai Djonzinho, com a sua mania de cismar e pescar à proa do vapor, já caiu ao mar?
Vira para lá essa boca, mamãe...!
Toni foi à procura do papai e deu com ele com a cara grudada no vidro grosso e riscado da vigia, espreitando para o interior da bem iluminada sala de jantar, só para os passageiros da primeira classe.
Papai, isto parece festa de boda!...
Tiraste-me a palavra da boca, meu filho...
Credo, Nossenhor, Jesus exclamara o Toni!
Fala mais baixinho, Toni!
Deveras, o menino estava embevecido com a farta mesa que via à sua frente, através da vigia de grosso vidro, já muito riscado pelo tempo.
Sabes uma coisa, papai?
Diga lá, meu filho...
Só não entendo a existência de um mundo de Nosse-nhor, assim tão injusto?
Porquê, meu filho!...
Não vês que uns têm tudo e outros nada? Para nós, as costelas de riba das tábuas rijas do fundo de um porão escuro, nojento e a cheirar a bafio. Para eles, os camarotes com colchões de mola, ventoínhas nos tectos, salões iluminados e Bar com tampo de madeira de Guiné, tão polido que nele se vêm as caras das pessoas como num espelho. Será que somos todo filhos do mesmo Nossenhor?
Filho! Tens cada uma nessa cabecinha de menino!...
Nhô Djonzinho, estupefacto com as justas interrogações do filho, não teve resposta para lhe dar. Olhava as luzes de um vapor cruzando o oceano, seguindo um rumo oposto ao do Borba.
Agora, foi a vez do Toni falar ao pai:
Sabes, pai, que aquele paquete vai para a Europa?
Como sabes tu? Agora já és Comandante da Marinha Mercante?
Pela direcção da sua proa, papai! Estudei num mapa do livro de Geografia já todo esfarelado, o que o colega Beto aquele que morreu da biliosa me emprestava, quando, já doente, deixou de frequentar o posto. Nesse compêndio, havia um mapa da Europa com todos os países. Tive pena de perder o meu amigo e colega da escola, o Bétinho como era chamado, por sempre muito agarrado às saias da mamãe.
Sempre a fatal biliosa...Bétinho era o melhor aluno da classe e sabia coisas do mundo. No recreio, dividia com os colegas o milho antor e os bocados da talisca que levava. Um bom colega. Aquele livro de Geografia já estivera nas mãos do Totone, o filho de Nhánha de Guida, aquele rapazinho que adoeceu logo que entrou a bordo deste barco e foi mandado para terra. Eu e o Bétinho iamos guardar pardais e os corvos nas hortas e brincávamos com as fundas feitas de corda de carrapata, para ver quem atirava as lascas de basalto para mais longe e com um sibilar mais forte.
O Toni continuava a falar do colega da primária, agora enterrado no cemitério da ilha
À hora do recreio, formavam-se grupos, à sombra do velho tamarindeiro do pátio da Escola. Os alunos que levavam alguma comida para o lanche, ainda que pouca, repartiam-na com os que nada tinham. Belo exemplo, não achas, papai! Neste nosso mundo devíamos ser assim? As riquezas até dariam para todos. Quando folheava com ele o compêndio de Geografia de páginas amareladas e capa meio comida pelas ratazanas da casa, eu ficava maravilhado com as muitas terras espalhadas por este Mundo do Oriente à Europa, passando pela África, América e Austrália. Sonhava um dia poder pular de riba dos mares e dos oceanos, como fazia com os meus dedos naquele mapa desbotado, pintado de um azul já comido pelo tempo. Pular a linha do horizonte e conhecer outras terras, outras gentes, outros usos e outros costumes, mesmo que fosse parar a uma Terra Longe com gente-gentio que come gente” como dizia Nhô Chic’Ana...
Tens cada uma nessa cabecinha, meu filho!
Sabes, pai, o Bétinho e eu sonhávamos ter uma dessas aventuras para além do mar! Era um sonho que nos acompanhou sempre, mas, paciência, ele morreu e pronto, coitado!
Toni abanou a cabeça para sacudir os pingos do frio cacimbo que escorriam dos seus cabelos pretos. Fixara a sua atenção na sala de jantar. A refeição chegara ao fim e agora serviam as iguarias, uns doces amarelos da cor da gema dos ovos. Um sabor a rebuçados, dos que a Quinha vendia na Passagem, veio-lhe à boca bem como a recordação do colega, repousando agora debaixo da terra, sem poder saborear e lambuzar os dedos nos paus de rebuçados comprados na Quinha da Passagem. Tudo isso não lhe saía da mente e não conseguiu suster as lágrimas, que ficaram a bailar naqueles olhos pretos e brilhantes.
Nhô Djonzinho queria descansar e Toni acompanhou-o ao porão, para depois regressar ao vidro grosso da vigia e daí cobiçar as saborosas iguarias, ainda espalhadas pelas mesas postas com toalhas brancas e sem as poder tocar. Já cansado, foi fazer companhia ao pai, deitado no fundo do porão, sobre uma esteira estendida nas rijas e duras tábuas do fundo daquele buraco escuro e bafiento – o porão do barco. Ainda cismava em voz alta:
Aqueles senhores estavam lá dentro, a beber café no Bar ao fundo da sala no balcão muito comprido, com o tampo em madeira da Guiné como espelho e um rapazinho, mais ou menos da sua idade, trajando calções brancos, camisa bordada a ouro, com o nome no peito, colete azul e lacinho da mesma cor ao pescoço. Brincava com uma colher de prata, tentando esmagar um bolo acastanhado mesmo à sua frente. Sim, não tinha fome, pela certa. Ainda sintia o gosto daquele bolo coberto de uma massa branca e de chocolate castanho, como o que o titio trouxera da América quando, dias-há, nos visitou. O rapazinho não queria comer e nem ligar o que a mãe lhe dizia aos ouvidos...Um dia, papai, eu frequentarei esses lugares e viajaremos num camarote como o deles e não neste imundo porão a caminho das roças de São Tomé. Farei tudo para que os mais desprotegidos da sorte consigam ter uma vida melhor, papai, prometo-te!
Nossenhor te oiça, meu filho!... Mas ainda és tão novo!
Quando Toni acabou de falar o pai já ressonava, virado para o outro lado da esteira, com a cara quase encostada à estrutura metálica fedendo a tinta e suportando as longas tábuas que cobriam o porão. O altifalante de bordo, uma corneta já com várias camadas de tinta branca estalada, transmitia o boletim meteorológico: “tempo quente e seco e nada de chuva para as ilhas de Cabo Verde” era a voz da “Rádio Barlavento”, que ainda se ouvia...
CAPÍTULO 16
O Sol rasgara o horizonte. Era uma bola alaranjada de fogo, maior da que Toni via na costa Norte, quando, de madrugada, ia à pesca da moreia com o pai. O astro fazia brilhar as gotas do orvalho depositadas durante a noite nos cabos de aço das baleeiras, que oscilavam sobre as suas cabeças. Lentamente, os contratados foram abandonando os bafios porões, espreguiçando-se no convés e enchendo os pulmões de ar fresco do mar, em vez dos nauseabundos cheiros a tinta, a alcatrão e a mofo, vindos do interior das improvisadas camaratas. Nhá Bibia, ajustando a saia preta à magra cintura, enquanto tapava os cabelos com um lenço encarnado ostentando o desenho de um pavão azul de rabo ao vento, coisa comprada com o dinheiro do adiantamento da Casa Neves, exclamava:
Mar...Só mar, Nossenhor! Tanta água desaproveitada!
Uma forte aragem parecia querer levar para longe o seu lenço de estimação, e só o não fez porque o Toi de Bia ainda teve tempo de agarrá-lo, quase já a meio caminho do mar. Nhô Djonzinho, agora mais conformado com o destino, pois ele próprio dizia “que o Destino tinha muita força”, foi à proa do vapor tirar a primeira cachimbada do dia. No porão, era expressamente proíbido fumar. De olhos bem abertos, observava a vastidão do oceano, pensando ainda estar sentado à sombra da sua velha purgueira do quintal, com os frutos amarelados bailando sobre a cabeça e vendo as lagartixas estentidas ao sol sobre os muros de pedras soltas da horta. Sentia as folhas amareladas da sua árvore de estimação tombarem uma a uma sobre ele, atapetando o chão de pedra com manchas acastanhadas. Horas a fio, o velhote permanecia naquele posto de vigia, vendo saltar os peixes voadores ou passar algum tubarão faminto, à cata dos restos que o Borba ia lançando pela borda fora. Uma baleia, atirando a água para o ar, foi a maior novidade da manhã. Todos vieram observar de perto esse monstro do mar, que, outrora, era pescado ou caçado nos mares de Cabo Verde. Nhô César, um pescador do Tarrafal, homem batido nessas lidas da pesca e neto de arpoador, foi dando as mais detalhadas explicações sobre a vida desses maiores mamíferos dos mares. Nhô César falava a Nhô Djonzinho e a muitos circunstantes, de ouvidos bem atentos:
Sabem, ainda me recordo das histórias que o meu tio Frank contava sobre a pesca às baleias. Embora sem uma vista, ele não perdera a vontade de viver. Relatava a vida dos marinheiros a bordo dos navios baleeiros, que, no século passado, vinham recrutar pessoal nas ilhas para as duras e perigosas fainas da caça à baleia, para carne e óleos, vendidos a bom preço na América e Europa. Em casa dos meus avós, quando menino, brincava com os arpões usados nessa pesca.Também havia dentes de marfim e as barbas com que se fabricavam os espartilhos para as vestes elegantes das senhoras da época. Ainda guardo uma cesta, com mais de um século de existência, todo feito com osso de baleia, amolecido e trabalhado a canivete, depois de meses sem fim mergulhado em urina, bom solvente do marfim...
Toni, muito impaciente, fazia sinais para que Nhô César contasse mais coisas bonitas sobre a caça ou pesca às baleias. Após retomar fôlego, o narrador continuou:
Quando havia baleia no Tarrafal, ou alguma se encalhava em qualquer ponto da costa, as pessoas corriam para lá à procura da carne e do toucinho. Nos quintais da vila derretiam-se as gorduras e de todas as casas saía cheiro a óleo quente de baleia. Depois da extracção do óleo, a meninada brincava com as gaitas os torresmos das baleias assim chamadas pela semelhança com os foles das gaitas de tocar.
Mas, Nhô César, com era a caça às baleias?
Quando era dado um sinal de baleia à vista, os botes faziam-se ao mar e nem sempre as coisas corriam de feição. Algumas baleias batiam com as caudas na água e as vagas ou as pancadas podiam afundar os botes e os arpoadores num piscar de olho.
Nhô César continuava a narrar, após uma pausa para acender o canhoto:
Quando arpoávamos alguma baleia, o marinheiro de serviço à proa dava-lhe toda a corda possível até ela ficar bastante cansada. Se a corda chegasse ao fim, tinha de ser cortada. De outro modo, o bote seria arrastado com a baleia para as profundezas do mar. O escorregar da corda nas bordas do bote era tal que a madeira virava quente e pegava fogo. Tínhamos de deitar água por cima dela, logo que o fumo começava a sair. O segredo estava em ceder, ceder sempre, enquanto a baleia tivesse força, e começar a recolher a corda, logo que a corda deixasse de estar esticada. Após a captura, rebocava-se a baleia para o barco-mãe, onde era esquartejada para carne e óleo, sendo o mais procurado, o ambar, o que era tirado da cabeça do mamífero com baldes e sem necessidade da fervura. Outras vezes, as baleias, já fartas de viver, davam à costa e a moia de carne vinha mesmo a calhar, para matar a fome a muita gente. As carcaças apodreciam dias depois e um cheiro a peste ficava a pairar no ar. As autoridades mandavam pôr palha e petróleo sobre elas e pegar-lhes fogo, ficando as carcaças a arder dias a fio e o óleo escorrendo para a areia das praias.
CAPÍTULO 17
Nhô Djonzinho chupava no seu canhoto, já apagado por falta da erva, quando chamaram os contratados para a primeira refeição do dia. Um cheiro a café fresco acabado de fazer vi-nha da cozinha. Nas mesas havia canecas de esmalte e pão “aquele pão-nosso-de-cada-dia” que tanta falta fazia nas ilhas. No dia-a-dia, Nhô Djonzinho e alguns contratados tentavam pescar à proa do Borba, recordando-se dos bons momentos que passava sobre os recifes, à espera de alguma moreia pintada ou bodião, para não chegar à casa de mãos a abanar e a família à espera do comer. No horizonte, um vapor despejava fumo para o céu pelos canudos, atraindo a atenção dos pescadores. Nhá Sabina, sentada à borda do porão, fazia uma baínha à saia de rendas, comprada na Casa Neves e falava às amigas:
Sim! Eu quero é desembarcar em São Tomé como gente, de roupagem novinha em folha, a brilhar!
Cosendo, conversava com as colegas que lhe faziam compa-nhia, sentadas sobre as tábuas do porão, apanhando o ar fresco da manhã. A baínha da saia de chita encarnada estava pronto. O vento, soprando dos lados da popa, fazia com que a Sabina agarasse o tecido por entre as pernas, para que não voasse para o mar largo, como ia acontecendo ao lenço de pavão desenhado que lhe tapava os cabelos. A bordo já ninguém falava da fome, que continuava a fustigar Cabo Verde castigando os que não tiveram coragem de deixar as ilhas. A bordo a comida era má: peixe seco de Angola, feijão e fuba alimentação a que não estavam habituados em Cabo Verde
Cachupa com carne ou peixe, sim! dizia Nhá Sabina - ainda com a saia presa por entre os joelhos, desconjurando-se daquele malcriado vento.
A Bibia, que penteava os cabelos à amiga, ouvira falar que em São Tomé caía muita chuva. Tudo era verde, mais verde que as terras do Cachaço nos anos bons. Os inhames, as bananeiras e as mandioqueiras cresciam por todos os lados. No meio do mato abundavam as cobras que matavam com uma só picada. Nhá Sabina, ainda com a blusa de chita por entre as pernas, exclamara, convicta:
Que me interessa morrer de picada de cobra do mato em São Tomé?! Se ficasse em São Nicolau morria de fome...
Mulher! Bô está largôde! (Estás tão desinteressada!)
Largôde, não! Sim, se morresse na minha terra, só ganhava por ficar enterrada no Cemitério da Tabuga, ao lado da minha falecida!
As lágrimas de saudades vieram-lhe aos olhos, o que sempre acontecia quando mencionava a filha, embora dissesse às outras já não ter mais lágrimas para chorar... Nhô Djonzinho, que passava pela bordinha do porão, a caminho do seu local da pescaria, foi metendo uma colherada na conversa de mulheres, coisa que ele gostava de fazer, não obstante a rabujice da Sabina:
Lá isso tens razão, Sabina!...Mas olha que, para mim, a terra não é de ninguém. A nossa terra é o local onde estamos, aquela que a gente escolheu para nela estar. A Terra não é de ninguém! É de todos, independentemente da raça, religião ou cor da pele. Não gosto de ouvir as pessoas falarem da “minha terra”. Terra é de Deus Nossenhor e de todas as Criaturas viventes. Nossa porquê?! A gente não morre e deixa tudo para trás? Será que a levamos connosco? O corpo, esse sim, fica na sua cama eterna a terra...
Nhô Djonzinho falava assim, por ser um poeta, filósofo nato e músico, dotado de uma sensibilidade não comum a todos os mortais... Pediu um c’o licença e dirigiu-se à proa onde deixara a linha de pesca atada a um gancho de ferro. Chegado ao local, reparou que o fio de nylon estava muito esticado.
Querem ver que hoje vou ter peixe fresco para um caldinho malaguetado.
Puxou a linha e, para espanto seu, trazia na ponta do anzol uma garoupa preta das grandes, que ficara a estrebuchar de olhos abertos e vidrados, contorcendo-se sobre as chapas quentes e rebitadas do castelo da proa. O Toni veio a correr, dando pulos de contente. Trepou pelos degraus da escada de acesso à proa, gritando para a mãe:
Mãe, temos peixe! O papai já ganhou uma garoupa... E é das pretas, das grandes, com cerca de cinco quilos!...
A mãe, mais interessada na conversa com as amigas, à bordi-nha do porão, nem sequer dera pelo chamamento do filho, que não parava de pular sobre as chapas de ferro do convés. Nhô Djonzinho, visivelmente satisfeito, passava as mãos pela cabeça já sem cabelos, exclamando:
Se, ao menos, estivesse no meu casebre, no Norte, podia fazer um bom caldinho de peixe malaguetado, mesmo sem a mandioca ou banana verde. Aqui, neste barco, sem uma panela, sem cozinha, sem nada, vou mas é devolver o peixe ao mar. Pode ser que, lá longe, noutra terra, vá matar a fome a
algum vivente de Nossenhor, mais precisado de comida... Agarrou a enorme garoupa preta, que ainda estrebuchava sobre as chapas quentes, com intenção de a devolver ao mar.
CApÍTULO 18
Nesse instante, um dos cozinheiros do Borba, que viera ao convés despejar um balde com sobras, aproximou-se para ver o que se passava no local onde o grupo fazia uma roda. Ouviu a conversa do improvisado pescador sobre o destino a dar ao peixe e falou-lhe:
Bela pescaria, Nhô Djonzinho!
Já se conheciam de bordo, pois o cozinheiro gostava de tocar viola e ele rabeca.
...- Não deite esse belo exemplar para o mar! Por amor de Deus, não faça isso, Nhô Djonzinho...!
Mas o que vou eu fazer com ele aqui neste barco sem lenha e sem fogão, sem panela?
Olha, Nhô Djonzinho?, se achar por bem, posso dar-lhe uma pequena ajuda. Tenho batata inglesa lá em baixo, na cozinha e podemos fazer uma boa caldeirada. Só ponho uma condição: ninguém vai dar à língua, pois, como calculam, é proíbido cozinhar a bordo para estranhos e se o meu chefe sabe, quando o barco chegar de volta ao cais de Alcântara estou na rua!
Está certo! Combinado...Fixe!
Nhô Djonzinho retirou o anzol da bocarra ensanguentada da garoupa inerte, estendida sobre a chapa quente, e, em jeito de continência militar, saudou o cozinheiro de bordo:
Sim, meu almirante...Ordens dadas, ordens cumpridas...
O cozinheiro, nascido em Abrantes, era um africanista dos mais convictos daqueles que só iam à metrópole para matar as saudades, como dizia ”por ter bebido água de coco ao chegar e ficar eternamente preso à magia da África Minha”. A vida tinha decorrido a bordo de muitos barcos que faziam a carreira para África. Fizera tropa em São Vicente (Sâncente, como dizia), nos anos quarenta, no tempo da segunda guerra mundial. Como cozinheiro de profissão, coisa que aprendera na tropa, ganhava o suficiente para manter a família na metrópole e pôr algum de lado,”para a casinha de sonhos”. Compreendia e entendia o desespero que levava aquela boa gente a abandonar a terra sabe de Cabo Verde, com destino às malditas e inóspitas roças de cacau e de café de São Tomé e Príncipe.
Que outras saídas vos restavam? Sabe, Nhô Djonzinho, conheço muito bem o porto do Mindelo, naquele tempo da guerra, cheio de vapores a carregar e a descarregar o carvão de pedra. Depois, veio o fuel, o desenvolvimento de Dakar e Las Palmas e Sâncente foi-se. Sâncente, terra sabe, qui tem mornas e tem coladêras...
O cozinheiro de Abrantes, sempre que falava de Cabo Verde, fazia-o com saudades no coração e água nos olhos. Às vezes, desviava-os para longe, quase que envergonhado, para que o não vissem a chorar. Explicava ao Nhô Djonzinho, dos porquês da sua saudade:
Mesmo passados tantos anos, não consigo esquecer-me daquelas carinhas dos meninos esfomeados, de ranho no nariz, a jogar à bola à entrada do quartel, esperando pelas sobras do rancho, à hora do almoço; nas mãos, traziam pratos de esmalte branco, já estalados e sujos; sentavam-se junto ao muro, debaixo das sombras das acácias e aí comiam a primeira e única refeição do dia.
Toni divertia-se imenso, vendo as gaivotas debicando acrobaticamente os restos das comidas acabados de ser jogados ao mar pelo cozinheiro de Abrantes. Um tubarão-
-martelo espécie muito rara, no dizer de um marinheiro acompanhava o Borba, à espera de uma refeição sem fazer esforço.
Quando a noite já era dona do mar, Nhô Djonzinho foi procurar o cozinheiro. O caldo de peixe fora marcado para as dez da noite, hora em que a cozinha ficaria desocupada e arrumada e os outros cozinheiros já nos seus beliches, para o merecido descanso da noite.
Não se esqueça, Djonzinho, da nossa conversa! Bico caldinho, combinado?!
Esteja descansado! Sou um homem de palavra...
Enquanto cozinhavam a caldeirada bem cheirosa que fazia saltitar cadenciadamente a tampa de uma pesada panela de alumínio, o pescador procurava afinar a sua desafinada rabeca, fruto da humidade do mar e da falta de uso regular. Falavam dos bons bailes de Cabo Verde. Nhô Djonzinho tentava explicar ao cozinheiro que baile sem pancadaria não era baile com história. Não tinha memória.
Mas conta-me lá uma dessas estórias dos bailes feitos em São Nicolau, sua terra natal!
Sim, vou ver se consigo relembrar-me, pois a minha cabeça está muito mareada. Foi num baile em casa do compadre Narciso, no baptizado da filha Nena. No quintal, como de costume, à luz de uma lanterna a petróleo, as mulheres fritavam as moreias e assavam o toucinho de uma baleia morta que dera à costa no dia anterior. O lume fugia por entre as pedras do poial, quando soprava do mar aquele ventinho da noitinha. Eu estava a tocar rabeca num dos cantos, junto à janela. O clarão amarelo do lampião aluminava a barriga da meu instrumento musical. Uma morna esvaía-se por uma janela meio-aberta... Os chevaliers e as damas dançavam agarradinhos aquilo que a gente chama de fazer encosto!...
Claro, claro, Nhô Djonzinho! Não se esqueça que estive em Sâncente, um ror de anos e conheço essas coisas...
Nhô Djonzinho continuava a falar dos bailes nas terras do Norte da ilha de S. Nicolau:
Paramos de tocar; fui meter a rabeca no estojo, tomar um pouco de ar fresco na rua. Comer uma posta de moreia com uma groguinha. Uma pedrada certeira entrou pela janela do Poente e veio estilhaçar o vidro enfarruscado de um candeeiro a petróleo que mal aluminava a sala. Era a vingança de um vidião que não teve a permissão para entrar no baile, após uma discussão com o dono da casa, que, em altos berros, gritava:
”Os vidiões que levem geada até que se órfão”.
O quê, Nhô Djonzinho, traduza-me lá isso para eu entender melhor a história...
Uma interrupção do cozinheiro para acertar o tempero ao caldo de peixe e Nhô Djonzinho acender o seu canhoto...
Você está a baralhar a minha cabeça com o crioulo da ilha de São Nicolau, que conheço mal. Explique-se melhor...
Vidiões são as pessoas não convidadas e que se aproveitam da confusão para ver, entrar e tirar um pé de baile, aproveitando-se da confusão! ”Levar geada até que se órfão”, mal traduzido para português, significa, ficar na rua levando o cacimbo no lombo até ficar inchado! Mas como lhe ia dizendo, a bala de pedra desfez o vidro do candeeiro, que voou em fanicos quentes sobre as damas, chevaliers e criançada.
Mas na sua ilha os bailes terminam, assim, sempre em pancadaria grossa?
Quase todos, se não estou mal lembrado!
Em Sâncente, fui a muitos bailes e nunca havia panca-daria como essa que o meu amigo conta!
Desculpa-me lá, mas São Vicente é outra coisa!...
Gente da cidade, quer você dizer!
Sim, isso mesmo, gente fina, gente que não trabalha a terra, gente civilizada!. Mas com lhe ia contando, para não perder o fio à meada, depois do vidro em fanicos, uma escuridão reinou na sala do casebre, apenas iluminada pela ténue claridade da Lua, entrando pela janela virada para a horta de Nhô Esteves. O fogo só não pegou à palha da casa, porque o dono, nhô Totône, com a sola grossa dos pés, foi apagando a chama que já se alastrava pelo chão encharcado de petróleo derramado pela bala de pedra.
E como terminava a pancadaria, ou desculpa-me lá, o baile?
Terminava com a chegada do cabo-chefe, quando não era ele também parte da “guerra-sem-dono” guerra de cachorros. Sim, ele gostava de jogar a gorita-e-pau a dinheiro, coisa proíbida por lei, como bem sabe, e, às vezes, nem saía da mesa de jogo para cumprir o seu dever de representante da ordem. Outras vezes, a simples presença da farda bastava para meter tudo nos eixos os desordeiros, ameaçando mesmo o dono da casa “de levar o caso ao Regedor”, homem que não se compadecia com as infracções à lei, não autorizando mais bailes na zona por um ror de tempo. Pela casa, ficavam os cacos, as cadeiras sem pernas, os manducos de pau de chaluteira, os lenços de cabeça e de mão, abandonados pelas damas na pressa da fuga.
O caldo de peixe já cheirava. O cozinheiro de Abrantes pôs a mesa mesmo ao lado, com uma toalha de quadrados, pão e um bom vinho, bebida que o despenseiro de bordo reservava para ocasiões especiais. A rabeca ficara afinada e com o tampo cuidadosamente limpo da gordura dos dedos e salitre do mar. O Borba deslizava suavemente pela costa africana abaixo, com a sua alta proa cortando um oceano, iluminado por uma difusa claridade da Lua-nascente. O cozinheiro de Abrantes pousou o tacho de alumínio sobre a mesa e cantarolou uma morna:
Você quer ver que ainda sei papiar o crioulo da sua terra e cantou:
(*)
“....Quem mostrôbe esse caminho longe
Esse caminho pâ São Tomé?
Quem te mostrou esse caminho longe,
Esse caminho para S. Tomé
Quem mostrabo esse caminho longe
Esse caminho pâ São Tomé?
Saudade, saudade,
Saudade dessa minha terra de São Nicolau
Sôdade sodâde
Sôdade desse nha terra de São Nicolau
Sôdade sôdade
...
........
As ondas fustigavam o negro casco do barco. Nhô Djonzinho acariciava o arco de fio de carrapata. Os sons tomaram conta da cozinha, fugindo para a Terra Longe de S. Tomé. No convés, uma fraca lâmpada, suspensa de um cabo de borracha preta, iluminava os grossos rebites de ferro da estrutura do barco. Uma fita de luz inundava o convés escuro, vazio e frio. Comovidamente, o cozinheiro de Abrantes escutou a morna cuja música o amigo lhe dedicara, fazendo compasso com os pés. Lá em baixo, nos porões, os contratados ressonavam, embalados pelo matraquear cadenciado das máquinas do Borba, no Caminho Longe de S. Tomé.
(*) Letra da sentida morna:
Letra de Dante Mariano, já falecido, cantada
pela embaixadora musical de Cabo Verde,
Cesária Évora, que dispensa apresentação....
Toni, todas as noitinhas, à hora do jantar, ia chaleirar a sala, ficando grudado ao vidro da grossa e riscada vigia por onde se via o interior. Através do vidro, contemplava as senhoras bem trajadas e os meninos de camisas brancas bordadas, brincando com as iguarias postas à mesa. Esse ambiente exercia nele uma estranha atracção: as fortes luzes, as ventoínhas girando no tecto como as hélices dos aviões no Campo da Preguiça, os senhores vestindo bons fatos como os que titio trouxera da América, e não como o desajeitado casaco que o pai mandara fazer no Mário alfaiate, antes de embarcar. Na sua cabecinha, desfilavam todas as desigualdades do mundo. Lembrava-se da irmã Nina a que morrera de biliosa e que foi levada para a Tabuga num caixão dos anjos, emprestado pela Casa das Tumbas. Outros seguiam para a última morada em esquifes de boa madeira da Guiné, enfeitados com galões dourados e pegas em metal amarelo, de luxo. O bafo que vinha do seu nariz embaciava o vidro grosso da vigia. Com as suas pequeninas mãos escuras, limpava a superfície das gotículas da água que iam escorrendo pelo caixilho de bronze. Queria ver as terrinas de fina louça branca, com desenhos dourados cheias de boa comida... Numa das travessas vinha uma galinha ou um peru assado, com as patas enfeitadas com papel de prata usado nos maços de cigarros... Nhô Djonzinho passara pelo local, à procura do filho:
Sabes, pai, no que eu estava a pensar, agorinha mesmo?
Diga lá, meu filho!
Aquela galinha, que vês na travessa, deu-me água na boca. Sim, gosto muito de galinha assada, mas lá em casa só havia galinha para caldo quando alguém estava doente. Eu e a Nina chupavamos todos os ossinhos até ficarem branquinhos como os ossos dos cemitérios. Cada um de nós segurava uma ponta da esporinha e puxava-a com força. Com um estalido seco, o osso partia-se em dois e quem ficasse com a porção maior era quem gostava mais um do outro.
Toni continuava a espreitar teimosamente pela vigia de vidro riscado. Chegara a hora da sobremesa. O Nuno, era o nome bordado ao peito, ganhara mais apetite e abandonara um carrinho sobre a toalha branca, de rodas para o ar. Queria brincar com uma enorme fatia de bolo de chocolate.
E eu, menino contratado para as roças de São Tomé sem um bocado de bolo para comer! Na catequese, Nhô Juca ensinara-nos que todos os Homens eram iguais e o Reino do Céu para as criancinhas! Cheguei a acreditar no Nhô Jucas! Agora, sei que tudo era patranha! Nada lhe dizia por ter medo de ir parar nas profundezas de um Inferno cheio de lume de que ele nos falava sempre, como se lá já tivesse andado! Sim, agora, já não nada me mete medo. Onde está esse Nossenhor? Vi a minha família deixar o seco Norte, a caminho de uma Terra Longe para não morrer de fome, e aquele menino, alí, bem sentado à mesa, a brincar com a comida que tanta falta faz a muitas bocas de crianças esfomeadas! Esse Nossenhor, que não vê as desigualdades, é O deles e não o meu! Tenho certeza...
Quando Nhô Djonzinho voltou da popa para fumar o seu canhoto, encontrou o Toni outra vez grudado ao vidro da vigia, hábito dos últimos dias. Uma verdadeira obsessão.
Menino de não-sei-que-diga, já te disse que é má-criação andar a espreitar para dentro das janelas dos outros.
Mas papai também costuma fazê-lo...
Nhô Djonzinho não lhe deu resposta.
De mãos dadas, desceram as escadarias de acesso ao porão, para mais um sono nas esteiras de palha. Os outros contratados já descansavam, embalados pelo trepidar das máquinas do barco. Os seus espíritos, esses sim, passeavam em sonhos por esse mundo fora, com a leveza das gaivotas, acompanhantes do Borba, à cata da comida fácil.
20
Mais três dias de viagem e chegariam à ilha de São Tomé. De vez em quando, o comissário ad hoc descia aos porões “para se inteirar do estado de saúde da sua gente” como dizia, ironicamente. Queria entregar a carga humana em perfeitas condições, para, de imediato, começar a trabalhar nas roças para os patrões. Havia um contrato assinado para se cumprir e ainda mais gente em Cabo Verde à espera de uma oportunidade para embarcar também. Quando havia alguém doente era evacuado para a Enfermaria de bordo, para bem longe dos olhares aflitos dos mais curiosos. O paludismo que traziam nos corpos ganhava forças com o ar do mar e Nhá Zabel, uma contratada da Jalunga, estava bastante doente. Não comia dias-há e a mareação tomara conta do seu corpo, ainda mal recomposto dos estragos causados pela fome que passara antes de embarcar. Toni gostava de espreitar para dentro da Enfermaria. Pelo vidro da vigia, viu o enfermeiro de bordo,”um indivíduo mais escuro que o carvão de pedra” como dizia. Era um bom homem e a todos prestava a assistência possível, embora com ordens expressas para não gastar muitos medicamentos. Obrigava os contratados a engolirem umas pastilhas amargas de quinina, “por causa das febres ruins que iam encontrar em São Tomé à chegada”, alías doença que alguns já traziam entranhada no corpo desde Cabo Verde. Nhô Zê de Candinha um homem dos Carvoeiros de idade avançada, também estava mal. Enjoava muito e não suportava o cheiro a bafio do porão, desfazendo-se em vômitos sonoros, arrancados dos fundos das tripas, encostado ao corrimão da proa. Nem parecia aquele bravo e destemido marinheiro de face queimada pelo sol, enfrentando o mar da Boca do Silvão, no seu bote Deus Nos Guia, contando as ondas para não quebrar a sua “enxada” contra os recifes, quando regressava da faina da pesca, ao cair da tardinha. Agora, lá andava ele ali, amarelado, sonolento, mais para lá... Nhá Zabel não resistiu à doença. Foi levada pelas febres e maleitas que minaram o seu débil corpo. A notícia correra célere pelo barco e os outros internados ficaram deveras assustados. Muitos até reuniram as suas derradeiras forças e pediram ao enfermeiro de bordo para virem apanhar um pouco de ar fresco no convés, receando-se de algum contágio com o ar impestado que vitimara a contratada. O capelão celebrou uma missa de corpo presente no deck, num local abrigado do vento, que, nesse dia, soprava com intensidade. Todos os contratados vieram assistir ao acto religioso e rezaram pela alma da defunta, vinda de tão longe da Jalunga para deixar o seu corpo naquele mar sem fundo, embrulhado num lençol branco e com um lastro pesado, para jamais voltar à superfície. Toi Cacai, que assistira a tudo de longe, pois a morte metia-lhe grande pavor segredava o facto aos ouvidos do amigo Djonzinho:
Assim é a porca da vida! Para que serve esta carcaça a que chamamos de corpo? Diga-me lá, compadre! Sim, uma carcaça como essa apontara para o redemoínho de um embrulho branco a ser puxado para o abismo de um ignoto e profundo oceano... Até vem à minha cabeça o velho Nhô Chic’Ana, aquele homem e poeta de São Nicolau, que queria deixar a ilha nem que fosse num esquife de paus de piteira... Amen!...
Paz e descanso eterno á sua alma!...
Só faltavam dois dias para o barco deitar a âncora na baía de São Tomé. O aspecto geral dos contratados não era muito famoso devido ao enjoo, à má comida e à longa estadia nos porões bafientos, onde os mais mareados só conseguiam ver o azul do céu através das bocarras, quando eram abertas, quando o tempo estava bom, claro estava. Nhô Djonzinho e o Toni gostavam de ficar à proa, apanhando os salpicos do mar ou fazendo apostas para ver quem descobria um vapor no horizonte ou um peixe voador ceifando o ar, de Norte para Sul. Toni era mais prendado que o pai. Na escola onde frequentara o segundo grau da primária não chegara a fazer exame. Foi encerrada por falta de alunos, levados, um a um, para o cemitério da Tabuga. Mesmo assim, durante o pouco tempo em que o professor de posto se manteve no local, aprendera muitas coisas interessantes nos compêndios de História e de Geografia, livros mais do seu agrado, novidades que ia explicando ao pai, apontando para o oceano ou para um mapa na sala do Comissário, quando lá iam.
Sabes, pai, foi neste oceano que, no século XV (1456), os marinheiros portugueses, a bordo das caravelas de madeira e não de ferro como é o Borba, descobriram Cabo Verde, Guiné e outras terras até ao longínquo Timor, na Oceania.
O pai ouvia as explicações do filho, enquanto tamborilava com os dedos calejados sobre o corrimão de madeira polida, como se executasse um compasso de uma morna qualquer. Alguns peixes voadores cortavam o ar descrevendo arcos, para cairem mais além, no meio da branca espuma deixada pelo barco; junto a uma escadaria de acesso ao castelo da proa estavam Nhô Lela e o Chico de Zepa, os dois olhando o infinito. Nhô Lela viera das Queimadas, onde cultivava um pedacito de terra com bananeiras, cana sacarina para trapichar e fazer grogue, e de três em três as-águas uma colheita de mandioca. Com a seca, tudo virara seca-pele. Até a ribeira das Queimadas, outrora correndo para o mar, ficara sem um fio de água. Uma calamidade... Nhô Lela andava magro e muito amarelado pelas febres. Os olhos viam-se encovados e as orelhas a quererem deixar a cabeça onde já só existiam alguns fios de cabelos brancos e empastados. Tossia com frequência uma tosse seca, pois, em tempos idos sofrera do peito e nunca largara os cigarrinhos, que fumava sentado à bordinha do porão em amena cavaqueira. Nhô Filipe, um homem do Norte, que fazia os calabedôches (mantas de tecelagem caseira), falava com saudades dos outros tempos da cultura do algodoeiro, que crescia mesmo em quintais abandonados.
Vocês podem não acreditar, mas eu brincava por entre os pés de algodão floridos de amarelo e que o tempo transformava em alvos flocos de penugens. A pequenada gostava de andar por entre as plantas, sacudindo os ramos brancos só para verem o algodão soltar-se e desaparecer levado pelo vento. O algodão era colhido, seco, ensacado, depois cardado e fiado em novelos, trabalho para as mulheres.
Nhô Filipe era um dos mestres da arte de tecelagem caseira do algodão. Vi-o, por várias vezes, a trabalhar nos quintais da casa de papai velho. Mamãe velha, a Mãe Quinha, pessoa muito calma, deixava os seus netinhos brincarem à vontade com o algodão que, lentamente, ia cardando durante as tardes sem fim. Ainda conservo na mente a sua cândida imagem (quem não tem uma boa recordação dos avós), olhando-nos com amor. Os seus longos cabelos brancos confundiam-se, na minha imaginação de menino, com a alvura do algodão que lhe caía das mãos brancas, de veias azuis e salientes. Era no Quintal-de-Cima que Nhô Filipe montava um rudimentar mas complicado tear manual, cheio de pesos, roldanas, cordas e lançadeiras, abastecidas por novelos de fios de variadas cores, tintos com uma infusão extraída de um líquen tintorial, apanhado nas rochas, de nome urzela. A sua apanha era lucrativa mas muito perigosa, devido às frequentes quedas mortais das escarpadas rochas. Ouvia-se dizer que morreu de “queda da urzela” era queda fatal das rochas. Durante uma semana, ao quintal da casa do papai velho, de nome Pámida, chegavam pessoas interessadas na compra dos calabedôches ou, simplesmente, para ver como eram feitos. Finda a faina, Nhô Filipe recebia a paga do seu trabalho e regressava ao Norte com os panos não vendidos e a comida oferecida pelos compradores. Vovô, um agricultor abastado, enchia-lhe um seirão de géneros para a família e Nhô Filipe partia Lombinho acima, com a satisfação no rosto, assobiando uma morna qualquer.
E agora? Onde estava o mesmo Nhô Filipe?
Era o mesmo que estava sentado à borda do porão do Borba, triste, amargurado e amarelado pelas febres que trazia no corpo, mais amarelo que as flores dos algodoeiros de que falava com saudades. As suas mãos tremiam sobre as fracas pernas que deixavam as calças bambas. Já não se via firme, manobrando as lançadeiras e dando corpo às coloridas mantas de algodão, que nasciam das suas habéis mãos. Sem chuva, os algodoeiros secaram e, sem algodão, não havia trabalho para ele. Embrulhado num pano que tecera anos antes, olhava o infinito com os olhos mais amarelados que as lindas flores dos algodoeiros dos quintais, enquanto pensava no futuro...
Se eu tivesse de escolher um outro título para este romance, seria, pela certa, “O Último Calabedoche” A “Ultima Manta”
Os marinheiros faziam a baldeação da manhã ao barco. Tão distante estava Nhô Filipe que foi preciso bater-lhe nas costas para deixar passar a mangueira de plástico, jorrando a água para o mar. A terra não estava longe; viam-se flutuando algumas folhas de palmeiras, cascas de cocos, ramos de árvores e capim...
CAPÍTULO 21
Linda manhã. Terra da Promissão – exclamava o sacristão!
Terra à vista! gritara Nhô Djonzinho, tomado de súbita e incontida alegria, bem visível naquela face enrugada!
Dos porões bafios, as gentes saíam para o convés esfregando os olhos vermelhos, esticando as pernas e os braços para de-sentorpecerem os doridos músculos, que nunca se conforma-ram com a rigeza das tábuas mal cobertas pelas esteiras de palha. Nhô Djonzinho largara a linha de nylon. Uma pequena boia que segurava o anzol desaparecera na esteira do Borba.
Terra à vista!...terra à vista!...Era o único grito a bordo!
Doce palavra...Só quem já viajou durante dias, semanas e meses sobre os oceanos, sem ver o canudo de um vapor, ou uma nesga de rocha firme, pode dar real valor à visão reconfortante de um chão firme, de terra, não baloiçando sob os nossos pés. Sei, por experiência própria, durante as minhas longas travessias do Atlântico e do Índico, a caminho do longínquo Timor, na Oceania. Uma bola alaranjada de fogo vencera a linha do horizonte, espalhando luz, cor e alegria naquelas almas ansiosas por pisar a desconhecida Terra Longe de S. Tomé única boia de salvação... Ao longe, um pico querendo furar um capacete de nuvens brancas. Era o ponto mais alto da ilha de São Tomé. Mais a Norte, a ilha do Príncipe. O Silva, o cozinheiro de Abrantes, integrado no grupo de curiosos e munido de um mapa que o vento queria levar, ia dando todas as explicações necessárias, como se de verdadeiro mestre de navegação se tratasse ou professor da cadeira de Geografia.
Estão a ver, minha gente? Partimos daqui, destes ponti-nhos, onde está a palavra Cabo Verde, esses dez caganitos de moscas desculpem o meu atrevimento e atravessamos todo esse mar (seguiu a rota com os dedos engordurados e papudos). Hoje, estamos aqui, no meio dessa água toda, com outros dois caganitos à nossa frente: o da ilha de São Tomé e o do Príncipe situados no Golfo da Guiné. Deste lado a costa da África e do outro lado o Brasil, que já foi nosso...
O silêncio era geral. Apenas as maquinarias de bordo fazendo trepidar o pesado casco do Borba. Toni e um grupo de garotos conseguira furar por entre as pernas daquela frenética gente, trepando para cima do corrimão, ficando a olhar a linha pintada a encarnado, dividindo o mapa do cozinheiro em duas metades.
Senhor Silva, esta linha não é o Equador?!
Como sabes, menino mofino!
Estudei na Escola, senhor Silva...Dois hemisférios...
Tens razão! A linha imaginária divide a Terra em dois Mundos! Um, a Norte, rico, poderoso, forte, esbanjador do café, copra, cacau, petróleo, minérios e madeiras boas e um outro, a Sul, onde estamos agora, o mundo pobre, explorado, o fornecedor de quase todas as matérias primas existentes na Terra, ainda por explorar por causas das guerras fomentadas pelos países ricos para poder vender os seus stocks de armamentos mortíferos, morteiros, canhões e fatais minas!. É para esse Mundo rico o do Norte – Europa e América que vocês vão semear, capinar, colhetar, secar o cacau para a Europa comprar, a preço da uva mijona, como soe dizer-se. Já falei o bastante e oxalá algum Pide não me vá prender, quando desembarcar no cais de Alcântara, para as minhas férias na minha terrinha.
Os contratados não compreenderam o alcance das palavras. Toni recordava-se do velho Planisfério desbotado pelo tempo e queimado pelo sol das janelas, pendurado no muro da escola por um fio de barbante já amarelado. Via-se a rota dos nave-gadores quinhentistas, mas nunca conseguira localizar a ilha de São Tomé, pelo simples facto de, no seu lugar, haver um buraco feito pelas traças ou ratos no pano cru que forrava o mapa do ano de 1940. O mar ficara cada vez mais manso, à medida que o Borba se aproximava da ilha, em marcha lenta. O Toni não largava a proa nem por um instante, não obstante os incessantes pedidos dos marinheiros, atarefados e atentos às delicadas operações de entrada no porto.
Sai daí, menino! gritara um deles!
O menino desaparecia por entre os ferros e cordas para apa-recer mais além, espreitando pelo orifício da âncora. A verdejante ilha estava à vista de todos os contratados, es-pantados com tanta beleza. Não havia palavras que traduzissem o que sentiam na alma...
Parece o nosso Monte Gordo, em São Nicolau era a fala de um dos companheiros de Nhô Djonzinho, postado à proa do barco.
Não, as Fajans, quando ainda chovia dizia um outro contratado.
Ribeira das Patas, ou as Maiamas de outrora era a voz timbrada de Nhá Sabina...
Tanta verdura! Nhá mãe! ripostara Nhô Djonzinho, enxugando as lágrimas que lhe vinham aos olhos com facilidade, tentando acender o seu canhoto, para iludir o seu embaraço.
Deus Nossenhor dá nozes a quem não tem dentes! era a opinião de Nhô Chico de Lela, enrolando à mão um cigarrinho de palha de milho. Disseram-me que alguns são-to-
menses são descendentes de escravos de Angola e da Costa de África e não gostam de trabalhar, razão porque nos contrataram para os substituir nas suas tarefas! Ouvi dizer que, em tempos idos, alguns revoltaram-se contra os patrões das roças; foram presos e depois postos em liberdade; a ilha, em si já era uma verdadeira prisão, rodeada de tubarões...
Toni escutava as conversas daquela gente crescida e observa-va as praias de areia branca, os palmares debruçados sobre o mar e a espuma branca demarcando a linha da costa. O Borba, em marcha lenta, entrara na baía de São Tomé. Na ilha não se viam os montes escalvados, nem rochas escarpadas, nem ribeiras de leito seco e pedregoso como em Cabo Verde.
Terra onde Nossenhor passou! era a opinião da maioria dos contratados...Um Éden...
Os altos coqueiros fascinavam o Toni. Mais altos só os do Tanchon uma propriedade de gente branca de São Nicolau com tanques para os meninos aprenderem a nadar. Meninos, filhos dessa gente branca, porque ele, o Toni, ficava a vê-los do caminho do Lombinho-de-Cima, ou ia nadar no tanque do povo, o da Ribeirinha, Vapor, ou Praça dos Cachorros!
Um dia subirei a um desses coqueiros altos de S. Tomé, até ao seu cocuruto. Tirarei os cocos que entender e beberei as suas águas até ficar de barriga a arrebentar exclamara euforicamente o rapazinho...
A pesada âncora do Borba de
sprendera-se lá do alto do casco, caminhando para as profundezas de uma baía de água límpida. Esguichos de branca espuma formaram-se no local onde a grossa corrente violou a água.
Findava uma longa viagem...
Adeus Borba, adeus barco...
EM S. TOMÉ
CAPÍTULO 1
As lanchas com as autoridades sanitárias já estavam a caminho do Borba, cortando a baía com os seus potentes motores a gasolina. A brigada de inspecção sanitária (BIS) entrou a bordo e foi falar ao Comissário ad hoc dos contratados, senhor Arbertino da Silva. Queria saber se havia alguém a bordo, portador de alguma doença que carecesse da quarentena. No convés reinava a maior confusão possível: malas, caixotes, crianças agarradas às saias das mães a chorar, enfim, muitos contratados irmanados por um mesmo desejo e destino o de deixar a maldita tumba quanto antes. Odiavam aqueles porões mal cheirosos, onde passaram vários dias, deitados em esteiras, ouvindo os gemidos dos companheiros mais enjoados. Um colorido folclórico inundara o convés. Havia blusas de todas as cores, calças de caqui e de cotim militar, ainda com a goma da fábrica nos tecidos, tudo comprado com os adiantamentos feitos pela Casa Neves, antes de embarcarem. Os contratados queriam desembarcar naquela terra estranha, como gente, e não como mendigos esfomeados à procura de trabalho para não morrer a fome. Após as formalidades da Capitania, Alfândega e Delegacia de Saúde, as lanchas começaram a receber os contratados, ainda trôpegos da longa viagem. Um a um, foram descendo os degraus da escadaria do barco. Alguns faziam-no ajudados pelos companheiros. Com os motores a roncar, as embarcações rumaram para um cais apinhado de são-tomenses, que não queriam perder uma pitada do inédito e triste espectáculo: ver o desembarque de toda aquela gente, vinda de tão longe, duma outra terra, para trabalhar nas roças de cacau e de café coisa que eles não queriam fazer!
Uma forma de não morrer à fome, nas suas ilhas comentava um deles, ironicamente!
No cais, reinava uma enorme confusão, de gentes e cargas. Um outro são-tomense, que acabara de chegar do interior, pois ainda trazia os pés salpicados de lama da caminhada, apelidado de Matias, conhecedor das histórias da fome e seca em Cabo Verde, comentava com um seu amigo, sentados na escadaria do cais:
Vêm todos de umas ilhas onde a chuva não cai há que tempos. Até dizem que há crianças, com dez anos de idade que nunca viram a chuva...!
Não acredito! respondeu-lhe o amigo, coçando com gozo uma ferida de má carnadura numa das pernas.
Nem a água para beber têm. Para a ilha de São Vicente, a água vai de barco da vizinha ilha de Santo Antão! É como se tivessemos de mandar vir a água de barco do Príncipe para nós bebermos aqui na ilha de São Tomé!
Desculpa-me lá, mas não acredito!Nem água para beber? Não pode ser!
Esse são-tomense ia falando de cor de uma terra que nunca vira, enquanto raspava os dedos dos pés nos rebordos rugosos dos degraus da escada. Tinha ar de bem falante, de quem nunca fazia nada na vida. No cais, outros grupos acotovelavam-se para ver chegar esses caboverdes famintos, olheirentos, de pele terrosa e amarelada pela fome e doenças. O Matias, de sandálias de plástico de Dakar nos pés, continuava a liderar um pequeno amontoado de são-tomenses:
E esses parvos dos caboverdes vêm para cá, de livre vontade, imaginem e para trabalhar! Eu não preciso de lombar no duro nas roças dos patrões brancos para poder sobreviver! Meu pai, esse sim, um angola de gema, veio degredado de Luanda, nos anos quarenta e tais e teve de ficar por cá a lombar no duro, até morrer debaixo de umas sacas de cacau, já com as entranhas roídas pelas febres.
Mas teu pai era político?
Não e sim, já nem sei bem! Não veio da Metrópole, não...
Cometeu algum crime...
Meteu-se na política contra os colonialistas...
Eu também não vou trabalhar nas roças dizia o amigo levar no lombo o chicote dos capatazes e dos patrões e ficar apenas com o dinheiro que sobrar das contas da cantina. Os caboverdes vieram porque não tinham outra saída. Os patrões das roças, que estão neste momento a vadiar em Lisboa que trabalhem, se quiserem! Que venham levar a chuva no lombo, capinar o mato molhado, cheio de cobras venenosas, colher o cacau e o café, apanhar as picadas dos mosquitos de febre. O lucro não é para nós, trabalhadores de São Tomé, mas para eles e para o Governo de lá!
Cuidado com a língua, rapaz? És comunista? Olha que estão na ilha alguns deportados políticos, despachados para cá por falarem mal do Governo de Salazar!
O António de Quinha, ainda mareado sobre o cais, ouvira calado, as conversas dos dois são-tomenses, diga-se de passagem, pouco abonatórias sobre Cabo Verde e seus filhos. O Toni descera para a lancha, juntamente com os pais. Pelo caminho, foi metendo as mãos na límpida e quente água da baía, facto que lhe valeu uma valente repreensão do mestre da embarcação, bem atento ao leme e às manobras de atracação:
Olha lá menino, queres ficar sem as mãos? Não vês que a hélice pode magoar-te e nós, em São Tomé, precisamos de gente capaz, com mãos para a apanha do cacau, do café e cocos! Estás a entender-me bem?
Toni, obedientemente, retirou as mãos da refrescante água da baía de São Tomé, onde se viam algas, peixes e conchas reflectidas no fundo de areia branca, como nunca vira , as de Cabo Verdes eram negras como ele...
CAPÍTULO 2
A última barcaça chegara ao cais. Ao largo, ficara o Borba, aquele barco que os transportara para a Terra Longe, desde Cabo Verde. Os contratados, guiados pelos agentes, que já de manhã andavam no cais à espera deles, estavam a ser contados um a um. Nhô Djonzinho, a Sabina e o Toni pisaram com emoção a terra firme onde iam ficar. Aguardavam a chegada dos seus parcos haveres, dois caixotes vindos noutra barcaça. O tocador de rabeca foi para a ponta do cais, acendeu o canhoto e lançou para o ar algumas argolas de fumo que o vento se encarregou de levar para longe. O ar estava pesado, abafado mesmo. Tempo de trovoadas! A humidade fazia muito mal às pernas doentes de Nhô Djonzinho. As ondas caminhavam com calma até às praias, desfazendo-se sem ruídos por entre os garotos nadando nus, indiferentes à grande invasão da sua terra por aqueles “gentios de outras terras” no dizer de um são-tomense mais atrevido. Nhô Djonzinho limpava a cara com um lenço amarrotado num cais cheio de curiosos de cabeças no ar, querendo ver os contratados acabados de chegar. Nhá Sabina resmungara:
Terra com tanta água e a gente a vir de tão longe, para trabalhar para eles!
Nhô Djonzinho entrou na conversa:
Não trabalham porque a mãe-natureza lhes dá de tudo, sem necessidade de fazer qualquer esforço. Têm milho, mandioca, banana, fruta-pão e um mar cheio de peixe a saltar. Trabalhar para quê, Sabina, diga-me lá?!
Sim, tens razão!
Olha lá, se a nossa terra tivesse tanta comida tu vinhas para cá trabalhar? Nossenhor dá nozes a quem não tem dentes! Paciência, paciência!
Toni continuava extasiado, de olhos nos coqueiros carrega-dos de cocos, baloiçando sobre as praias de areia branca.
Papai, deixas-me ir tirar alguns cocos?
Ainda agorinha mesmo chegaste a esta terra estranha e já queres ir trepar aos coqueiros, que até devem ter dono, Toni! Tenha juízo!
Todos os contratados foram metidos em camiões e transportados ao Hospital, onde ficariam em observação, até seguirem para o interior das roças de cacau. Chegados ao Hospital da cidade, foram postos em filas e observados por um médico goês, que a todos receitava um purgante de óleo de rícino “para a desparasitação total” como se ouvia dizer.
Chegou a vez do Toni, perdido no meio daquela multidão curiosa.
Donde vens, menino!
De Cabo Verde, senhor doutor!
De Cabo Verde sei eu, mas de que ilha?
Da ilha de São Nicolau...
Conheço todas as ilhas, menos essa...
O médico goês sentira pena do rapazinho com a idade do seu filho Filipe, que acabara de entrar para o Liceu. Toni estava espantado com as muitas caixinhas de medicamentos, espalhadas sobre a secretária do médico goês. Homem de idade avançada, tez escura, cabelos pretos e lisos, óculos de aros redondos sobre um nariz adunco, fazia-o lembrar a figura de Gandi, que vira recortada numa revista. O médico retirou o estetoscópio dos ouvidos, pousando o aparelho sobre o tampo da secretária de mogno. Em seguida, falou-lhe:
Sabes uma coisa, meu rapazinho! Tenho pena de te ver, tão novo, com pouco mais de dez anos de idade, e a caminho de uma roça de cacau...
Senhor doutor, não estou só! Vim com os meus pais (apontou a um casal, recebendo os purgantes das mãos do enfermeiro).
Fala-me da tua vida em Cabo Verde! Acabaste a primária? Há fome na tua terra, não é verdade?
Toni contou ao médico, tintin-por-tintin, todos os retalhos da vida da sua família, os suficientes para o médico levar as mãos à cabeça por várias vezes, acariciando o pouco cabelo ainda resistente.
Senhor doutor, raro era o dia em que não iamos fincar uma cruz na cova de um colega de escola. Por fim, a sala ficou vazia, só com as carteiras...
O médico goês mostrou-se muito sensibilizado com o que ouvira da boca daquele rapazinho de olhos vivos.
Vou-te dar uma carta de recomendação para o enfermeiro da roça pessoa minha conhecida bom profissional, e que, pela certa, vai arranjar um trabalho moderado para ti na Enfermaria ou no Posto de Socorros da roça.
Após dois dias no Hospital, os contratados começaram a ser despachados em camiões de carga para as roças que ficavam no interior da ilha, bem no seio das matas. Nhô Djonzinho subiu para um deles, por sinal o mais velho e com as tábuas da caixa de madeira partidas. Durante vários quilómetros, a estrada era de alcatrão. Depois surgiu uma picada de lama com as margens tomadas por densos capinzais e mato viscoso escorrendo humidade. Toni não tirava os olhos das tábuas partidas, vendo a lama a ser amassada pelas pesadas rodas do camião, que iam largando bocados de borracha queimada pelo caminho. Passaram por algumas roças de café e de cacau, locais onde o sol nunca conseguia penetrar. Alguém segredava que estavam na zona das cobras pretas, as que matavam com uma só picada. A estrada de lama dera lugar a um arruamento calcetado, com valetas de pedras, marginadas de plantas com as folhas encarnadas raiadas de um verde muito escuro. As ervas daninhas nasciam por entre as fendas das calçadas e os pardais cantavam nas ramadas das árvores. A água jorrava em cascata, formando regatos. Toni era o único contratado interessado na paisagem e nos pássaros coloridos, saltitando nas ramadas das viçosas árvores de copas escuras.
Até os pardais, em São Tomé, são mais coloridos! afirmava Toni, procurando atrair a atenção do pai, absorto com coisas mais importantes para a sua nova triste vida, naquela terra tão estranha, tão molhada, tão virgem.
Os pardais do Norte são mais cinzentos e tristes – dizia Toni...
À medida que os rodados do camião iam roçando as pedras das calçadas, Toni notava as diferenças entre São Tomé e a ilha de São Nicolau, em Cabo Verde. A viatura parou. Tinham chegado ao destino a Roça do Monte Café. Nhô Djonzinho retirou o canhoto da boca e, do fundo da alma, exclamou:
Saímos de São Vicente, a doze de Janeiro do ano da graça de mil novecentos e cinquenta e três e chegamos a esta roça, no dia vinte e seis do mesmo mês. Nossenhor seja louvado! Amén...
Amen respondera a Sabina, já com os pés fincados no chão enlameado do mato.
O local onde se situava a roça até nem era mau. Ao fundo, a casa grande do gerente. O patrão andava quase sempre em Lisboa, donde dirigia os negócios de cacau, café e madeiras. A cobertura de telha de Marselha, que outrora fora encarnada, via-se esverdeada e invadida por líquenes e fungos e fetos. As paredes pintadas a cor-de-rosa e as janelas de tabuínhas brancas davam uma certa leveza à construção e uma larga varanda circundava o edifício de traça bem colonial. Havia um jardim com dálias e roseiras floridas e, ao centro, um lago com uma cascata artificial, jorrando água sobre tufos de avencas penduradas em cachos nas colunas de pedra forradas com conchas. Alguns patos e cisnes nadavam à vontade no lago, indiferentes aos ruídos dos camiões, passando mesmo ao lado. Numa das clareiras abertas na mata, alinhavam as casas do feitor-geral, que dirigia a parte agrícola e as dos feitores do mato (capatazes), que distribuiam e vigiavam as tarefas dos contratados. Mais além, as camaratas para os contratados solteiros e as senzalas para as famílias constituídas. Do outro lado do terreiro, ficavam as instalações para a secagem do café e do cacau, a cantina de meias-paredes em tábuas toscas pintalgadas pelo bolor cinzento da humidade da roça. Um sino, suspenso de uma corrente de ferro, atado a uma jaqueira, dava o toque para o início do dia de trabalho. Logo pela manhã, quando a névoa ainda cobria as copas das árvores e o cacimbo pingava das suas ramadas, começava o dia. A capinagem do chão debaixo dos cacaueiros, feita com ajuda de uma catana (ferramenta até então desconhecida pelos cabo-verdianos), a principal tarefa do dia, e cada contratado era responsável por ela durante todo o tempo do contrato. Para Nhô Djonzinho, a tarefa de capinar não era fácil, ficando rente ao chão, sujeito às picadas mortais das cobras pretas, dando cabo da sua vergada espinha dorsal e ossos da bacia. Quando o grupo chegava ao fim do talhão, o capim já estava de novo crescido “esse maldito capim que crescia vários centímetros por dia” como afirmava, Nhô Silveira, por entre os dentes amarelados pelo tabaco. Os contratados, destacados para os pontos mais afastados da roça, levantavam-se muito mais cedo sendo o tempo da caminhada, ainda com as estrelas no céu, não contabilizado como tempo efectivo de trabalho. As mulheres transportavam às costas para os terreiros as pesadas sacas de cacau e de café; as crianças cuidavam do gado, das galinhas e dos patos. Ninguém ficava na roça sem nada fazer. Os doentes seguiam para a Enfermaria e os incapacitados trabalhavam na escolha do cacau nos terreiros ou nos armazéns. À tardinha, soava o sinistro sino. Todos regressavam às camaratas ou às senzalas. O rebuliço e o fumo da feitura do jantar misturava-se com o cacimbo, que entrava pelos ossos adentro. Acendiam-se as fogueiras, cantavam-se mornas e contavam-se as estórias às crianças, acabadas as brincadeiras nas ramadas das altas jaqueiras dos quintais, pois elas não podiam aproximar-se dos pés de cacaueiros, para não danificarem os preciosos frutos no dizer do capataz Ramiro o mais severo de todos, e que usava do cinto de couro por “qualquer dá cá aquela palha...”
CAPÍTULO 3
Toni, à chegada, entregou ao destinatário a carta de recomendação, escrita pelo médico goês. O enfermeiro angolano leu com atenção o seu teor pois era muito amigo do doutor Malaquias com quem trabalhara durante vários anos, no Hospital da cidade.
Pois é, caro Toni! Penso que estás com sorte! Não vais guardar gado nenhum, lá no alto, como aconteceu a um conterrâneo teu, com o terceiro ano do liceu, e que se fartou de chorar, dizendo que não andara a queimar as pestanas para vir guardar vacas, cabras e porcos em São Tomé! Mas foi! Que remédio! Para ti, vou arranjar um lugar de ajudante de servente, aqui mesmo, no Posto. Sempre é uma tarefa mais suave do que guardar o gado, no topo daquelas serranias húmidas, frias e sempre tapadas de nevoeiros. Toni simpatizara-se com a figura do enfermeiro angolano, homem muito parecido com o senhor enfermeiro Luís, que tentara, em vão, salvar a sua irmã Nina daquela terrível febre biliosa. No dia seguinte, quando todos os contratados seguiam para o mato, incluindo o pai e a mãe, Toni apresentou-se ao serviço. O enfermeiro explicou-lhe os deveres e pediu-lhe para cuidar da limpeza e arrumação do seu quarto, situado a pouca distância da Enfermaria da roça, “se não se importasse, claro” acrescentara.
Sim, senhor enfermeiro...
Toni, após arrumar o posto, ia fazer o mesmo ao quarto do enfermeiro, um local cheio de bons livros coisas que ele mais amava a seguir ao pai e à mãe. Havia lá uma cama, uma mesa de mogno, uma janela com bolores nos batentes virados para o lado húmido da roça onde o sol nunca entrava. Começou por limpar e arrumar a estante de madeira da Guiné, com livros de História, Geografia, Medicina, Júlio Verne, Jorge Amado, Eça, Ramalho, Camilo e outros de que o tio lhe falava, além de romances de lombadas comidas pelas traças e salpicadas pelo preto da humidade. Um tesouro! Estava ele num Paraíso, pois gostava de ler. Infelizmente, no Norte onde residira, além dos poucos livros escolares, só via as folhas da Revista americana Life, que vinham a embrulhar as encomendas do titio da América. Mesmo essas, não as podia ler, pois estavam escritas numa língua cheia de Y’s e W‘s, letras que não faziam parte do alfabeto que o professor de posto lhes ensinara. Após as limpezas, sobrava-lhe algum tempo para se deleitar com a sua biblioteca privativa, apenas compartilhada com o enfermeiro. Um dos livros o mais danificado de todos atraíra a sua atenção. Tinha a capa amarelada, meio comida pelas traças e falava da vida nas roças de São Tomé, nos anos quarenta. Quis saber como eram as coisas naquela época para as poder comparar com a actualidade. Sentou-se numa cadeira de palhinhas, junto à janela virada para uma enorme jaqueira carregadinha dos gigantes frutos, e começou a lê-lo:
(*) “...Esta gente estranha de Cabo Verde começara a aparecer há relativamente pouco tempo. Vinha em famílias, pai, mãe, filhos, todos juntos...O que era mais espantoso, é que essa gente gabava-se de ter vindo de livre vontade. Na terra deles - diziam orgulhosamente - ninguém os podia amarrar, como animais. E cantavam maravilhas das suas ilhas, terra boa e fértil, - quando chove. Tamaleia não conseguia compreender o motivo porque eles tinham procurado o caminho do mar, no porão dos negros barcos de carga.
- Porque é que vocês vieram - perguntara, curioso?
- É a chuva...
E logo desfilara a tragédia das terras sem chuva sem água. Há cinco anos que não caía uma gota do céu sempre azul e translúcido. As plantações de milho, café, banana, tudo tinha morrido, estiolado pela sede, calcinadas pelo sol em fogo. Por fim, até as fontes secaram e as criaturas tinham principiado a morrer. A sede e a fome tinham-se implantado como em sua casa em todo o arquipélago. Faziam preces a todos os santos do céu, inutilmente. Os auxílios do Governo revelavam-se poucos e insuficientes. Só os que tinham parentes ricos na América conseguiam sobreviver. Quando se falou em São Vicente, nos homens a oferecer contratos para trabalhar na roças de São Tomé, tinha sido um êxodo. Famílias completas tinham descido à cidade, viajando de outras ilhas em canoas, procurando salvação no miraculoso contrato. Os engajadores contavam maravilhas da ilha distante, terra rica de chuvas abundantes. Que mais podiam fazer, senão receber o dinheiro e entrar no barco? Nessas viagens a mor-talidade era enorme. Principalmente as crianças e os velhos morriam, agora que havia água com fartura. E eram jogados ao mar, ao som triste dos violões soluçantes.
Houve um ano, em que a fome fora tão grande, que as pessoas morreram até na Terra da Promissão...”
Toni, muito atento, com a vassoura ao lado, continuava a ler:
Estavam ambulâncias e médicos no cais, para transportar os doentes ao hospital, mas eles já estavam mortos e tudo o que podiam fazer era enterrá-los na terra estranha, negra e humosa, encharcada das chuvas torrenciais,
Oh, pobre gente infeliz, tão humilde e humilhada...
O rapazinho marcou a página com um bocado de uma caixa de xarope para tosse e repôs o livro no buraco da estante de madeira da Guiné, por entre outros mais, enquanto enxugava os olhos com as costas das suas mãos escuras, sem saber se de pena ou de raiva...
Nota:(*) In “AS MULATINHAS”
Suam Marky,
CAPÌTULO 4
Toni queria continuar a ler o livro do enfermeiro, mas os contratados estavam à sua espera para os curativos da manhã, no Posto de Socorros. Os doentes aglomeravam-se no terreiro, mesmo em frente ao barracão, fustigados pelo cacimbo e pela névoa leitosa e fina que furava as copas das altas árvores de sombra para castigar aqueles magros corpos tomados por doenças e cobertos por chagas. Vinham com as suas mantas rotas ainda quentes das camas, aguardando a vez. Alguns exibiam feridas feitas com as perigosas catanas durante a capinagem, picadas infectadas de mosquitos e arranhões dos ramos dos cacaueiros. Os doentes mais graves gemiam nas camas de ferro enferrujado, aguardando a cura, que, muitas vezes, nunca chegaria. Toni admirava a coragem do enfermeiro Luciano (assim se chamava o angolano), em permanecer tantos anos naquela roça.
Quem era Luciano? Natural de Angola, mais precisamente de Benguela, fixara-se em São Tomé, depois de ter feito a tropa como cabo maqueiro em Lobito. Abraçara a profissão com que sonhara desde menino. Na sua terra natal, ganhava o suficiente para viver, mas o desejo de conhecer outras gentes, outros usos e costumes levou-o a rumar até São Tomé, em cinquenta. A situação política em Angola agravava-se e tinha medo de ser preso pela Polícia Política, que vigiava todos angolanos descontentes com o regime colonial, não lhes dando qualqer oportunidade de serem senhores e donos do destino da sua própria terra.
Na roça, gostavam do enfermeiro. Era com mágoa que ele se via constrangido a dar alta aos doentes ainda não curados. O patrão assim ordenava, recomendando-lhe que “a mão-de-obra era escassa e cara. Que o cacau e o café não podiam ficar nos ramos à mercê dos macacos e da chuva. Os medicamentos não abundavam e, mesmo assim, o enfermeiro fazia o que estava ao seu alcance, distribuindo-os, quando possível. O Toni, um rapazinho muito dedicado, curioso e cumpridor dos seus deveres, esforçava-se por aprender todos os ensinamentos do seu mestre: os nomes dos principais medicamentos, como efectuar correctamente os curativos com permanganato de potássio, noções sobre o funcionamento dos principais orgãos do corpo humano e técnicas de aplicação das dolorosas injecções de quinina, ou do gesso nas fracturas não expostas.
Os dias e as semanas e os meses foram passando na calmaria da roça. Nhô Djonzinho, devido à sua idade e fraqueza que trazia entranhada no corpo não pôde ser utilizado na capinagem dos cacaueiros e foi destacado para a apanha dos cocos na planície, juntamente com outros contratados de São Vicente. Um deles, o Celestino, habituado à vidinha de contrabando na baía do Mindelo e não no uso da catana, ferramente que até então desconhecia. Asim opinava:
Que maldade fiz eu à Nossa Senhora da Luz (a padroeira de São Vicente) para me castigar desta maneira! Mais valia eu ter ficado semeado na Chã do Cemitério, como muitos... O Celestino aprendera a afiar a sua catana com um angola, utilizando uma pedra do mar. Debaixo da sua calma, o homem, que manejou remos na baía do Porto Grande, via-se em dificuldades para capinar um simples tufo de ervas daninhas, bem fincado naquele chão enlameado das roças do cacau. Na verdade, os contratados de São Vicente eram os mais preguiçosos. Um outro o Lela vivia da pesca e do arriscado negócio de contrabando do grogue no Canal da ilha de Santo Antão. Estivera preso e vira a baía do alto do Fortim D’El-Rei, por entre as grossas grades de ferro enferrujado. Lela era um campeão da preguiça. Enquanto fingia que cortava o capim (só aprendera a manejar os remos, fugindo dos zelosos guardas da capitania) e de olhos postos no capataz Moreno, no momento a conversar com a trabalhadora Bibia, uma angola bonita e muito rebolona, foi contando alguns episódios da sua vida anterior, coisas passadas no meio da baía do Mindelo, na ilha de S. Vicente, naquele medonho Mar de Canal, que virava brabo sem aviso prévio.
Conta-nos aquela estória do contrabando do grogue, e o guarda Lela foi o pedido feito pelo Chico, que ia mais adiantado na capinagem do seu talhão de um capim verde viçoso e farto.
Sim! Vou contar-vos uma das minhas...
O capataz Moreno, de farda de caqui, deixou a Bibia sózinha e veio ouvir a conversa. Bateu com o chicotinho de couro nas pernas das suas calças bambas e falou ao grupinho que, pelos vistos, estava muito divertido.
Então?! O patrão está a pagar a vocês, seus malandros, para trabalhar ou para andar nesse falatório? Vamos mas é acabar este talhão ainda de manhã, seus caboverdes preguiçosos duma figa – raça de merda...
Ouviu-se o bater seco do chicote de couro nas pernas bambas das calças de trabalho, já manchadas de muitas lavagens. O capataz afastou-se do local, sem antes olhar os trabalhadores, em jeito de reprovação e aviso.
Nhô Lela continuou a conversa:
Como vos ia contando, antes daquele “mondrongo de merda falar” e retomando a minha estória, dado que a minha cabeça disse-me para retirar o chicote das mãos do capataz Moreno e lombar-lhe com ele. Poie é! O meu bote Sol-à-Vista foi receber umas latas de grogue, que seriam desembarcadas num rochedo da costa de São Pedro, em São Vicente. O local era bom e bem resguardado dos olhares atentos dos guardas da Alfândega, conhecedores das maroscas dos contrabandistas, até porque alguns tinham essa vida, antes de entrar para o Estado...
Nhô Celestino ouvira de novo o bater do chicote nas calças do capataz Moreno e parou. Limpou o suor do rosto (do trabalho não era, pela certa) e recomeçou a capinar com redobrada gana, facto que deixou o capataz Moreno de boca caída.
Eu disse que o talhão era para ficar pronto esta manhã e não agora e já, senhor Celestino! Você nem parece aquela gente preguiçosa de São Vicente!...
O capataz, satisfeito, foi vigiar outro grupo de contratados que podava os ramos velhos e doentes “para não pegar a doença aos outros cacaueiros”.
Continua lá, Nhô Lela! convidaram os colegas...
Sim, como vos ia contando, a noite estava escura de breu e o mar muito brabo. Até parecia querer levar-me para o Inferno, juntamente com o meu bote. As correntes puxavam com força para o largo e a muito custo conseguia mantê-lo num rumo certo. A água saltava à proa e punha a boiar as latas vazias que tiveram azeitonas pretas, agora usadas para baldear o bote. Aproveitando-me da sombra do Ilhéu dos Pássaros, abeirei-me do fulucho Santa Maria, que entrava na baía. Lá da proa, um olho-de-boi, dos grandes, daqueles de cinco pilhas, deu o sinal de que tudo estava OK. Aproximei-me, com a devida cautela.
Outra pausa para Nhô Lela fumar um cigarrinho enrolado com uma folha de papel de mortalha. Os colegas já tinham capinado os respectivos talhões e foram ajudar o contador de estórias, que nada fizera desde que o capataz Moreno se ausentara do local.
Em que ponto ia eu?
Nhô Lela ia a caminho da terra, já com as latas de grogue a bordo do bote...
Sim, sim! Já me lembro. Quando pus os pés na rocha firme, amarrei o bote a uma saliência e ia acender um cigarrinho e foi então que dei de caras com um guarda, empoleirado no alto de um rochedo da negra costa. Num dizendo-fazendo, deu-me a voz de prisão! Ainda oiço o barulho das solas das suas pesadas botas raspando as fragas, fazendo rolar alguns calhaus pequenos para cima deste pobre
diabo.
Você é Nhô Lela! Grande Lela, o maior contrabandista da baía e arredores! Estás preso, em nome da Lei e da Grei...
Acreditem, meus senhores, que fiquei deveras espan-tado! Como é que esse gajo obteve as informações do desembarque, coisa preparada em absoluto segredo?!
Apanhei-te, Lela! Desta vez estás nas minhas mãos!
Ainda tentei empurrar o meu bote para o mar largo, mas o guarda levou as mãos ao Black Jack (um pistolão dos diabos, calibre trinta e oito) preso à cintura, ameaçando-me com aquele cano de boca preta. Tive cagaço! Quem me traíra? Era a questão que verrumava o meu miolo! Seria o Toi Pedro? O Mocinho a quem não emprestara o bote para uma abordagem de contrabando?
Entretanto, o capataz Moreno regressara ao local. De longe, vira pouco capim murcho amontoado no chão, junto dos contratados. Encostou-se a um pé de cacaueiro com muitas folhas amareladas pela doença e aí ficou prantado, vigiando de perto os contratados, lombando no duro naquela terra de massa-pés. Nhô Lela, moço da ponta-da-praia, com muita prenda na cabeça, desatou a cortar o resto do capim do seu talhão. O capataz apagou a ponta do cigarro com as solas das suas pesadas botas e foi repreender uma contratada, que pousara a saca de cacau no chão para fazer as suas necessidades fisiológicas, no meio do mato.
Nhô Lela, vamos ao resto da estória...!
Onde ia eu?
Nhô Lela acabara de ouvir a ordem de prisão, em nome da Lei e da Grei...
Senhor guarda, só trago no meu bote algumas latas com mel de cana sacarina! respondi-lhe! Que eu saiba, mel ainda não é coisa de contrabando, não é verdade?
Sabe uma coisa, Lela? Você tem piada! Eu ando nesta vida de guarda, já lá vão muitos anos, mais precisando, trinta e quatro, e jurei à minha Josefina que não ia para a reforma sem deitar a unha a um desses grandes malandros contrabandistas da baía! E foi você, o peixe graúdo, a cair nas minhas mãos, a sair-me na rifa, meu caro!
Senhor guarda não acredita em mim?
Não, Nhô Lela!
Então, salta para o bote e faça inspecção às latas!
Grogue, Lela, groguinha de Santo Antão, acabadinha de chegar!
O guarda acabou por saltar para o bote, após a minha insistência..
Destapa lá! Pode destapar as latas todas. É só tirar as rolhas, que até são de corda de bananeira disse-lhe...
O guarda, com a ponta de um canivete, levantou uma das tampas de corda que vedava a boca de uma das latas de vinte litros e, com o indicador da mão direita, violou-a, ficando com os dedos a pingar o viscoso melaço, que lambeu para não ter dúvidas. Sim, tens razão! É mel e deste ano! Puro, puríssimo da Silva e da Ribeira Grande! O guarda, já mais calmo, sentou-se à bordinha do bote, vendo a batalha perdida! Ia para a reforma sem poder deitar a unha a um contrabandista de peso. Retirou o boné da cabeça, coçou os poucos cabelos brancos e limpou os salpicos da água do mar que lhe escorriam pela face, com uma barba de muitos dias. Depois exclamou:
Vou ter mesmo de soltar esse gajo...!
Ele levantou-se, ajeitou a pesada pistola ao cinturão da tropa, ficando com cara de quem fora vencido mas não convencido. Em voz alta, foi cismando a todo o vapor:
Desembarcar mel, de noite, aqui, neste local, numa costa rochososa e às escondidas? Não! Este feijão tem toucinho! Vou mesmo fazer um furo no fundo das latas e ver se, na verdade, sai mel!
Assim fez, para desgraça minha! Com a ponta do canivete furou a fina folha de Flandres das latas e o grogue ( meus caros amigos, grogue do bom) jorrou em cascata para o fundo do bote. Senhor guarda, pára aí! Tapa, tapa a lata mesmo com o dedo. Vamos fazer um trato! Dividimos as latas: três para cada um. São só seis...
O guarda, embora passando mal com a mulher e uma ninhada de filhos lá para os lados da Ribeira Bota, ainda quis aceitar a tentadora oferta, mas, no último instante, endireitou o boné na cabeça, ajeitou o Black Jack no cinturão da tropa e falou-me:
Você julga que não tenho brio nesta farda que envergo e com muita honra! Nunca, nunca, jamais! Lei-é-Lei.
Fez-se silêncio na roça. Os pássaros cantavam nas ramadas das árvores e as cigarras cortavam o ar com os seus estridentes bater das asas.
O narrador parou de falar.
E depois...?
Prefiro ficar por aqui...
Não! gritaram em coro.
Uma voz mais grossa destacara-se do grupo.
Vamos lá, Nhô Lela!
Bem! Vou contar o resto. Eu e o guarda ficamos a dis-cutir o assunto. Eu pensava ser capaz de o enganar, mas não! A Lua nascera redonda, lá para os lados do Ilhéu e o guarda a pensar na tentadora proposta. Como não decidia, dei-lhe com um remo na cabeça e ele caiu ao mar que o arrastou até à praia, onde ficou estendido com a farda de cotim militar a ser lambida pelas ondas e pela areia negra. Tempos depois, fui apanhado. O senhor doutor Juíz castigou-me com dez anos mais um dia de prisão, no Fortim D’El-Rei, donde via os vapores entrando e saindo da baía. Quando largava a prisão era só para carregar a água salgada em selhas furadas, do mar lá para cima. Deixei a cadeia. Não havia trabalho no porto, nem barcos ou carvão por descarregar. O contrabando do grogue acabara na baía. Toda a gente só queria beber whisky o grogue da estranja. Coisas da vida! Foi assim que dei o meu nome para esta maldita roça. Eu e mais alguns que andam por aí a capinar as matas de cacau e de café das roças de S.Tomé.
.O capataz deu mais um giro, fiscalizando o trabalho distribuído ao grupo para o dia. Soara o toque para a largada. As catanas foram recolhidas. Mais um dia na roça...Era hora de jantar, descansar e contar histórias à sombra das jaqueiras ou a um canto do terreiro cimentado, longe das cobras pretas, ouvindo os grilos batucando nos buracos dos muros.
CAPÍTULO 5
Nhá Filipa, uma contratada do Morro, fora picada por uma cobra preta. O Toni, vindo dos lados do posto de socorros, ainda com uma seringa nas mãos, dera a notícia. Soubera quando ia entrar de serviço, após o almoço. Outras pessoas, aglomeradas no exterior, queriam ver a vítima. O capataz, que acompanhara a sinistrada desde o local da mata onde fora picada, dava rigorosas ordens ao enfermeiro, no sentido de ninguém “mas ninguém” permanecer na Enfermaria, além dos internados. Desceu a escadaria, gritando:
Vamos ao trabalho! Todos aos vossos postos... O cacau não pode ficar pendurado nos ramos à espera dos macacos...
No falar do Toni e segundo ouvira, a cobra preta era das mais perigosas. Tinha quase um metro e fora morta à catanada pelo Nené, um miúdo que guardava gado, o tal habilitado com o terceiro ano, feito no liceu de São Vicente. Esse Nené contou-lhe que o capataz estava mais interessado na pele da cobra, falando com insistência:
Cuidado! Não dêm cabo dela, seus malandros! É que eu colecciono peles das espécies de cobras apanhadas na Roça.
Manuel de Bia acrescentaria: depois de secas, as peles vão para Lisboa, quando houver portador de confiança, para sapatos e carteiras das senhoras...
No posto, a sinistrada contorcia-se de dores, paralizada do lado da perna mordida. O enfermeiro ministrara-lhe um resto de um soro anti-ofídeo, já fora do prazo havia dois anos, cujo frasco ficara por esquecimento a um canto do armário balorento. O gerente da roça recomendara “máxima economia no uso dos medicamentos, cujo stock estava por baixo como sempre e só seria reposto quando chegasse o barco da metrópole, daí a meses, para carregar cacau”. Nhá Filipa ficou internada na Enfermaria da roça, durante dois dias. Toni visitava-a, diariamente. O veneno do ofídeo paralizara-lhe a perna e não havia outra solução que transportá-la para o Hospital da cidade. O antídoto injectado não teve forças para neutralizar o terrível e mortal veneno da cobra preta. Uma carrinha, servindo de ambulância nas emergências, pôs-se a caminho da cidade, seguindo aos solavancos por uma picada no meio do capim alto e um roncar do motor que fazia fugir para a mata os animais mais assustadiços. Toni acompanhara a doente. Quando chegaram à cidade, Nhá Filipa já respirava com dificuldade. Ao retirarem-na da maca, já ia sem cadáver.
Paz à sua alma! exclamara o médico goês, pondo as mãos sobre os ombros do Toni, indicando-lhe o caminho do seu consultório. Toni foi atrás dele.
Então deste a carta ao enfermeiro da roça?
Sim, senhor doutor, e já estou a praticar no Posto de Socorros e ando satisfeito. Até acompanho doentes, ou queria dizer mortos...
Olha, meu bom rapaz, deves continuar a estudar, como o meu filho, muito sensibilizado, quando, à mesa do jantar, lhe contei a tua história. Antes de seguir para a roça, vou ver se te arranjo alguns livros de estudo já usados, canetas, réguas, lápis e um estojo de desenho, coisas que ele já não usa e estão guardadas numa gaveta da sua escrevaninha de mogno.
Obrigada, senhor doutor!
***
Toni regressara à roça, satisfeito e com um embrulho de papel pardo cheio de artigos escolares debaixo dos braços, um sonho de infância. Sentia no interior da pasta de cartão que o médico lhe dera, o bater seco dos lápis e o cheiro a borracha nova, sonhos de um menino...
Na roça, o papai do Toni estava cada vez mais fraco. Agora andava a descascar cocos na planície, no meio dos densos matagais que vinham até à costa. Alguns contratados, os mais novos, de cordas à cintura e catanas nas mãos, trepavam pelos troncos lisos dos coqueiros até atingirem os cachos de frutos, baloiçando ao vento nas alturas. Toni resolvera subir com os rapazes. Trazia na cabeça a velha ideia de ir ver a ilha lá do cocuruto dos coqueiros. Muniu-se de uma corda e catana e trepou tronco acima. Lá de cima, olhava cá para baixo onde alguns trabalhadores aguardavam os cachos de cocos.
Tudo parece pequeno dizia Toni. Viam-se a linha do horizonte, as praias de areia branca, o mar infinito e o céu azul. Com uma catanada certeira fez desabar alguns cachos de cocos, que tombaram para o solo molhado com um baque surdo. Cá em baixo, um outro grupo de trabalhadores, onde o pai se incluía, descascava os cocos e amontoava os miolos brancos para a secagem em estufas ou nos terreiros. Era a tão falada copra que a ilha exportava, juntamente com o café e o cacau. Essa copra representava uma valiosa matéria prima para extracção de óleo finos, utilizados na indústria de sabonetes nas fábricas da Europa. Para o ancião, a apanha dos cocos era uma tarefa menos penosa que o capinar na mata, de joelhos num chão enlameado e sujeito a ser picado pelas cobras pretas. Nhô Lela, muito intrigado, indagava-se dos motivos pelos quais os são-tomenses não gostavam de trabalhar nas roças! Também soube que, em tempos idos, revoltaram-se contra os patrões. Agora, eram estes que não queriam vê-los nas suas roças. Foi o que ouvira da boca de alguns contratados, há mais tempo naquela roça. Nhô Cipriano, que acabara de chegar das estufas de secagem do cacau, entrara na conversa para acrescentar:
Os donos das roças também não gostam dos contratados, nossos patrícios, os da ilha de São Tiago. Conta-se que um deles, vindo de Santa Catarina, matou um capataz, em tempos idos.
E sabem porquê?
Conta lá, Nhô Cipriano!
O rapaz de São Tiago vinha por um carreiro da roça com uma saca de cacau às costas, na direitura do terreiro Norte. O dia de trabalho chegara ao fim e pelo caminho encontrara-se, casualmente, com a filha do patrão, passeando a cavalo pela fresquinha da tarde. O rapaz teve a ousadia de pôr a saca de cacau no chão e perguntar-lhe pelas horas.
Mas, como...?
Só perguntou-lhe pelas horas?
Não fez e nem tinha a menor intenção de fazer mal à filha do patrão. Era um bom rapaz! Um capataz, que vinha a passar, viu o contratado a conversar com a rapariga e não gostou. Chamou-o para debaixo de um cacaueiro e, sem mais nem menos, desatou a chicoteá-lo. Até as folhas das árvores caíam, quando o chicote acertava mais acima, nas ramadas.
E depois?
Depois? Como o badio da ilha de S. Tiago não é para desaforos, pegou da catana e, sem querer, cortou o pescoço ao capataz!
Bem feito, bem feito! Bem cortado! responderam os colegas, em coro.
Findo o dia de trabalho a lombar no duro, os contratados regressavam às senzalas, indo deixar nos terreiros as sacas que traziam às costas, desde as matas. Havia angolas, caboverdes e moçambiques, mas, de uma forma geral, não se misturavam. Cada grupo conservava os usos e costumes das suas terras. Era essa a principal diferença. À volta das fogueiras, ardendo mal devido à humidade entranhada nas lenhas, Nhô Djonzinho reunia-se com a família e os amigos. Tocavam e cantavam mornas e coladeiras. Procurava o músico, nas cordas enferrujadas da sua rabeca, um lenitivo para poder enfrentar a dura vida do mato: cumprir o seu contrato e regressar aos campos do Norte com vida e saúde e algum dinheiro para reconstruir a sua casinha de sonhos. Gostaria de ficar a repousar debaixo da velha purgueira do quintal, promessa feita à árvore, à partida. Agora, sentia-se mais desiludido com a vida e com a terra longe de São Tomé. Assinara um papel sem saber ler o que nele vinha escrito. Dos seiscentos escudos mensais, só recebia a metade, ficando a outra parte para a cantina e para depositar no Banco, se sobrasse algum! Não tinha direito a transporte, quando o local de trabalho ficava distante da roça e nada podia fazer. Se levantasse as mãos era levado pelas autoridades para fora da roça. A Pide tinha a sua gente espalhada por todos os lados, vigiando os trabalhadores, principalmente os caboverdes, que, no dizer deles,”eram muito espertos e alguns até tinham liceu”. O recolher soava às nove da noite. Se alguém precisasse de ir à cidade, levava uma guia válida por oito horas e era obrigado a apresentá-la às autoridades administrativas ou policiais. Muitas coisas com que ele nunca sonhara, quando pôs a sua firma naquele maldito papel, na Casa Neves. Nada havia a fazer agora, senão cumprir da melhor forma o contrato por ele firmado... A luz amarelada das fogueiras, bem atiçadas pela brisa vinda da costa, iluminava os rostos cansados daquela gente, sentada em círculo, contando histórias das suas terras. Nhá Candinha, da Estância-de-Brás, Nhô Pedro de Bia, do Juncalinho, o Julinho de Nhá Zepa do Caleijão e o Zé da Luz, da Ladeira, entre muitos, olhavam uns para os outros, mitigando a dor com as cantigas. Um violão e um cavaquinho vieram juntar-se à rabeca de Nhô Djonzinho, que, até então, tocava a solo. Não muito longe, nas senzalas, outras fogueiras ardiam iluminando os rostos dos angolas e dos moçambiques, extasiados com as suas danças e os cantares tribais. No silêncio da mata, a morna tinha mais sentimento. Alguém cantava baixinho, por entre as ramadas dos cacaueiros carregados de frutos amarelados, prontos a serem colhidos.
“Sôdade, sôdade,
de Nhá terra de
Sanicolau...”
Quando a morna chegava ao fim, Toni descia das ramadas dos cacaueiros, local donde assistia às tocatinas. Até os angolas, às vezes, paravam para ouvir a música, mesmo sem entenderem o sentido das suas letras crioulas. Algumas lágrimas de saudades viam-se nos olhos dos presentes, iluminados pela moribunda chama saída das cinzas esbranquiçadas dos toros ardendo até ao fim. Nas almas ficava a palavra mágica a saudade de nhá terra...O lume extinguia-se, lentamente. A escuridão ficava senhora e dona daquela densa e opressiva mata de cacau e café em s. Tomé.
De Cabo Verde não chegavam boas notícias. Até dizia-se que um outro barco, com mais um carregamento de contratados, vinha a caminho. O Zé da Luz recebera uma carta da mãe e foi lê-la, à luz de uma lamparina fumegante, no interior da sua senzala, com o ar impregnado pelo cheiro a petróleo mal queimado. Embrulhado numa manta, respondeu à carta da mãe, à luz da mesma lamparina a petróleo, feita por ele com retalhos de folhas de Flandres de uma lata de petróleo:
Querida mamãe:
Desejo que esta te vá encontrar de boa e perfeita saúde, na companhia das pessoas da Ladeira para quem envio mantenhas. Chegamos a São Tomé, já lá vão mais de dois longos meses, depois de muito tempo passado nos porões mal cheirosos e bafios daquele maldito barco. Estou a trabalhar numa roça de café e de cacau, conforme o contrato assinado na Casa Neves. O cacau é um fruto que vocês aí não conhecem. Parece um coco pequeno, pendurado aos ramos dos cacaueiros. Depois de partido, tem no miolo alguns caroços brancos, grudados a um melado peganhento, que custa sair das mãos e solas dos pés. Os grãos, depois de colhidos, ficam a secar nos terreiros ou estufas para depois serem ensacados e mandados para a Europa nos porões doutros vapores. Sabes, mãe, quando uma pessoa come um quadrado de chocolate (dos que os americanos trazem quando vêm visitar as famílias) e sente na boca aquele sabor docinho, nem imagina, mamãe, as canseiras, os suores e as lágrimas dos contratados que trabalharam de sol-a-sol, por causa desse maldito fruto dos cacaueiros que os outros transformam em chocolates... Os donos das roças, esses sim, levam uma boa vida na cidade ou em Lisboa. Quando aparecem nas roças, logo ficam fartos do calor e das picadelas dos mosquitos. Depressa, regressam à cidade. Nós, os contratados, trabalhamos no duro, de madrugada à noitinha, no meio de insectos e de um capim mais alto que eu. Se tiver o azar de pisar uma dessas cobras pretas, lá se vai a vida. Foi o que aconteceu a uma contratada, nossa patrícia, ainda há poucos dias. A casa do administrador ou do gerente, já nem sei muito bem, é grande, com varanda de cimento em volta, e tabuínhas de madeira envernizada nas janelas. À noite, está tão bem iluminada que parece um vapor no alto mar. Agorinha mesmo, à hora em que escrevo estas duas linhas, à luz de uma lamparina, vejo a casa do patrão toda iluminada e com muita gente branca nas varandas. Parece que a filha bonitona hoje faz quinze anos. Os criados estão fardados de branco e a servir bebidas aos convidados. Estou a vê-los, perfeitamente, daqui da minha senzala. Bem! Como estou com sono e amanhã há muito capim para cortar, fico por aqui. Escreva-me sempre que possível, mesmo pelas mãos de uma outra pessoa, pois não sabes fazer um risco num papel. Num outro dia, darei mais notícias.
José da Luz
O filho que te adora,
Roça do Monte Café, 14 de Fevereiro de l953-
CAPÍTULO 6
Chegara o dia para o recebimento dos salários do mês de Fevereiro. O pagamento iria ter lugar no escritório do guarda-livros, ao lado da cantina, pelo senhor Zacarias Silva (Zeca, como era conhecido). Um a um, os contratados foram sendo chamados:
António Silva!
João Pereira dos Santos!
Cleto de Almeida...
Os trabalhadores subiam os degraus da podre madeira das escadas carcomidas pela humidade e bolores cinzentos, fazendo ranger as tábuas tomadas de fungos nascidos nas suas fendas. O guarda-livros, de óculos sobre o nariz adunco, em frente a um livro de lombada preta, conferia os nomes e pagava-lhes o que sobrava, após umas complicadas contas que só ele entendia! Chegara a vez de Nhô Djonzinho, até então sentado num dos degraus da escadaria, acompanhado do filho Toni. O escritório da roça era mais acanhado que o de Nhô Jaime, onde, meses antes, assinara aquele maldito contrato. O contabilista Zeca, esse sim, parecia uma cópia do retrato de Nhô Jaime, embora sem a sua finesse. Estava carrancudo, sentado ao lado de um cofre monobloco pintado a preto fino. Na secretária de madeira mal aplainada, feita com tábuas da serração da roça, repousavam os maquiavélicos livros, que a Cantina lhe enviava, mensalmente, com o Deve e Haver dos contratados. As lombadas viam-se sujas pelo passar dos dedos. Numa, ainda se podia ler, mesmo de longe, no meio da sujidade:
Géneros, Vestuários e Diversos
Pendurado numa das paredes, um velho relógio de caixa em madeira brilhante, deixava ver-se pelo vidro um pêndulo em bronze dourado, oscilando e marcando, compassadamente, o tempo da vida na roça, ou o que dela ainda restava. O ancião Nhô Djonzinho ia observando, quase que enfeitiçado, a cadência certa dessa máquina que controlava o tempo das suas vidas. O contabilista retirou os óculos do nariz, limpou as lentes embaciadas com a ponta de uma folha de um jornal, olhou para um tufo de cogumelos nascidos nas fendas das tábuas podres da janela virada a Norte, e falou:
Senhor João da Conceição Silva? vulgarmente conhecido na roça por Nhô Djonzinho um bom tocador de rabeca, segundo me informou o capataz Florindo.
Pronto!
Nhô Djonzinho (posso tratá-lo assim), lamento informá-lo que este mês nada tem a receber!
O contabilista endireitou os óculos no nariz adunco e, com um sorriso diabólico nos lábios, foi acrescentando:
Ganhou tanto; tomou fiado na cantina tanto; descontando a prestação relativa ao terceiro mês do adiantamento recebido ainda na sua terra, na Casa Neves, antes de embarcar, ainda fica a dever à roça, tanto...! Em vez de sobrar dinheiro, Nhô Djonzinho já está a comer o mês de Março, que ainda nem entrou...!
O pobre homem, que mal se aguentava nas pernas doentes de reumatismo, desceu a escadaria de madeira ainda com as palavras do contabilista a verrumarem a sua martirizada cabeça: “você está a comer o mês de Março, que ainda nem entrou...entrou...entrou!” Chegado à senzala, entrou e sentou-se junto à janela virada para a mata e aí ficou, horas a fio, a ver os pássaros verdes debicando as flores doces e algumas papaias maduras, meditando nas catanadas que a porca da vida lhe dava.
Mais uma! Castigo de Deus Nossenhor que não gosta de mim ou praga rogada por algum inimigo!
Estás a falar sózinho! Era a voz da Sabina, regres-sando com a lenha para a comida do jantar.
O homem repôs o boné na cabeça e foi dar um passeio pelos caminhos sombrios das matas, tapados pelas ramadas dos cacaueiros. Deitou contas à vida e aos gastos daquele fatídico mês de Fevereiro e, em voz alta, falava:
Afinal, o que comprei a mais na Cantina? Sim, a Sabina fora lá algumas vezes levantar milho, farinha de mandioca, peixe seco de Angola, açúcar amarelo, uma garrafa de óleo de palma e nada mais!
O seu pensamento fora interrompido pelo guinchar dos macacos disputando os mais apetitosos e belos cachos de cacau maduros, deitando por terra alguns frutos ainda não sazonados.
Podia enxotá-los, se quisesse, mas não, uma figa! (Fez um gesto com os braços). O patrão que se dane! O prejuízo não é meu é dele! Os macacos são viventes e também têm direito aos frutos do mato.
Continuava Nhô Djonzinho, falando em voz alta:
Muitos meses mais vou passar nesta porcaria de roça, mas hei-de pagar tudo à Cantina e ainda juntar algum dinheiro para reconstruir a minha casinha no Norte quando regressar, se regressar, claro! Sim, a casa estará muito mais estragada, sem as portas que vendi antes de embarcar e a cobertura de soca velha levada pelo vento. Até sou capaz de comprar uma outra cabrinha para fazer as vezes da Ruça aquela que se despediu de mim, à porta do Matadouro de Nhô Lima.
O pobre contratado não foi o único a ficar sem o salário desse mês. Muitos não entendiam as contas por não saberem ler nem escrever. Os próprios caixeiros da Cantina afirmavam que a loja não podia dar prejuízos ao patrão e não era um armazém de assistência do povo, como havia em Cabo Verde.
Quem não quiser comprar aqui, que vá fazê-lo à cidade resmungava o caixeiro, por entre os dentes, do lado de lá do balcão de madeira.
CAPÍTULO 7
No posto de socorros Toni foi aprendendo os ensinamentos com o enfermeiro e já aplicava as dolorosas injecções de quinina aos contratados tomados pelas febres. O paludismo tocava a todos. Só os capatazes dormiam protegidos pelas redes mosquiteiras que os defendia das picadas dos infectados mosquitos anofeles uns que tinham as pernas fininhas e malhadas de branco e preto. Os contratados só podiam contar com a sorte, para que a febre não se transformasse numa biliosa, pois a morte seria coisa certa. O enfermeiro angolano dizia que o único remédio que conhecia para debelar a biliosa era beber de uma vez uma garrafa de champanhe coisa rara na roça embora a Cantina reservasse algumas garrafas de espumantes vindas de Lisboa, “para as pessoas mais importantes que adoecessem na roça”. Toni, após o toque do fim do dia de trabalho, ficava postado na varanda de madeira da Enfermaria, vendo os contratados chegar ao largo pelos vários carreiros saídos das matas de cacau, trazendo às costas as últimas sacas para os terreiros de secagem. O pai e a mãe lá vinham entre eles, curvados pelo peso dos frutos e infortúnios de uma dura vida. Muitas vezes, corria para os ajudar, mas o pai não permitia que ele, um menino de doze anos de idade, transportasse sacas com cerca de cinquenta quilos de peso. A mãe fora integrada no grupo das contratadas que se ocupavam da faina da extracção do óleo de palma, em enormes tachos situados num barracão ao lado do terreiro de secagem do cacau e café. À tardinha, Toni meditava na vida e nas suas injustiças, embora ainda fosse um garoto. Por mais perguntas que fizesse à sua consciência, não conseguia encontrar as respostas para todas as suas inquietações e desigualdades que via por esse Mundo fora! Um mundo que era bom para uns e muito ingrato para outros, sendo todos criaturas, filhas do mesmo Deus Criador! Os maus triunfavam e os bons castigados! Relembrava-se das palavras do velho catequista, aos domingos, após a missa das dez, sentados à sombra do frondoso tamarindeiro do Seminário. Certo dia, ao limpar as estantes do enfermeiro, encontara um livro de capa amarela, que falava numa nova doutrina, deconhecida por ele até então. Estaria nela a tão almejada resposta!? O título era: O RACIONALISMO CRISTÃO. Abriu-o ao acaso, e leu algumas passagens:
“...Ninguém se deve julgar desgraçado. Há criaturas que, quando se encontram em situação difícil, entregam-se ao desânimo e sufocam assim todas as aspirações de luta e de progresso que trouxeram do plano espiritual. Essa maneira derrotista de agir na vida é condenável e perniciosa. Procurem todos estudar e enriquecer-se de conhecimentos sãos. Lembrem-se dos grandes benfeitores da humanidade que vieram do nada...”
Pela janela, que dava para o terreiro, ainda viu a figura do pai, arrastando penosamente a sua perna doente, rumo à senzala, para o descanso do dia. A sua família não passava fome, como em São Nicolau. Havia muita comida: inhame, mandioca, papaia, fruta-pão e muitas coisas mais. Só que o pai, longe da terra e dos amigos, já nem conseguia tocar as suas mornas preferidas na rabeca de estimação, porque ela também o ajudava a chorar, quando as cordas eram trinadas pelo arco. Choravam os dois: o pai e o instrumento. Nhô Djonzinho sentia as saudades crioulas das gentes da sua terra e das moreias pretas que pescava à linha, sentado nas altas fragas da costa Norte.
Hei-de ser um desses benfeitores de que fala esse livro mágico exclamava o Toni...
Chegara a quadra da Páscoa. Toni relembrava-se da alegria dos tempos vividos na Estância, quando ia assistir à missa na Sé com os pais. As altas janelas de vitrais coloridos, que já não deixavam passar a luz, tapadas com panos roxos. Era a cor da Paixão de Cristo, na Semana Santa. O ambiente no interior da Igreja era muito triste, de luto mesmo. Ouviam-se os passos tímidos dos fiéis, fazendo ranger as longas tábuas de um soalho de pinho de Espanha, coisa do século passado. Lá fora, o sol brilhava. Os pombos pulavam entre as altas torres da Sé. A porta principal também ficava tapada com um largo reposteiro encarnado com a Cruz bordada a ouro ao centro, baloiçando pesadamente como a rede de mosquiteiros sobre a cama do enfermeiro, agora levada ao sabor da aragem morna de um fim da tarde. Estava a decorrer a época da Páscoa, e ele numa roça de cacau, em São Tomé! Coisas da vida! Na escadaria do posto, várias pessoas aguardavam os curativos. Toni ajudava o enfermeiro nas suas tarefas rotineiras e repetia consigo mesmo:
Hei-de ser um grande homem! Ninguém se deve julgar desgraçado; vou começar a estudar e virei a ser um bom enfermeiro, como Nhô Luís, o que tentou salvar a minha irmã e um dia embarcarei num vapor grande, com muitas salas, luzes pendentes dos tectos, ventoínhas e tudo... Darei voltas ao Mundo, como no livro do Júlio Verne, que li a bordo do Borba.
Toni? Estás a entornar o frasco com desinfectante, não vês?
O rapazinho estava mesmo absorto nos seus pensamentos, recordando-se dos ensinamentos que colhera do livro sobre o Racionalismo Cristão e as teorias de reencarnação das almas.
Pensava em voz alta:
Não acredito que Deus Nossenhor fez o Homem apenas para, com ele, vir a adubar os esguios ciprestes dos cemitérios. Tanto trabalho para quê?
Sim prometo a mim mesmo, ser um benfeitor da Humanidade! Sonho com um mundo novo onde todos os meninos tenham comida para comer e não as barrigas inchadas de ventos da fome! Sim! Irei ajudar a construí-lo!
CAPÍTULO 8
Nhô Djonzinho, após um dia de trabalho na roça, voltara à sua senzala. Nesse dia, vinha mais triste e acabrunhado, de cabeça baixa olhando o chão e as calças salpicadas de lama. A camisa via-se manchada de suor seco e esbranquiçado. Os pés descalços calcavam a mole e escorregadia lama encarnada, deixando marcas no cimento estalado e quente do terreiro por onde passara. Pelo caminho, encontrara-se com o Cleto, também das terras do Norte, muito folgazão, estatura mediana e face queimada pelo sol e encarava a vida com mais optimismo.
Deita a vida para detrás das costas, caro amigo! A vida são dois dias. Acabamos debaixo da terra, mais dia, menos dia! Ainda havemos de voltar à nossa ilha, semear o milho e vê-lo crescer e colhetá-lo, naqueles campos verdinhos...
Repara, Cleto, na quantidade de chuva que cai nesta terra! E ainda dizem que é Deus Nossenhor quem comanda este mundo?
Se for Ele a comandar o Mundo deve estar desmaquenado da cabeça!
Não fales assim! Podes ser castigado!
Que me castigue mais, se quiser!
Um ar fresco, misturado com o cheiro a folhas apodrecidas dos cacaueiros, era trazido pelo vento do Sul.
Sabes, Djonzinho, o que me faz recordar este cheiro a palha molhada?
Não!
Agorinha mesmo, estava a pensar naqueles tempos de outrora, em que iamos colhetar o milho na hortinha debaixo da rocha! Ainda sinto nas narinas o cheirinho a espigas molhadas cobertas de bolores pretos. Maldita chuva que não parava de cair, obrigando-nos a trabalhar no meio dos bichos da terra e das enormes centopeias só para que o milho não apodrecesse nas canas. Vejo os feijoeiros enrolados e floridos de roxo. Que lindura!
Mas, Cleto, do que eu mais gostava era da feitura das rondas de milho nos quintais! Aqui, não há milho para colhetar, mas sim cacau, caro amigo, só o cacau esse peganhento e maldito fruto que deixa as mãos coladas e os lombos curvados pelo peso das sacas de cinquenta quilos. Nem às nossas mulheres dão outra tarefa que não seja a de transportar, transportar sempre e às costas, o cacau e mais cacau, sempre cacau...
O sonhador continuava a sonhar, mesmo bem acordado e, em voz alta, falava:
E as matanças dos porcos lá na nossa terra?
Sim, sim, que saudades, meu caro amigo!
Pela manhãzinha, iamos ao chiqueiro buscar o bicho e muitas vezes era preciso derrubar os muros para o tirar de lá.
Mas eu preferia a feitura das rondas de milho. Ainda vejo as mulheres retirando as palhas escuras e nós empilhando as espigas, com as pontas viradas para dentro. A ronda ia tomando forma e chegava a ficar mais alta que um homem. As melhores espigas eram separadas para as sementes e pendu-radas nos caibros das casas, bem defendidas das ratazanas por gargalos de garrafas suspensos das cordas.
Compadre! As sementes eram sagradas! Nelas não se tocava, mesmo que a fome virasse negra, mas, ultimamente, nem as sementes já eram respeitadas.
Semente era coisa séria! confirmava o Zé da Luz - juntando-se ao grupo, e pedindo um c’o licência para se sentar.
Nhô Djonzinho, com a cara pergaminhada pelas febres, foi dando asas às torrentes de recordações que ainda alegravam a sua perturbada memória.
Ao outro dia, a manhã clareava triste. Limpava-se a branca névoa sobre a mata de cacau e frio cacimbo. Nas senzalas, as mulheres rachavam a lenha. Nhô Djonzinho conseguira uma garoupa e com ela a Sabina iria fazer um caldinho de peixe malaguetado com banana verde e mandioca, ao fim da tarde. Nhô Cleto fora convidado à última hora, e aceitara a morabeza de Nhá Sabina, insistindo para que ele ficasse para a janta. O jantar fora servido pela Sabina e a conversa retomada:
Mas ainda voltando-nos à matança do porco! Quando apanhávamos um porco com os dentes de fora do focinho era uma carga de trabalhos.
E aquele fringinote!
Sim! Com a boa farinha-de-pau e uma groguinha, para tirar o gosto.
A Sabina foi acrescentando:
Após o almoço de fringinote, era a altura da salga das carnes e do derreter do toucinho para a banha.
Toni meteu uma colherada na conversa:
Eu e outros meninos jogávamos à bola com a bexiga do porco, lá do fundo do casebre...
Após o caldo de peixe, Toni foi buscar mais lenha e acendeu uma fogueira no largo fronteiro à senzala. Nhô Djonzinho mandara buscar a rabeca lá de dentro e chamou o Zé da Luz, com o seu cavaquinho e o Toi de Cacai com a sua viola. Os três instrumentos choraram os ais mais tristes das mornas de Cabo Verde, entre elas:
“Mar é destino
de
Homem...”
A lua, redonda que nem uma abóbora-fóga, surgira por entre as negras copas dos hirtos coqueiros, lançando uma pálida e fria claridade sobre o capim molhado das bermas do caminho.
Nhô Djonzinho não tinha sono; ficara a conversar com o seu convidado, à porta da casa, sentindo a água gotejar dos beirais de palha sobre as suas cabeças. Na memória daqueles dois bons amigos, a sensação dos dias em que cobriam os casebres do Norte, com a palha nova. Viam os companheiros e a vizinhança empoleirados nos caibros de paus de carrapata, aguardando que os feixes de palha lhes fossem atirados, como foguetes, e apanhados com mestria, com uma só mão. A tarefa ficava concluída quando as cordas cruzavam-se sobre a palha como uma rede, evitando-se que as lestadas de um Agosto dessem cabo de todo o trabalho, num esfregar de olho. O compadre bocejava de sono. Chegara a hora de dormir e o resto das recordações ficaria para outro dia.
CAPÍTULO 9
Os dias foram ficando para trás, na pura monotonia inervante de uma roça. Um barco com contratados chegara ao porto. Todos procuraram as almejadas notícias dos seus fami-liares de Cabo Verde. Os rostos dos desembarcados viam-se fechados. Alguns falavam, mas com certa relutância:
Chuva? Às vezes... Uma miúdinha, nos sítios mais altos do Cachaço e Lombo Pelado, mas logo que Setembro era botado de fora, a secura dava cabo de tudo...Uma calamidade de Nossenhor assim confirmava Nhô Roberto, vindo do Caleijão!
Agora foi a vez de Nhá Zepa de Nhô Quirino falar:
Muitos dos que não quiseram dar os nomes ficaram semeados na Tabuga, pela fome ou pelas doenças. Uma desgraceira para a nossa terra!...
Vontade de Nossenhor! resmungara Nhô Djonzinho, com uma carta acabada de receber nas mãos. O sobrescrito de avião vinha manchado com largas dedadas de gordura. Com as mãos trémulas, retirou o papel do seu interior e deu ao filho Toni para ler:
Caro Djonzinho:
Desejo que estas linhas mal escrevinhadas que hoje vão para o Correio te vão encontrar você de boa e perfeita saúde na companhia do Toni e da Sabina. Esta vai com a finalidade de informar a Nhô Djonzinho que a sua casinha do Norte, que deixou para eu deitar um rabo de olho, caiu todo para o chão, ficando tudo num monte de pedras e paus que as pessoas estão a levar para as suas casas para fazer obras...
Vão abraços e mantenhas para todos. Lamenta ter que dar ao Nhô Djonzinho esta tam triste notícia. Mas a vida é feita mais de coisas ruins do que coisas sabe.
Mantenhas a todos.
Deste seu criado e amigo,
Nicolau da Silva
(Clau d’Ana)
Djalunga, 17 de Dezembro de 1953-
Nhô Djonzinho, com a cara pergaminhada pelas febres, ouvira sentado, a leitura da carta, escrita por Clau d’Ana. A raiva foi tanta que o pobre homem caiu para o lado, paralisado, espumando pela boca escancarada. O enfermeiro foi chamado de urgência pelo Toni e o enfermo levado para a Enfermaria em estado de coma e de boca de lado. Foi rápido no seu diagnóstico:
AVC - trombose! Veia da cabeça entupida, coisa grave, Toni! Espuma branca é de morte... Se fosse na metrópole, abriam-lhe a cabeça e retiravam o sangue que está a entupir a veia. Um professor português, de nome Egas Moniz, até recebeu o prémio Nobel, por ser o pioneiro dessa operação à cabeça...Sem sangue o cérebro vai morrendo, como naquele caso que vimos há dias numa autópsia, em que o miolo do falecdo estava já em papas e no osso apenas uma pequena estaladura da paulada que apanhara.
Os dias foram passando e o enfermo gemendo na sua cama, juntamente com os outros doentes internados, que olhavam as placas de cartão prensado do tecto cobertas de bolores negros. Ao lado da cama de Nhô Djonzinho, permanecia o Chico de Zepa, que caira de um pé de cacau, quando podava os ramos doentes, partindo uma perna. Noutra, repousava Nhô Zeferino do Recanto, atacado de paludismo. Falava aos colegas da Enfermaria:
Daqui não irei sair com a perna direita de jeito nenhum, para poder trabalhar. Osso velho já não tem cal! Quando regressar à terra, nem sei se poderei andar atrás das cabras no Morro, para as meter no curral!
O enfermeiro, que acabara de entrar na sala com a mala dos medicamentos debaixo do braço, deu um bom dia a todos. Vinha atrasado e havia muita coisa por fazer nesse dia, a começar pelas injecções de quinina. Um dos doentes ia apanhar uma dose de Penicilina forte, medicamento milagroso, recentemente chegado à roça, muito caro e conservado na geleira do Posto, após a sua preparação, “mas só para os casos mais desesperados”. De resto, o enfermeiro tinha recomendações rigorosas do patrão no tocante à ”parcimónia na utilização de medicamentos caros e stock de difícil reposição”. Noutra cama padecia o Zé da Luz, um contratado de São Nicolau, muito conversador e a quem o enfermeiro pedia, gracejando sempre, que lhe contasse uma daquelas histórias da sua terra! O Zé, de perna engessada e esticada sobre um colchão de riscas largas, com alguma palha à mostra, falava ao seu interlocutor:
Senhor enfermeiro já deu conta que estamos na Páscoa! Na minha terra, além da Páscoa há, ainda a Pascoela.
Só conheço a Páscoa, mas fala-me dessa tal Pascoela, que até parece nome de pessoa.
O Zé esticou os braços, outrora musculosos mas agora com os ossos dos cotovelos e querem furar-lhe a pele, bebeu dois goles de água de um moringue de barro e exclamou:
Quem me dera que fosse uma groguinha do trapiche de Nhô Frank Nhinhône, quando aquele cheirinho chegava à Passagem, vindo pela calmaria das noites.
O enfermeiro, sentado ao seu lado, com a bolsa preta de medicamentos aos pés, ouvia atentamente o rapaz.
A seguir à missa da manhã celebrada na capela do Caleijão, no domingo depois a Páscoa, todo o povo se dirigia para os lados da Água-do-Canal, para a festa. A rua ficava engalanada com mastros, bandeirinhas de papel de seda e ramos de buganvilas floridas de roxo. Depois do almoço, começava a festança. A estrada era enfeitada com cordas, donde suspendiam moringues cheios de água, cinza e urina. Os concorrentes, de olhos vendados e munidos de paus de chaluteira, tentavam partir os objectos pendentes, deconhecendo os seus conteúdos. Quando alguém acertava num deles e apanhava um banho de urina ou cinza e cacos, a risada era geral.
O Zé fez uma pausa para beber mais um gole de água. O en-fermeiro olhava impacientemente o relógio de bolso.
Sabe, senhor enfermeiro, qual o melhor momento da festa?
Qual?
Era o quebrar das cabeças aos galos?
Quebrar cabeças, como?
O enfermeiro ia aplicando as últimas injecções do dia. Um cheiro a álcool desnaturado invadira a sala. O Zé desentupiu o nariz com um lenço de pano já encardido pelo uso e retomou o fio à conversa.
Os galos eram enterrados no caminho, com as cabeças de fora da terra. Os foliões, de olhos vendados, caminhavam às cegas, batendo com um varapau no chão, à sorte! Às vezes, conseguiam acertar nos espectadores com os cajados, no meio de uma risada generalizada.
O enfermeiro, já despachado das rotinas da enfermaria dos homens, queria passar para a das mulheres, mesmo ao lado. Fez sinal ao Zé para terminar a história.
Quando o pau batia com mais força, fazia levantar o pó do chão e a festa ficava ao rubro. Os concorrentes andavam mais pertos das cabeças dos galos, quase que afogados na terra. Está aos teus pés! Dá-lhe, agora, com força gritavam. O varapau sibilava no ar, passando a um palmo da cabeça de um dos apavorados galos. Está ali ao lado! Chega-lhe! Por fim, o último concorrente conseguia acertar num dos galos. Um troféu para uma boa canja, ao fim da tarde, na Água-do-Canal. Assim terminava a festa da Pascoela na minha terra, com comida e grogue...!
Uma selvajaria, Zé! dissera o enfermeiro despedindo-se contando com a próxima história.
Toni, sempre que podia, ia ler algumas páginas do tal livro do enfermeiro, falando da vida nas roças, anos antes dele chegar a São Tomé:“... Oh, nunca tinha visto uma casa tão grande, com grades de ferro nas portas e janelas. De manhã, quando o Sol nascia, toda a vasta cela se enchia de cruzes nas paredes e no tecto. E as pessoas tinham de andar por entre essas cruzes sinistras, para trás e para diante, como um leão preso na armadilha. A porta dava para o pátio e, através das grades, via-se o pavilhão das mulheres, em frente. E, quando a sentinela se afastava ou se distraía, elas vinham pendurar-se nas grades e jogavam chalaças obscenas aos homens. Fora, então que descobrira que elas também eram de carne e que os seus seios bamboleantes podiam ser tocados e apalpados pelas mãos de qualquer homem. Agora, quem se aproveitava do privilégio era o safado do sipaio, todas as vezes que passava junto delas...”Toni ouvira passos do enfermeiro e jogara o livro para debaixo da cama, ainda por fazer.
Toni, onde está a minha bata branca!Depois, Toni continuou a leitura, quando ouviu os passos afastando-se do local:“...Naquela cela não muito grande estavam vinte e dois homens. Dormiam enrolados em mantas e quando precisavam de fazer as suas necessidades havia um latão que fedia dia e noite...”
...
“...Oh, como tudo aquilo era diferente dos caminhos da floresta!
Uma noite, tinha sido despertado do sono por gritos aflitivos. A princípio, ainda meio adormecido, pensara que aqueles gritos provinham de qualquer companheiro vítima de pesadelo medonho”.Toni continuava entretido na leitura:
“...Mas logo verificara que, na sua cela, tudo continuava tranquilo, apenas os vultos deitados começavam a agitar-se. Os gritos vinham do pavilhão em frente da cela das mulheres. Num instante, todos os prisioneiros estavam de pé contra a grade da porta, a tentar descortinar o que se passava no pavilhão fronteiro. Depressa estouraram gargalhadas: eram seis mulheres, todas elas indianas, que se encontravam alí. Sob qualquer pretexto tinham conseguido atraír o guarda à cela e estavam a violá-lo!
Aquilo já devia durar há algumas horas, porque o homem só queria fugir às dúzias de braços que o prendiam. Os corpos, como cobras enroscadas na sua presa, sempre a exigir mais e mais. Agora, o homem começara a gritar e os seus apelos lancinantes eram abafados pelas gargalhadas dos presos.
Dias depois, os homens foram alinhados no pátio da prisão. Juntamente com os outros das celas vizinhas, constituiam uma pequena multidão. Estavam de pé, enrolados nas suas mantas sebentas, enquanto os sipaios gritavam ordens e os fustigavam com os seus cavalos marinhos...”Esses malditos sipaios! cuspiu para o lado, com desprezo - tinha-lhes ódio de morte. Eram landins, de compleição atlética, arrogantes e brutais que gostavam de bater, sob o olhar complascente dos guardas brancos Da prisão, tinham seguido em cortejo miserável até ao porto. Tamaleia já sabia, por conversas com os companheiros e com os guardas, o que lhes ia acontecer. Um desses barcos, no cais, estava à espera deles, pronto a conduzí-los a uma terra longínqua.
- Não é terra, não! - dissera um companheiro mais bem informado.
- Você já viu uma terra que tem água em todos os caminhos?
De lá, você não pode fugir...” (*)
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(*) - In”As Mulatinhas”- de Sum Marky, pgs. 9 e 10
Toni perdia muito tempo a devorar as páginas do livro e recolocou-o no buraco vazio da estante. Ficara a conhecer, um pouco mais, o passado histórico da terra de São Tomé, nos anos quarenta. No posto, alguns contratados esperavam a sua chegada, para os curativos da manhã. Gostava do trabalho que fazia, tendo sempre presente as palavras do médico goês, que o inspeccionara à chegada.
“Rapaz, ainda és muito moço! Estuda para poderes vir a ser alguém”.
Queria mesmo ser enfermeiro. À medida que os meses iam passando, os contratados adoeciam com os mais estranhos males. Os mosquitos das sezões inundavam as matas. Os nativos resistiam melhor às doenças, recorrendo-se aos curandeiros para um milongo às escondidas das autoridades. Os brancos não acreditavam nos feitiços desses curandeiros, que faziam remédios à base de plantas do mato. Por sua vez, os feiticeiros viravam a cara às cápsulas coloridas contendo pós miraculosos dos brancos. Um dos curandeiros, o mais procurado na ilha, o Kapungana, vivia num local ermo e de difícil acesso. Um nativo contara ao Toni, que, certa vez, um trabalhador mordido por uma cobra preta quando capinava os cacaueiros foi levado à sua casa. O sangue escorria-lhe pelo calcanhar abaixo e um suor frio inundava-lhe a cara. O ferido foi transportado à palhota do curandeiro, única pessoa capaz de lhe salvar a vida, já presa por um fio. Se o veneno chegasse ao coração ou à cabeça era o fim! Com uma corda, o amigo fez-lhe um garrote na perna, logo acima do local da ferida, e pôs-se a caminho da senzala do feiticeiro, carregando o sinistrado. O amigo do Toni continuava a narrar:
Sabes, Toni, a curiosidade levou-me a ir com eles à casa do afamado feiticeiro. Aprendera a rezar com o senhor Santos da Missão e, pela encosta acima, fizemo-lo, em voz baixa: Ave Maria...Cheia de Graça... O doente também queria fazer o mesmo, mas contorcia-se de dores e já deitava uma baba esbranquiçada pela boca. Os mosquitos, em nuvens, rodopiavam em nosso redor. As corujas e os vampiros eram os donos da noite e da mata. Uma luz, a querer furar o negrume da noite, via-se ao longe. Era o local do casebre do curan-deiro. Avisado pelo latido estridente do cão de guarda, veio à porta dar fé no que se passava. Um homem negro, de tronco curvado, alto, de barba branca e crescida, tez pergaminhada e escura, dentes alvos como a mandioca descascada de fresco, aparecera na moldura da única porta, iluminado por uma estranha claridade amarelada vinda do interior do aposento, fazendo brilhar as hastes floridas do capim tapando a entrada. O doente foi colocado no interior de um escuro e abafado aposento, onde ardia uma fogueira de lenha verde, enchendo os nossos olhos de um fumo irritante. As teias das aranhas, negras do fumo, pendiam dos paus do tecto, oscilando ao sabor da aragem fria vinda da porta. Numa panela preta com três pés em ferro daquelas que a Alfândega despachava antigamente como sendo ”panela para pretos”, apoiada sobre umas pedras do mar, fervia uma água à mistura com ramos de plantas, lançando para o ar um vapor esbranquiçado fedendo a ervas frescas. A um canto, uma cama de paus toscos e uma mesa de madeira acastanhada, sobre a qual repousavam alguns objectos de culto tradicional: conchas, cascas de tartarugas, chifres, penas de aves e outros objecto míticos. O curandeiro mandou deitar o doente numa esteira de palha de bananeira, enquanto o ajudante (um rapaz que devia ser seu sobrinho, pelas suas feições), coadjuvava-o nos seus rituais. Munido de uma faca de aço, feita com a ponta de uma serra, o Kapungana era esse o seu nome , fez uma incisão em cruz no local da picada, debruçando-se sobre a ferida e chupando o mortífero veneno da cobra preta. Cuspiu a saliva avermelhada para o chão de terra batida, ao mesmo tempo que rezava baixinho. Sobre a ferida colocou um emplastro de folhas quentes. Pela goela do paciente, despejara um pouco da mistela retirada da panela. Os suores frios caíam dos rostos dos presentes. O ar, abafado e saturado de humidade e de cheiros diabólicos a enxofre tornavam-no irrespirável. A operação levara cerca de uma hora uma eternidade para o sinistrado. Lá fora, reinava uma escuridão de breu. O céu via-se com poucas estrelas. As aves noctívagas piavam, empoleiradas nos altos galhos das sinuosas e escuras ramadas. Tudo em redor metia medo! O paciente, quando acordou, perguntara ao curandeiro se ia ficar bem da perna! “Se não morrer até o galo encarnado cantar no quintal, penso que sim! Tudo depende do entranhamento do veneno no corpo e dos astros no cosmos”. O galo cantou logo pela manhã. O amigo ficara vivo mas paralizado da perna picada pela cobra preta. Ainda na semana passada fora visto na roça, coitado, agarrado a uma muleta de pau de cafeeiro e ficou conhecido por Zé Manco, ou Zé da cobra...
O amigo despediu-se do Toni prometendo contar mais coisas sobre os curandeiros daquela terra longe.
CAPÍTULO 11
O toque do velho sino (um aro de uma roda de camião), suspenso de uma jaqueira, soava todas as manhãs, às cinco em ponto. Àquela hora, a humidade dos montes entrava directamente nos ossos dos contratados. Filipe, o capataz, de papel nas mãos, fazia a chamada:
José António? Djosa!
Domingos de Araújo? Rau !
Nicolau Ramos? Nicola!
...
Um a um, os contratados iam respondendo à chamada e contados, como na parada de um quartel.
Para quê a chamada ? resmungava Nhá Zepa do Caleijão! Ninguém vai fugir desta roça ou desta ilha rodeada de mar e tubarões por todos os lados. Nadar até Cabo Verde? Só se for para a costa de Angola que está mais próxima...
Prisão sem grades! dissera um angola, na formatura, integrado na brigada para a capinagem do cacaueiros doentes.
Toni seguiu para o seu local de trabalho, ao lado do enfer-meiro. Os capatazes nada perdoavam. Queriam mostrar serviço e o cacau não podia ficar à mercê do tempo e dos macacos famintos e espertos. Contava-se que o capataz Cipriano, certo dia, viu uma contratada pôr no chão um balde de calda de verdete, coisa para a sulfatação das árvores, para fazer as suas necessidades no mato. Por se ter atrasado um pouco mais, fora açoitada e expulsa da roça, do local onde nascera, trabalhara e tivera seus filhos machos.
As chuvas caíam diariamente e os contratados naquele mato, sem quaisquer resguardos, socorrendo-se das folhas das bananeiras ou copas das árvores, vendo a água escorregando pela longas nervuras do limbo. Os cigarros até eram fumados com lo lume para dentro da boca, por causa de verdadeiras cordas de água que desabavam do céu.
Toni entrou no posto de socorros. Nessa manhã, como sem-pre, dirigia-se ao leito onde jazia o pai doente, desde a trombose. Abriu a janela para deixar entrar o ar fresco para a sala. Uma lufada de ar campestre e o aroma a flores silvestres invadiu aquele sombrio local, afastando o cheiro adocicado da morte. Ao sentar-se na cama Toni olhou o rosto escaveirado do pai, coberto pela hirta barba branca, fitando o tecto de cartão prensado, sem mover os olhos. Tomou-lhe o pulso e, espantado, gritou:
Está morto! Morreu... Papai já foi para a terra da sau-dade!
A Enfermaria pôs-se em alvoroço. Uma gritaria, à mistura com as guisas, tomara conta do terreiro, àquela hora vazia do dia.
Nhô Djonzinho de São Nicolau já morreu!
Toni, sentado ao seu lado, falava em voz baixa:
Papai morrera só, no silêncio daquela mata, assistido apenas pelas irmãs paredes da enfermaria e por uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, pendurada à cabeceira da sua cama e doutros mortos vivos. Pobre papai! E eu aqui tão perto!...
Toni largou as gélidas mãos do pai, para ir dar a má notícia nas senzalas. Não havia muita gente de perto. Os velhos, as mulheres e as crianças trabalhavam aquela hora. Toni refugiou-se no quarto do enfermeiro. De lágrimas nos olhos, foi ler mais algumas passagens do livro de estimação:
(*)
“...António, pobre criança de catorze anos de sonhos desfeitos. Nos anos bons, anos de chuva e de abundância, quando estudava no liceu de São Vicente, sonhava vir a ser alguém na vida. depois, viera a desgraça, anos de seca, a fome e a morte. Seus pais tinham parecido, um após outro, com pequeno intervalo. E fora sózinho, sem ninguém no mundo, que se vira no porão negro daquele barco a sulcar os mares, rumo a uma ilha de esperança...”
Toni parou para limpar as lágrimas e prosseguiu:
“...Mas, em breve, nem mesmo a esperança restava, tudo perdido. No mato, com o gado, a solidão afligia-o. Chorava sózinho a sua frustração, desejava morrer. O único lenitivo era quando se reunia com os companheiros, à noite, em redor da fogueira, o violão soluçante, a cantar uma morna. Outras noites, contavam histórias e até os moçambiques broncos deixavam de rir, aproximando-se calados. A história que António gostava de contar era a revolta dos escravos, Spartacus seu ídolo. Contava-a com raiva e omitia o final triste dos escravos vencidos. O mais poderoso povo da história, a tremer de medo em frente dos escravos, dos pobres, dos humilhados. Até os moçambiques gritavam, batiam palmas numa explosão de ódio incontido. Aquilo era o que eles haviam de fazer qualquer dia e as chamas, a desolação e a morte haviam de se espalhar por toda a terra africana...”.
- Continuo a citar o belo romance:
“As Mulatinhas”
pgs.87 e 88
Toni, com um lenço bordado, lembrança da sua madrinha do Caleijão, ao embarcar para Terra Longe de São Tomé, enxugou as lágrimas. Já nem sabia se eram da perda do pai ou da revolta do que acabara de ler no livro, retirado da estante do enfermeiro de Angola.
A tarde caía. Os contratados, à medida que regressavam à roça, iam sabendo da morte do ancião. Era um corrupio de gente à Enfermaria, para ver e chorar a perda do bom rebequista do Norte, agora inerte numa cama de ferro esmalta-do, gasto pelo tempo. O seu rosto sereno olhava um Céu que nunca acreditou existir. Nhá Sabina, de cabelos desgrenhados, numa guisa pegada, ainda com as vestes sujas da lama do caminho, vinha sustida pela amigas Bia e Cacai. Alguns angolas e moçambiques, postados junto ao terreiro, viam a cena de longe, sem se perturbarem muito. Nunca conviveram com o falecido...
Menos um caboverde! dizia um, em jeito de desdém! O feitor Ramos veio dar ordens ao enfermeiro para mandar retirar o morto, porque a cama era precisa para um outro doente urgente. Uma multidão enchia a sala.
A Sabina gritava:
E agora! O que vai ser de mim! Sózinha, neste mundo de Nossenhor com o Toni, um rapazinho ainda tão novinho!
Toni também chorava, agarrado às gélidas mãos do pai, relembrando-se das palmadas quentes que delas apanhava, quando o professor do posto se queixava das judiarias que ele fazia na escola, ele e mais alguns companheiros: o Chico e o Jack, que morreram durante a fome. Afinal, só iam aos beirais da capela retirar os pardalitos novos, ainda piando nos ninhos, de bicos amarelados e assustadiços tropelias de crianças...Punham no chão as sacolas de serapilheira onde levavam os livros, os cadernos, as pedras de contas e a pouca comida, para treparem aos beirais de telhas francesas e, lá no alto, desfazerem os ninhos dos indefesos pardalitos novos, que eram levados para as gaiolas...Ainda pensava neles...Coitadinhos...
Toni, falava ao amigo:
O Jack fora escalado para vigiar o sacristão, que, àquela hora da manhã costumava andar a limpar os castiçais de prata da velha capela, usando laranja azeda e cinza de bananeira. O piar dos pardalitos novos já se ouvia. Alguns vinham espreitar timidamente dos buracos dos beirais de telhas francesas. Ele era o chefe do grupo e gostava de ter em casa uma gaiola de cana de carriço com muitos pardais, principalmente os dos coqueiros, os maiores e mais irrequietos. O Chico esse sim queria-os para assar na brasa, longe da casa e da mãe, de olfacto apurado e mãos pesadas.
- Vamos aos ninhos! dizia ao grupo! A essa hora o professor do posto escolar já teria dado pela nossa ausência e iniciado o ditado do dia. Via-o, de livro aberto sobre a velha secretária de tábuas de caixotes de bolachas, pronto a ditar:
“...As árvores e a chuva
“...Como os alunos já tivessem um dia ouvido dizer do seu professor que as plantas respiravam, o Horácio perguntou-lhe se elas tinham pulmões...”
...
...E o professor a dizê-los:
Vamos escrever com atenção! Só dito a frase uma úni-ca vez!
O grupo, que se preparava para ir aos ninhos, desatou a rir, antevendo a raiva do professor, quando desse pela falta dos três alunos, os melhores da classe. O Chico era o mais rápido de todos. Mal o mestre acabava de ditar a última palavra, ele já molhava o aparo de aço no tinteiro de porcelana branca estalada pelo tempo, aguardando pela frase seguinte...
Toni ainda falava aos amigos:
Vamos mas é deitar para trás das costas as preocupa-ções do mestre! O Chico trepara sobre os ombros do Jack, ficando ao alcance das telhas. Já se viam os ninhos, habilidosamente forrados com palhas e as finas penas. Ficavam extasiados com a visão. Quando menos esperavam, as mãos despreenderam-se das telhas mal cimentadas e o grupo veio parar ao chão. Houve feridos e muitos cacos espalhados pela rua. Tomados de medo, fugimos sem sabermos para onde ir...É a sensação que tenho neste momento, ao sentir as mãos do papai sovarem-me sem dó nem piedade, quando o mestre lhe apresentava uma queixa do filho. Só que, agora, a mesma mão estava fria e morta...
O corpo de Nhô Djonzinho, embrulhado num lençol da enfermaria, com as letras RMC, foi levado numa padiola para a senzala, no meio das guisas e dos gritos. O vento assobiava baixinho nas folhas das palmeiras do caminho, querendo imitar as melódicas notas que o rabequista tirava do seu instrumento, ao cair das noitinhas. Após o velório, o cortejo seguiu para o cemitério, através de uma estreita picada de lama encarnada a mesma terra que iria enriquecer-se com o corpo daquele singular homem um outro Chic’Ana, vindo de tão longe para ficar, para sempre, na TERRA LONGE, sem padre, sem a poeira da estrada do Lombinho, sem a praga dos gafanhotos saltitantes com que Toni e a irmã Nina brincavam, a caminho do Norte.
Nhô Djonzinho fora a enterrar!
Foi num domingo, dia de descanso. Muitos contratados acompanharam-no à sua última morada à Terra da Saudade como ele bem dizia. Não foi fácil abrir a sua cova, naquela terra enlameada e cheia de grossas raízes. As picaretas e as enxadas saltavam das mãos molhadas dos cavadores, seus amigos. As raízes das árvores, quais cabeleiras das sereias, dificultavam a tarefa. Uma branca seiva brotava das árvores feridas. As bananeiras e os ínhames, mesmo ao lado, tapavam o sol deixando passar uma ténue claridade esverdeada, tornando mais tristonhas as amarguradas faces das pobres gentes da roça. O corpo do ancião desceu à terra, que não era a sua...
Adeus, Nhô Djonzinho! gritaram e choraram numa guisa pegada.
Aqui termina a história desse homem, começada no Norte, quando, debaixo de uma purgueira de estimação, os seus ossos lhe diziam que não haveria mais chuva para a sua terra. Nhá Sabina, agarrada a um tronco de jaqueira, como se do corpo do marido se tratasse, chorava sem parar. As lágrimas misturavam-se na sua face com as gotas do cacimbo, pingando das largas folhas das bananeiras sobranceiras à cova, rolando sobre a sua blusa preta, ainda hirta com a goma de fábrica a blusa comprada na Casa Neves ”para poder desembarcar em São Tomé como gente” como ela afirmava...! Nhô Lela, encostado a uma alta papaeira, filosofava, como de costume:
O que está escrito tem muita força! Destino é para se cumprir e não podemos enganá-lo! Persegue-nos, como a nossa sombra do meio-dia...
Antes de lançarem a terra encarnada e enlameada sobre o corpo do defunto, Nhô Lela limpou as lágrimas dos olhos, pegou na rabeca de Nhô Djonzinho e tocou, pela última vez:
“...Quem mostrôbe
esse caminho longe
caminho p’a Santomé,
Sôdade,
sôdade de nhá terra
Sanicolau...”
Em seguida, e quando ninguém esperava pelo seu gesto de amizade, Nhô Lela seu amigo de peito desceu à cova e, cuidadosamente, acomodou a rabeca e o arco ao lado do corpo de Nhô Djonzinho aquele corpo que a terra iria comer e destruir para sempre. Alguns ramos de buganvilas roxas e brancas e de outras flores silvestres, que ele tanto gostava de apanhar pelo caminho para a mulher Sabina, ficaram a enfeitar o local. Depois, cada um seguiu para a sua senzala, de cabeça baixa, pensando na próxima vítima... Nhô Lela ouvia o mar enfurecido lá longe, batendo nas fragas da Costa Norte, como quando iam à pesca das moreias pintadas ou dos negros bodiões, ”para um caldinho de peixe malaguetado”. Pelo caminho, e já de regresso, para afastar as tristezas da vida, veio assobiando, muito baixinho:
CAMINHO LONGE,
CAMINHO PARA S. TOMÉ
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III PARTE - Romance em S. Tomé
CAPÍTULO 1
O tempo na roça foi passando e o rapazinho Toni cada vez mais crescido. Quando havia festa em casa do gerente lá ia ele espreitar por entre as altas roseiras e viçosas dálias do jardim bem cuidado, cujo pólen causava-lhe valentes ataques de asma com espirros. Nesse dia, a festa era em honra a um ilustre visitante, gente branca muito importante do Governo, vinda da cidade para observar a vida dos contratados na roça. Toni sabia que se tratava de pessoa importante pela conversa havida com o enfermeiro angolano, seu amigo de verdade e que recebera rigorosas instruções para ter a Enfermaria limpinha e com poucos doentes acamados. Toni observava as pessoas no interior do salão ou bebericando na larga varanda da residência de traça colonial. Era a mesma gente que já vira nos salões do Borba, à volta das brancas toalhas e brilhantes copos de cristal. Fumavam, bebiam, conversavam como se o Mundo fosse só deles e que nunca prestariam contas ao seu Criador. Uma revolta surda atassalhava a sua alma, mormente naquele dia em que o pai faria anos se fosse vivo! Um dezanove de Agosto do ano de mil novecentos e cinquenta e três. Enquanto seguia os movimentos das pessoas no interior salão, bem escondido por entre os ramos espinhosos dos roseirais floridos, pensava nos contratados que, àquela hora, ainda pisavam as sementes de cacau nos terreiros, aproveitando as últimas réstias de um Sol moribundo, ou ainda partindo cocos para extrair as sementes do cacau, cujo mel lambuzava-lhes as mãos e aos pés com a persistente cola. Entretanto, Toni via aquelas personalidades circulando pela varanda bem iluminada da mansão e pensava que, quando morressem, não seriam enterradas como o pai, embrulhadas num lençol carimbado com o logotipo da roça (RMC) e sem um caixão, mesmo que fosse o da Casa das Tumbas, como em São Nicolau. A figura do catequista veio-lhe à mente e interrogava-se:
Onde estará esse tal Nossenhor que alaga de água a terra de São Tomé e faz morrer de sede as pobres criaturas da minha terra, seus filhos também?! Existirá? Tenho cada vez mais dúvidas...
As inquietantes interrogações continuavam a verrumar o cérebro daquele pobre rapazinho...Até quando?
Absorto na sua cogitação, nem sequer deu pela presença da figura de uma bonita moça, batendo-lhe nos ombros e falando-lhe com uma voz baixa mas autoritária:
Que fazes aqui, menino da roça, tão bem escondido no roseiral do meu jardim e ainda mais a espreitar para dentro da casa dos outros – coisa feia!
Toni, apanhado de surpresa, não fugiu, procurando justificar-se:
Sabe, menina...! Eu... eu...
Diga lá, rapaz!
Eu vim colher umas rosas brancas, das que ele gostava, para colocar na cova do meu papai...
Quem é teu pai e quando faleceu?
Faz hoje um ano...
Se é assim, então está bem, mas da próxima vez é melhor tu falares ao Edmundo o jardineiro da casa. Está bem? Edmundo é aquele velhote de barbas brancas que passa todo o santo dia a podar a relva do jardim ou de mangueira rota nas mãos.
No dia seguinte, Toni contou ao enfermeiro a conversa havia com a moça, enquanto fazia os curativos da manhã no posto.
Sabes quem é ela, meu rapaz?
Não! Talvez a filha de um daqueles senhores da cidade que andavam lá dentro a conversar e a bebericar na varanda da casa do gerente da roça!
Pois é, rapaz, apenas e só, filha única do patrão da roça! Anda a estudar na cidade e, de vez em quando, vem passar as férias na roça, apanhar bons ares da mata. Chama-se Zélia Maria, mas é conhecida lá em casa pela Zélinha das tranças pretas...
A figura da menina ficara gravada na mente do Toni. A sua voz ríspida e carinhosa não lhe saía dos ouvidos.
Dias depois, estando Toni de serviço ao Posto, apareceu a mesma moça, com um dedo a sangrar coisa feita na poda de uma roseira tarefa do senhor Edmundo mas que ela quis experimentar, saindo-se mal com a tesoura. Toni fez-lhe o curativo ao dedo, usando água oxigenada e tintura de iodo. Depois, atou a ferida com uma ligadura muito branquinha das que reservavam para pessoas importantes dado que, para os contratados - , os lençóis velhos, às tiras, serviam e bem, no dizer do enfermeiro angolano, conforme instruções recebidas!
Ontem, tu não andaste a espreitar para dentro da minha casa não foi? – foi a observação da moçoila bonita e sorridente . Toni não encontrou resposta. Tímido como era, entornou o frasco de tintura de iodo no chão e por pouco sujava o imaculado vestido da menina branca.
Sim! Estava a colher umas rosas para a campa do meu pai, como lhe expliquei. Se meu pai fosse vivo, fazia anos hoje, setenta e nove! Também quis admirar as coisas bonitas que a menina tem na sua casa.
Mas a sua casa não tem dessas coisas?!
Não, menina! Vivo numa senzala com a minha mãe, como todos os outros contratados desta roça que têm família.
Nunca vi de perto uma dessas palhotas!
Senzala!. Se a menina quiser, posso mostrar-lhe a mi-nha por ver como ela é por dentro.
Está bem, um desses dias, antes de findarem as minhas férias de Páscoa...
Na semana seguinte, a Zélinha viu o Toni a conversar com o Raimundo no jardim e quis inteirar-se da conversa, mas sem se expôr demasiadamente:
Olha, Toni (é esse o seu nome, não é?), quando terminar de cortar as flores, gostaria que falasse comigo, na varanda da casa. (Apontara para a larga varanda da mansão, enfeitada de escarlates buganvílias).
Na varanda da sua casa, menina! Posso lá entrar?, não há problema?
Sim, é precisamente o que estou a dizer-lhe, não ouviu?
O jardineiro Raimundo olhou para o Toni, com um ar de desprezo e de espanto e seguiu resmungando alameda acima, enquanto puxava uma rota mangueira, esguichando água para a calçada de pedras brancas dos canteiros. Por entre os dentes amarelados, falava:
Dêm muita confiança a esses caboverdes atrevidos e depois queixem-se!
Senhor Raimundo está a falar comigo? perguntou-lhe a menina, já de saída!
Não, menina! Estava a conversar, como sempre, com as minhas flores e com este rapazinho do posto de socorros...
A Zélinha tinha uma compleição avantajada, não obstante a sua idade não dever ultrapassar os quinze anos. De pele morena e bronzeada pelo sol das praias da cidade, olhos azuis, cabelos pretos e compridos, face pequena e dentes bem feitos, sorria para o Toni. Estudava no liceu da cidade e queria continuar os estudos na metrópole: vir a ser uma médica! Pelo menos, foram essas as informações que o enfermeiro angolano dera ao Toni, numa primeira conversa. O tímido rapaz, de flores nas mãos, subira os muitos degraus da escadaria de acesso à mansão, coisa que nunca fizera, e foi encontrar-se com a menina Zélinha, agora sentada no corrimão de cimento da varanda, com o vestido branco manchado de verde do mato do jardim. O dedo estava atado com a ligadura do posto.
Toni! Posso tratar-te por tu?
Sim, claro, menina...
Fala-me de ti, da tua vida, dos trabalhadores desta roça, pois, como sabes, ando na cidade, longe das fainas do cacau e do café e nada sei...
Toni falou-lhe da fome, da falta de chuva em Cabo Verde e dos motivos que levaram a sua família a embarcar para a ilha, como contratados, a mesma lengalenga contada ao médico goês à chegada na cidade. Zélinha foi ouvindo com atenção o seu interlocutor, continuando sentada numa cadeira de verga pintada e com as botas pretas de montar sobre o tampo da mesa, quase que empurrando para o chão de cimento encarnado uma fruteira de palha, cheia de papaias, mangas, abacates e goiabas cheirosas, frutas que atraíam as moscas e algumas ruídosas abelhas com as suas colmeias nos beirais da varanda, fazendo com que o mel escorresse pelos barrotes de madeira. A mãe da Zélinha dera pela ausência da filha e veio à varanda. De voz mais autoritária que a filha, disparou, sem antes pôr os óculos de ver ao longe:
Com quem estás a falar, Zélinha? Quem é este rapaz?
A Zélinha ficara sentada na mesma cadeira de rota, impávida e serena, olhando para as catatuas que cobriam de branco a araucária e os canteiros do jardim, enfeitados de rosas encarnadas e de cravos amarelos. Ela ouvira, com emoção, a narrativa do Toni, que ficara de pé, não longe da mesa de verga.
Estou a falar contigo, não me ouves, filha? Insistira a mãe...! É essa a educação que estão a dar-te!
Entretanto, o assustadiço Toni despedira-se da moça com um aceno simbólico de mãos e tomara à pressa o caminho do mato adentro. A Zélinha ainda gritou-lhe:
Toni... Toni, não fujas! O resto da nossa conversa fica para amanhã, quando eu for ao posto curar o dedo, está bem?
Toni correu na direitura da senzala e, pelo caminho, foi ar-rancando flores silvestres, para, com mais umas rosas vermelhas que colhera, ir colocar na campa do pai. Na sua cabeça o teor das conversas havidas com a Zélinha, principalmente nas que falavam da exploração do trabalho mal pago de escravos mesmo facto que levara a que muitos países da Europa a não quererem importar o cacau de São Tomé, coisa que aprendera com o enfermeiro, seu amigo, e que lhe dizia, constantemente:
Quando é que o homem deixará de explorar o seu semelhante, só para poder ganhar mais dinheiro! coisa que ninguém leva no caixão!
Toni meditava na frase, por entre os cacaueiros sombrios, carregados de frutos baloiçando ao vento!
CAPÍTULO 2
Os copos e as travessas misturavam-se na farta mesa posta na casa do gerente da roça, em redor da qual se viam ilustres visitantes vindos da cidade para a ceia do Natal. Toni foi espreitar, mais uma vez, agora mais discretamente. O pai da Zélinha encontrava-se à cabeceira da mesa, de fato escuro e gravata encarnada às bolinhas, quando habitualmente, vestia uma balalaica de caqui do tipo colonial. Do outro lado da mesa, um casal de convidados: uma autoridade administrativa e a sua mulher. A Zélina estava em frente da mãe. As janelas que davam para o jardim estavam protegidas por redes-mosquiteiras, mas as conversas ouviam-se, perfeitamente, no silêncio da noite. Falava o gerente e dono da roça, com a voz empastelada pelos whiskys bebidos antes do jantar. O Toni escutava, por entre o roseiral:
Sabe, administrador Carreira, sou natural de Bragança e vim parar a esta terra como capataz digo isso sem desprimor dos meus bons capatazes! Dei no duro para conseguir tudo o que meu amigo e digno representante da Lei e da Grei vê em seu redor: casa, mulher, cacau, gado e os contratados que mandei vir de Cabo Verde coitaditos por acto de caridade e de boa colaboração do Governo Provincial com o Central, de Lisboa, claro está...
O administrador Carreira bebeu um bom gole do refinado tin-to do Dão, limpou a boca a um imaculado guardanapo, fazendo conjunto com a toalha, certamente reservada para ocasiões especiais, para de seguida acrescentar:
Pois é, senhor Silvano! Assim é a vida! Ela faz-se, não nasce feita! Eu, também, caro amigo, não nasci administrador de Concelho. Comecei por baixo, como chefe de posto, até chegar onde estou! Depois da tropa, segui para Angola, coisa difícil naquela época. Era mais fácil Brasil ou Venezuela que as Colónias, como você bem sabe!
Colónias, não, caro amigo! Províncias...
Mas como lhe ia contando, fui para a Angola e colocaram-me numa circunscrição administrativa, lá no coração do mato. Só capim e pretos preguiçosos. Meses depois, era ver o milho, algodão e café, em vez do maldito capim. Nunca mais faltou a comida aos pretos. Até dava para exportar para Luanda e para a metrópole.
A Zélinha, calada, ouvia tudo, reprovando, lá no íntimo o teor das conversas e a palavra preto, preto, a zumbir-lhe nos ouvidos...Gente como nós pensava!
O administrador, no intervalo de uma garfada bem cheia, be-beu mais um golo do bom Dão, servido pelo mainato com todas as regras, não faltando um guardanapo enrolado ao gargalo de vidro verde escuro para não sujar a toalha.
Que saudades da nossa Pátria, meu caro. Boa pinga! Salazar tem razão: Deus, Pátria e Família...A mágica trilogia, o pilar da nossa civilização, a que queremos levar aos outros povos de além-mar...
A esposa do administrador, dona Guilhermina, uma senhora bem nutrida, de face rosada, braços musculosos e pêlos no queixo, retomara a conversa do esposo:
Sabes Cá (assim o tratou), a princípio, as coisas não caminharam tão bem como estás a dizer!
O esposo quase que se engasgara com o reparo da mulher, acto que ele vivamente detestava, mormente proferido em público. Pousou o copo de pé alto sobre a toalha branca, limpou a boca a um guardanapo, que até já caira para o chão mais de uma vez, e rectificou o anteriormente dito:
Sim, tens razão, Gui! Mas foi com uma ajudinha do chicote e de algumas boas palmatoadas dos sipaios, sempre aplicadas com moderação, claro está... E eles entraram nos eixos! O chicotinho de bom couro do Ribatejo, instrumento, que veio da metrópole como recordação, faz mais milagres em África que a recém-descoberta penicilina...
O Toni, escondido no jardim, já sem posição certa, picado pelos mosquitos e com a sua crónica asma apoquentada pelo pólen das flores, ouvia a conversa, no silêncio da noite. Era sobre um assunto do seu interesse, ou apenas quisesse contemplar a Zélinha, sentada à mesa e de cabeça baixa, escutando as baboseiras daqueles adultos!
Agora, foi a vez da dona Guilhermina, ou a dona Gui, falar:
Lembras-te, Ká, daquele sipaio preto o Matias um que era temido pela figura e que até metia medo aos nativos. Pelo que oiço entrou na conversa o gerente da roça aquela vossa gente, “os pretos”, como vocês lá dizem (nós aqui em São Tomé não usamos esse termo feio...), não trabalham e são preguiçosos, não é verdade?
Exactamente, respondeu-lhe a dona Guilhermina com a boca preenchida por um bife, de rijo trincar para uma dentadura posta recentemente e cujas gengivas ainda não estavam calejadas, pois a senhora fora nesse dia ao Posto perguntar-lhe se tinha borato de sódio para gargarejar por causa da nova placa!
Pois é! falou o gerente! Então, quem cultiva o algodão, semea o milho, colhe o café, corta a cana sacarina e serve de mainato a vocês todos? São os brancos...
Um silêncio de enterro...Até os insectos nocturnos ouviam-se na densa mata...
Já era a força do Dão a dar coragem ao gerente, ele que até era uma pessoa tímida e reservada. O administrador Carreira, meio embatucado, coçou a cabeça carente de cabelos, quase entornando o copo de vinho sobre a imaculada toalha, cobrindo a mesa da casa dos anfitriões.
Sim, temos alguns mainatos lá em casa confirmava a dona Guilhermina , mas são pagos, ainda que pouco. Quando pisam o risco, o meu Cá chama o cabo de sipaios e manda aplicar-lhes o devido correctivo, quando não sou eu, a própria, a mandar fazê-lo em seu nome, claro está!
Pois é, mulher! Tens dessas e, qualquer dia, ainda me arranjas um sarilho dos diabos, já te avisei! Olha que as coisas já não são como dantes...
A conversa ficara automaticamente suspensa, quando o mainato veio levantar o segundo prato, para servir a sobremesa.
Dizia o gerente da roça:
Não é recomendável falarmos dessas coisas, estando presente a criadagem; compreendem, pela certa, a minha posição na roça!
A sobremesa fora servida.
Já na varanda para o café, o emigrante de Bragança agitava um balão de vidro cristalino contendo uma aguardente-velha “da minha garrafeira privada”, senhor administrador dizia, com vaidade! A noite estava silenciosa. Apenas os grilos ouviam-se batucando nas fendas dos muros. Algumas aves noctívagas piavam nas ramadas das negras árvores da mata, recortadas num céu prenhe de estrelas brilhantes.
Antes de vir para esta terra prosseguia o gerente fiz de tudo na minha terrinha: guardei rebanhos em Unhais-da-Serra, nos contrafortes da Serra da Estrela, fui caixeiro viajante e até mercearia tive. A coisa ia dando para viver mas, quando os meus primos Basílio e o Fernando deram dinheiro aos passadores e tomaram o rumo de França e da Alemanha, nos anos cinquenta e tais, vi que o meu futuro não estava em Bragança, por entre os penedos de granito, cobertos de neve no inverno e enfeitados de giestas na Primavera...
Que romântico, senhor gerente...
Mais um cálice dessa magnifica bagaceira, senhor administrador?!
Sim, sim, quem consegue ficar indiferente a um néctar dessa categoria e de tão respeitável idade!
Os dois ficaram em amena cavaqueira na varanda, quando Toni já se sentia tolhido pela humidade dos canteiros e pelo adiantado da hora. Retirara-se para a senzala, meditando no que escutara, acto feio mas justificável pela paixão à Zélinha.
Toni, no dia seguinte, contara ao enfermeiro tudo o que escutara e confirmou-lhe a origem humilde do gerente:
Um homem rude, quando chegou à roça. Com apenas a quarta classe, feita para tirar carta de condução e em ensino nocturno, conhecera Lisboa quando embarcou no Pátria, a caminho de São Tomé. Começou a sentir-se importante, logo a bordo do barco ao ser servido por criados fardados de branco. Aí, tomara consciência de que o simples facto de ter saído de Portugal lhe conferia um status de pessoa importante “a meter a sua lança em África” - como dizia o capataz Lourenço - que com ele viajara. Ele e muitos ainda assim pensavam, erradamente!
Na ceia do Natal, o Toni, mais uma vez, foi espreitar para dentro da casa do gerente, do mesmo local do jardim. A Zélinha estava sentada ao lado da mãe. Os visitantes eram outros e as conversas agora giravam à volta do preço da copra, do óleo de palma, da baixa de cotação do cacau no mercado europeu, do próximo barco a chegar ao porto e da situação política na metrópole coisa também do seu interesse. A Zélinha mastigava sem vontade de engolir a comida, talvez recordando-se das conversas com o Toni sobre os povos a morriam de fome e ela, menina rica, com uma mesa farta à sua frente. Pensaria, quiçá, no Toni, um contratado vindo para São Tomé para não lhe fincarem uma cruz, como fizeram a tantos colegas da escola. Certamente, ela dera conta das desigualdades que campeavam por esse Mundo fora, e que o Sol não nascia para todos. Ela, filha única, mimada, de enxoval pronto no baú de sândalo, a estudar no Liceu da cidade e sem vontade de comer, e milhares, quiçá, milhões de crianças famintas, essas sim, sem uma única refeição ao findar de cada dia...
Não comes, Zélinha? Gritara-lhe a mãe, em tom ríspido!
Não, mamãe, estava a pensar noutras coisas mais importantes desta vida!
Que coisas?
Nada!
Da janela da sala de jantar, ela via as várias fogueiras acesas nas senzalas. Pousou a colher de sobremesa e, com os olhos marejados de lágrimas, jurara a si mesmo, a partir daquele instante, passar a interessar-se mais pelos problemas daquela pobre gente da roça, que, afinal, trabalhava para os pais, para ela e para a sociedade consumidora. Lá fora, as gotas do cacimbo tamborilavam nos vasos de lírios floridos de branco, marginando a escadaria de pedra lavrada.
A partir desse dia, quando a Zélinha vinha de férias à roça percorria as picadas, para conhecer de perto essas singulares árvores que davam frutos no tronco e as pessoas que cuidavam delas. Pisava a fofas folhas, cobrindo um chão sempre humido e conversava com os contratados. Quando o sol ficava alto e uma neblina subia do emaranhado dos troncos dos cacaueiros, a menina das tranças, como era conhecida, regressava à casa, passando pelos terreiros de secagem, locais de descasque do coco e de extracção dos óleos. Toni encarregara-se de espalhar, a quatro ventos, a bondade da menina que queria ver in loco, todos os trabalhadores e os trabalhos da roça do pai. Dizia o rapaz ao amigo Zé da Luz:
- Ela sim, é uma boa menina! Há dias, andando a cavalo, viu uma contratada transportando uma pesada saca de cacau e com um filho pequeno ao colo e prontificou-se a levar a carga no cavalo, seguindo a pé a conversar com a mãe; até disse-lhe que gostaria de ser a madrinha do garotinho. A Bia de Guida, quando deixou a moça no terreiro, nem queria acreditar no que ouvira. A menina fora a primeira pessoa na vida a falar-
-lhe naquela roça,”de mulher para mulher”...
Um outro dia contava o Toni a Zélinha passou por um contratado que tentava cortar um tronco seco com uma catana mal afiada. A rudimentar ferramenta só retirava uma lasquinha de madeira de cada vez. Ela parou o cavalo, apeou-se e foi ver o trabalho desse homem de rosto alagado em suor. Depois de conversar com ele, prometeu-lhe mandar para o local mais um auxiliar, munido de serra-mecânica e até disse-lhe adeus com as mãos... Montada no seu cavalo negro, fungando pelas narinas à cadência dos passos, a Zélinha foi percorrendo os trilhos da roça, observando com os seus próprios olhos a dura vida dos contratados, criando riqueza para o pai, naquelas inóspitas matas de São Tomé: gentes de Cabo Verde, de Angola e até de Moçambique...
Como era tão diferente a vida na cidade! exclamava: e eu, de livros debaixo dos braços, a caminho do liceu, sem preocupações, consumindo um precioso tempo em futilidades, em vez algo fazer para o bem do meu semelhante, esse sim, desprotegido da sorte...
Enquanto o cavalo ia pisando as fofas folhas caídas dos cacaueiros, ela ia pensando, em voz alta:
Sim, pertenço a uma casta, a palavra é dura, casta, nacida naturalmente diferente, natural como a própria Natureza, não precisando de nenhum esforço para que a vida me escancare as portas da felicidade...Mas, os outros? Os trabalhadores das roças? Esses não terão os mesmos direitos que eu?! Não estarei a ficar tomada pela leitura de um livro sobre o socialismo, um que o Toni me esprestou, retirado da estante do enfermeiro angolano?
Um bando de coloridos e ruídosos pássaros voou, em deban-dada. Por momentos, a Zélinha perdera o fio da corrente do seu pensamento.
Quero continuar os meus estudos e, como médica, vir ajudar essa gente,quiçá médica da AMI e vir auxiliar essa gente perdida no interior destas roças.
Ao entrar no terreiro, os cascos ferrados do cavalo chamaram a atenção do Toni, sentado à entrada, num muro de cimento. O rapaz levantou-se e cumprimentou a menina, com um acenar tímido das mãos. O cavalo parára; escorria uma espuma branca pelas barbeleiras das rédeas de um couro ainda a cheirar a novo. A menina trazia umas calças de montar de cor clara, botas de couro preto e esporas de aço brilhante. Nas delicadas mãos de estudante, umas luvas e um chicotinho do pai. A blusa de seda encarnada, já estreita para a sua idade, deixava os seus seios mais empinados que o habitual. Toni observava-os, com um rabo de olho. Um lenço amarelo, atado ao pescoço numa complicação de nós, completava a sua peculiar indumentária, própria de uma fidalga abastada e livre. Toni olhava-a, sem coragem de o fazer de frente e em público, ainda mais num terreiro de secagem do cacau, com muita gente à volta e os olhos postos nele, um olhar de escravo rendido aos encantos da dona e senhora...
Ela foi a primeira a falar-lhe:
Toni, sabes montar a cavalo?
O rapaz olhou para os lados, para depois lhe responder:
Montar a cavalo? não! Só cheguei a andar de burro. Na minha terra, só a gente branca é que anda a cavalo: nhô Maninho de Capitão, Nhô Luís enfermeiro e algum americano de visita à família. Gostava, sim, de ver as corridas na Estância, durante as festas de São Pedro; a largada fazia-se do Terreiro, passando pela Ponte e dando uma volta ao Lombinho, pelo caminho de cima. Os fugosos cavalos arrancavam, desabridamente; o ruído dos cascos nas pedras das ruas ouvia-se nas empenas das casas nobres do Largo, desaparecendo os cavalos e os cavaleiros na poeirada do caminho do Lombinho!
A Zélinha falou-lhe:
Cá, não se festejam os Santos Populares, mas meu pai disse-me que na metrópole até fazem desfiles pela Avenida da Liberdade, com prémios para os melhores grupos dos Bairros de Lisboa...Também há festas em Alfama, Mouraria, Bairro Alto e outros locais.
Entretanto, Toni, segurando o cansado cavalo pelas rédeas, como verdadeiro pagem, continuava a falar das festas da sua terra, não tirando os olhos da blusa e da menina:
O senhor Luís, aquele enfermeiro que tentou salvar a minha irmã Nina, como já lhe contei uma vez, era um dos ganhadores das corridas e outras vezes, Nhô Maninho de Capitão. Na véspera das festas, faziam-se as luminárias na Pandulha, com folhas de bananeiras e palhas. Nós meninos e os adultos saltávamos sobre as fogueiras, enquanto os tambo-res repicavam o Colá São Pedro...
A Zélinha não mostrava sinais de impaciência, embora não receasse ser vista a dar muita trela a um contratado da roça, ainda que perto do terreiro de secagem do cacau.
O que é isso de Colá São Pedro?
Colá São Pedro?! Bem! Era uma dança entre homens e mulheres do povo, em que havia um contacto físico (colá) de ancas e barrigas, ao rufar rítmico dos tambores. O barulho e um cheiro a fumo inundavam o Largo da Pandulha, onde os circunstantes, sentados nos muros, batiam palmas, divertindo-
-se com o lado erótico da dança. Nos últimos tempos acrescentara o Toni as autoridades proíbiram “essas manifestações de raízes africanistas, portanto, imorais e contrárias aos usos, bons costumes e tradição religiosa de uma terra civilizada” palavras de um administrador do Concelho, muito conservador. A menina, de face corada pelo calor vindo dos cacaueiros ou pelo tom picante da narrativa do Toni, despediu-se dele, puxando pelas rédeas do cavalo preto e desaparecendo por entre as ramadas das árvores do caminho, que só deixavam passar uma ténue claridade esverdeada, filtrada de um sol a pino.
CAPÍTULO 3
Chegara o dia de Nhá Sabina receber o seu salário. Vestida de preto fino, comparecera no escritório onde fora chamada, para o “acerto de contas”. O guarda-livros, mais uma vez, esticou os braços e retirou o maldito livro de lombada negra, pousado sobre o cofre preto monobloco, ao lado da janela que dava para o terreiro de secagem. Muniu-se de lápis e máquina de calcular à manivela e, coçando a cabeça, fez-lhe as contas:
Você levantou da cantina tanto, queria eu dizer o seu falecido esposo e descontando todas as dívidas, o que resta está neste sobrescrito. Confira o dinheiro, se faz favor!
Nhá Sabina não sabia escrever, mormente entender as complicadas contas do guarda-livros. À entrada, o Toni esperava a mãe; contou as poucas notas e algumas moedas, somando a rídicula quantia de duzentos e trinta e oito mil reis.
Toni? Este dinheiro vamos guardá-lo, para, mais tarde, com mais algum, reconstruírmos a casinha do teu pai, no Norte. Esse dia chegará, tenho fé em Nossenhor!...
Para o ano afirmara Toni se Nossenhor, o Pai de todas as Criaturas viventes na Terra, assim o entender...
A Zélinha pedira à mãe para que Nhá Sabina viesse servir em casa como criada, em vez de andar no mato acarretando as pesadas sacas de cacau, debaixo de sol e chuva. Sabia, por intermédio do Toni, que ela aprendera no Colégio das Madres no Caleijão alguns trabalhos domésticos: costurar, engomar as camisas brancas com goma de mandioca, cozinhar e servir à mesa com todas as regras, coisas dos ingleses. A mãe da rapariga achara a ideia boa, pois os criados locais eram muito preguiçosos e ela passava todo o santo dia atrás deles para que fizessem algo de jeito, além do fumar e conversar sobre a vida dos outros. Falando à varanda para a Zélinha, numa manhã de sol, sobre a preguiça da criadagem nativa e da vida pacata da roça:
Sabes, filha, O Beto, um filho de um angola, que está cá desde que nasceu é quem engoma as fardas do teu pai, com um ferro de galo, a carvão, mas passa o dia no alpendre do quintal espreitando o que se passa no terreiro, através dos buracos do muro. Quanto ao teu pai, ele mete-se no escritório todo o dia, e só de lá sai para dar uma olhadela à roça ou à cantina ou para vir à casa de banho. Muitas vezes fica lá por entre livros e cartas, até altas horas da noite, preparando os relatórios para enviar para o Escritório de Lisboa. Toda essa lengalenga, para te dizer que Nhá Sabina pode vir para cá amanhã e até me vai fazer companhia na solidão sufocante desta maldita mata de cacau...!
A menina também não gostava de passar as férias no mato, mas tinha de cumprir a vontade do pai. A única coisa boa da roça era poder ficar sentada à varanda, com os pés sobre a mesa de verga, lendo os seus bons livros horas a fio, respirando o ar perfumado dos roseirais do jardim e, ultimamente, poder conversar com o Toni. À noite, era uma estranha melancolia que a estrangulava, no seio daquelas matas de cacau e de café; as formigas de asas e as borboletas voejavam em círculos em redor das lâmpadas do tecto para, depois de exaustas, largarem as brilhantes asas no cimento encarnado das varandas...Tudo era motivo de distracção...
Falando ao Toni, à varanda:
Apenas conversar contigo, meu rapaz, me ajuda a matar esse maldito tempo infinito. Não te esqueças de avisar à tua mãe que ela pode começar a trabalhar amanhã, de manhã...
Toni, sempre que tinha alguma folga, ia à estante do enfer-meiro conhecer um pouco mais a história das roças e de São Tomé. Assim lia no livro:
“...Na praia, o Esteves foi deparar com um estranho rebuliço. Afinal, não se tratava de uma visita de cortesia, mas sim de missão oficial, árdua e ingrata. O sargento da marinha, europeu, com meia dúzia de marinheiros nativos, estavam empenhados em difícil tarefa. Nada mais, nada menos, que cobrar a taxa das canoas encostadas à praia. Os proprietários, angolares, nunca tinham pago licença, nem ouvido falar em tal coisa. Assim, recebiam a autoridade com gritos de indignação. O administrador logo que foi posto ao corrente do caso, prontificou-se a pagar as licenças das embarcações da roça”.
“ Quanto às outras, a maioria, não era com ele, pertenciam aos homens da aldeia, que nem sequer eram trabalhadores da roça, senão eventualmente.
- Isto é chatice, uma tarefa ingrata como o Diabo!
- Essa gente nunca ouviu falar no imposto de canoa, nem tem os cento e vinte escudos para pagar. Resultado, segundo as ordens que tenho, levo as canoas para a cidade...”
“ - Nunca ouvi falar nesse imposto! estranhou Soares.
- Pois é, ninguém pagava, mas o novo capitão de porto, rapaz novo, de sangue na guelra, quer botar figura, endireitar o mundo. Começamos há pouco a campanha e quem não paga o imposto fica sem a canoa, levada pela capitania com um prazo curto para resgate, pagando a multa...”
Infelizmente, essa gente é tão imprevidente, que acaba sempre por ficar sem a canoa. Já há centenas de canoas na capitania a apodrecer, outras centenas foram rachadas, expirado o prazo. Esse capitão entrou na história com o cognome de racha-canoas!- observou o Soares. A canoa é o único meio de subsistência dessa gente...” (*)
(*) Tratava-se do já citado livro:
“As Mulatinhas, pg.122”
CAPÍTULO 4
A Zélinha regressara à cidade, após as férias do Natal e deixara alguns livros ao Toni, compêndios já usados no liceu em anos anteriores, para ele poder estudar e fazer o segundo ano, como era seu intento e desejo dela. O rapaz, entusiasmado, metera-se à obra e o enfermeiro oferecera-se para o ajudar no que estivesse ao seu alcance. Os livros eram preciosos para ele, mormente naquele desterro da roça. Quando o dia chegava ao fim, recolhia-se à senzala e, à luz mortiça de uma lamparina a petróleo, folheava-os com todo o interesse, página a página. Os compêndios eram lindos e bem encadernados. Neles podia aprender coisas maravilhosas deste mundo e contemplar as lindas gravuras a cores, estampadas nas suas folhas. Num deles, A Terra e a Vida, viam-se os rios, as ribeiras, os montes e os vales ocupando folhas inteiras bem coloridas. Foi nesse ambiente calmo da mata, sacudindo os mosquitos atraídos pela luz e ouvindo os grilos batucar no escuro mais o piar das corujas nos buracos dos troncos podres das árvores que Toni estudava. Queria fazer, embora tardiamente, o liceu e vir a ser uma pessoa instruída e culta, útil ao seu semelhante! O corpo humano era das matérias mais do seu agrado, pois lidava, diariamente, com doentes e feridos.
Afinal dizia-lhe o enfermeiro Deus escreve direito por linhas tortas; se não tivesse havido fome nas terras do Norte de São Nicolau, não estarias tu a estudar aqui, neste momento!
Ele devia escrever direito por linhas direitas, evitando-se uma perda inútil de tempo, não acha, senhor enfermeiro?
O seu pensar foi interrompido por uma agitação, à porta da Enfermaria. Numa maca, um contratado caído de um coqueiro, com uma perna partida. Correu para o Posto para ajudar o enfermeiro na colocação da tala e do gesso.
Nas roças, sentia-se a vigilância apertada da PIDE, que se infiltrara no meio dos contratados. Os caboverdes eram os mais visados, pois falava-se de certos movimentos para “subverter as gentes da Guiné e de Cabo Verde”. Contavam os angolas, que, em Angola, trabalhavam no café, algodão e cana de açúcar para os patrões e que um grupo já se revoltara contra as autoridades. Foram todos presos e deportados para as malditas roças de São Tomé...
Um grito veio da Enfermaria. Toni, sentado na escadaria a conversar com alguns colegas sobre a política, foi ver o que se passava.
Mais um! dizia o enfermeiro! levado pela fatal biliosa!
Um feitor, que vinha a passar, atraído pelo rebuliço, foi ver. Trazia a balalaica manchada de suor nos sovacos, o capacete colonial nas mãos e deu ordens expressas para que o corpo fosse levado para a senzala, como já era hábito. Depois, retomou o caminho que trazia, na direitura do escritório, mesmo ao lado da Enfermaria.
O Zé da Luz, um rapaz da Ladeira, chegara ao Posto para apanhar uma injecção contra a prolongada febre, trazida no corpo havia uma quinzena. Estava magro, amarelado como as folhas velhas e doentes das árvores de fruta-pão no dizer do Toni. Na terra, era muito conhecido como sendo um aluno aplicado, dotado de inteligência viva e prática, aparecendo na escola com invenções simples, deixando a todos os colegas espantados. Fizera a quarta classe com distinção, mas a família não dispunha de posses e assim não frequentou o liceu em São Vicente. Deu o nome para as roças de São Tomé. Para as Divinas, mostrava-se um perito em balões e lanternas de papel de seda. Tocava cavaquinho, sentado no muro do quintal da sua casa e fazia música para os grupos carnavalescos. Dava gosto vê-lo, fardado, na cabine de comando de um barco alegórico de paus de carrapata, bocados de cartão e sacas de serapilheira caiadas de branco. Navegava pelas vielas da Estância como se estivesse em pleno Oceano, e até dos canudos do seu vapor saíam fumos da queima das bostas das vacas, trazidas dos campos. Os canhões de combate, feitos com os caules das bananeiras, disparavam tiros de imaginação... Era esse o Zé da Luz quem subia a escadaria do Posto, agarrado ao corrimão de madeira apodrecida, para apanhar uma injecção de quinina contra as febres ruins que minavam as entranhas do seu corpo. O enfermeiro aconselhara-o a ficar na Enfermaria, numa cama que acabara de vagar. O Toni, seu amigo, vinha vê-lo, dando-lhe alguns comprimidos encarnados de vitaminas, às escondidas do enfermeiro comprimidos que retirava de um armário esmaltado. O Zé era um rapaz da Estância e o Toni de Fora-da-Estância, do campo, como dizia, mas entendiam-se muito bem por serem patrícios. O enfermo permaneceu poucos dias na Enfermaria. As intruções eram no sentido dos doentes permanecerem o menos tempo possível em regime de internamento “pois o cacau não podia ficar na mata à mercê dos macacos selvagens” no dizer do capataz Silvério Santos.
Sabes, Zé, vou-te dar alta, hoje mesmo?
Toni, agorinha mesmo, eu estava a pensar numa coisa!
Fala, Zé!
Pela minha cabeça fraca e bulida pela febre, vejo a festa de Santa Cruz, que tinha lugar em Maio, lá na nossa terra. Aquela festa em que todas as cruzes ficavam enfeitadas com ramos de buganvilas e de outras flores bravias.
Mas também havia a comida dos anjos: molho com carne de capado, mandioca e banana para a meninada da zona, acrescentara o Toni!
Dava gosto ver os meninos pela Ladeira, de pratos de esmalte nas mãos, tocando verdadeiras sinfonias com as colheres de alumínio! Aquela vaca, amarrada ao pé do tamarindeiro ou ao lado do Matadouro, indicava carne para o dia de festa. Um panelão, apoiado em três pedras, fervia debaixo do tamarindeiro da Irmandade, cozinhando o molho para todas as crianças.
O enfermeiro entrou.
E em Angola, senhor enfermeiro, não fazem a festa das cruzes? era a fala do Zé da Luz.
Não! Na minha boa terra de Angola só há batuques, e, mesmo esses, são feitos à revelia das autoridades, que sufocam todas as manifestações da cultura autóctone, preferindo ensinar nas escolas o Vira do Minho, mais civilizado e genuinamente português (na óptica deles, claro)! Para as autoridades administrativas, o folclore indígena tem o mesmo tratamento dos feitiços e das bruxarias, que só servem para “quebrar as tão preciosas forças de trabalho dos patrões” no dizer de um chefe de posto, meu amigo.
Toni fez sinal ao enfermeiro, dando-lhe a entender que um contratado, sentado ao pé, andava de ouvidos no ar e podia ser informador da Pide.
Metade do contrato estava cumprido. O Zé já sonhava com o regresso. Pensava naquele dia em que fosse possível sacudir das solas das suas sandálias todos os grãos de areia daquela terra e subir para bordo de um vapor qualquer, deixando a maldita ilha de São Tomé. As notícias recebidas da terra falavam de chuvas miúdinhas que caíam nos sítios altos e nem sequer davam para a floração dos feijoeiros. A Ladeira da Igreja já tinha as carrapatas floridas. O Zé, dirigindo-se ao enfermeiro angolano:
Vocês, em Angola, não festejam o São Pedrinho?
Que eu saiba, não! Até porque São Pedro não teve nenhum filho! Mas, explica-me essa coisa, Zé!
O Zé continuava a conversar com o enfermeiro da roça:
No dia de São Pedrinho um domingo após a festa de São Pedro , toda a gente da Estância (só ficavam em casa os velhos e os doentes) dirigia-se Maiama abaixo, a caminho da Prainha, tropeçando-se nos cascalhos da seca ribeira. À cabeça, algumas mulheres levavam tabuleiros de madeira contendo cuscuz, fongo, rebuçados de leite, doces de coco e outras iguarias mais. A praia tinha pouca areia, não como as de cá, com muita pedra, além de um mar quase sempre bruto. As ondas vinham explodir nos rochedos, desfazendo-se em espuma e vapor que enchiam o céu de nuvens baixas. Poucos os valentões que se aventuravam em nadar naquele mar tão ruim. Volta e meia, lá ia um para o mar largo, arrastado pelas correntes. O corpo, dias depois, dava à praia do Curral Velho, quando dava, claro! Como era diferente a ilha de S. Tomé, senhor enfermeiro. Mar manso, coqueiros curvados sobre as praias e um verde sem fim! Diziam que, mais a Norte, havia uma outra ilha, mais pequena a do Príncipe rodeada de vegetação luxuriante e com muitas cascatas de água, como a do Monte Fora, na minha ilha...
Nas horas vagas, o Zé entregava-se ao duro trabalho de serrar um tronco de boa madeira, abandonado numa ravina. O capataz autorizara a cortá-lo, “era menos um obstáculo a atrapalhar os contratados, transportando sacas de café e de cacau às costas para os terreiros” como dizia o Gilberto. Com uma catana o Zé já desbastara as cascas podres, os fungos e os cogumelos agarrados ao tronco, faltando ainda a parte mais importante e difícil, que era o meter a serra naquele duro e resinoso tronco molhado e fazê-lo em tábuas. Com a madeira, queria construir alguns caixotes, para com as tábuas fazer mesas, cadeiras e outras coisas para a sua casa na Ladeira, quando regressasse. A serra rasgava o duro lenho e um cheiro forte a resina ficava no ar. Zé enxugava o suor pingando da sua testa escura. Nos momentos de desânimo, abandonava a maldita ferramenta quente, ficando a contemplar os cogumelos gigantes que nasciam nos buracos dos troncos apodrecidos pela humidade do mato. Afinal, eram os mesmos cogumelos que vira na Mina, nos dias de chuva, com os quais a meninada brincava e chamava de chapéus-de-futecêras e que, quando atingidos pelas pedradas, a caminho das escolas, deixavam escapar uma nuvem de pó acastanhado.Os mais velhos diziam tratar-se do pó das feiticeiras, que cegava as pessoas...
A vida do Zé repartia-se entre a apanha do cacau e a faina de serrar o tronco para tábuas. Certo dia, teve uma visita do Toni, que vinha muito satisfeito e com novidades...
Sabes, Zé, recebi uma carta da Zélinha, da cidade!
Mas tu não tens medo de receber cartas da filha do nosso patrão, seu atrevido de uma figa?
Toni trazia roupa domingueira: calças de ganga azul, camisa de xadrez comprada na cantina e um boné branco de pala, com o anúncio de um laboratório de medicamentos.
Olha, se o capataz Zeferino souber, vai meter tudo nos ouvidos do contabilista que, pela certa, vai contar ao gerente...
Quero lá saber! Apenas sou amigo da Zélinha e nada mais...
É o que tu dizes... Não te esqueças que és um simples trabalhador da roça e de cor, meu rapaz!. A menina é rica, branca e prendada. Conselho do teu amigo! Afasta-te dela......
Sabes, Zé, a menina é que meteu conversa comigo, depois de me apanhar escondido no jardim, a espreitar para dentro da casa dos pais. De resto, ela interessou-se pela vida dos contratados da roça e só a essa sua atitude já é muito positiva, não achas?
Não sei, rapaz! Veja lá até aonde te leva o atrevimento!
Chegados à senzala, pousaram as tábuas no chão junto à jaqueira grande, local onde o Zé construia os caixotes.
Toni, nas suas folgas, sentava-se à sombra da velha jaqueira do quintal e aí devorava todas as matérias dos compêndios, encostado ao recurvado tronco da árvore, que vira passar gerações e mais gerações de contratados analfabetos, a caminho dos terreiros da roça e sem vontade de vencerem a vida!
Não vou ser mais um deles, não! Vou fazer boa figura no liceu, quando chegar à cidade!
Quando soava o sino do fim do dia de trabalho, metia os livros numa sacola de serapilheira e, antes de ir para a casa, passava pela Enfermaria. Aos domingos, conversava com o Zé, no fundo da ravina, sempre de serra nas mãos. Era hora em que os crentes enchiam a capelinha da roça, ouvindo as palavras de conforto do pároco: “Bem aventurados os pobres, porque deles será o Reino dos Céus...” Enquanto limpava o suor do rosto, recordava-se dos amigos falecidos na roça. Por momentos, deixou a serra e trepou colina acima, donde se avistava o cemitério. As modestas cruzes mal sobressaíam do alto capim ondulante. À esquerda um muro coberto de musgos, a cova de Nhô Djonzinho e, à direita da capelinha, a cova de Néné de Nhá Zinha e de mais contratados...
A vida é assim! Oxalá eu não fique por cá, entre eles...
Vira para lá essa boca, Zé! disse-lhe o Toni, a poucos passos dele, olhando para a campa do pai.
Sabes, Toni, ainda tenho bem vivo na minha memória, o teu saudoso pai o meu grande companheiro das tocatinas! Enfim, quis o destino que ele viesse adubar esta maldita terra longe de São Tomé! Desculpa-me essa maneira dura de falar!
Nhá Sabina ia dando conta dos trabalhos em casa da mãe da Zélinha que, às vezes, perguntava pelo filho Toni. Chegara-lhe
aos ouvidos um zumzum, mas a coisa era tão descabida que nem dera trela ao denunciante, se bem que não via com bons olhos a amizade entre a filha e aquele rapazinho de cor, auxiliar no posto de socorros.
Sim! falava a uma amiga: há rapazes, filhos de boas famílias, donos de roças e com lojas na cidade, com quem ela pode bem namorar e nunca me passa pela cabeça que a minha filha sequer venha a olhar de maneira mais especial para esse mulato verdeano, embora eu não seja racista, claro está!
Falando com a Sabina, dias depois:
Sabe que da última vez que estive em Lisboa fiquei impressionado ao ver esses verdeanos (desculpa-me lá, os seus patrícios) recolhendo o lixo da cidade, pendurados nos camiões da Câmara.
Mas, patroa, só são os meus patrícios que recolhem o lixo das cidades?
Às vezes, vê-se um branco, mas como motorista!
A conversa fora interrompida com a entrada do patrão, roçando as suas pesadas botas no chão de cimento encarnado, recém-encerado.
Sabes, mulher, o enfermeiro resolveu adoecer e as camas da Enfermaria estão esgotadas. Parece que esta leva de contratados de Cabo Verde de nada vale, gente fraca, sem forças para trabalhar e com muitas doenças no corpo. Não sei o que vou fazer, mulher! A mão de obra começa a faltar e a safra deste ano não pode ficar nas ramadas para os macacos ou a apodrecer no chão para os bichos...
A mulher, com a sua sábia experiência, disse-lhe:
Manda vir um substituto da cidade...
Se as coisas continuarem desse jeito, as nossas férias na metrópole estão mesmo comprometidas, e, quiçá, os estudos da Zélinha, com a besteira que ela tem na cabeça, dizendo que quer ir acabar o liceu em Lisboa e entrar para a Faculdade.
A esposa, remexendo-se na cadeira de verga, mesmo na pre-sença de Nhá Sabina, disparou em seco:
Isso é que era bom! Ficar sem férias? Nem penses! Desterrada neste mato de cacau por mais um ano, sem apanhar um banho da civilização da Europa! Nunca, jamais!
A sua cara estava encarnada e as veias grossas do pescoço mais enroladas que a mangueira com que o jardineiro regava o jardim.
Se o dinheiro do cacau não chegar, podes pedir um empréstimo ao B.N.U, sem juros, onde és bem visto, não é verdade?!
Pronto, pronto! Já não está quem falou! Mas o que vinha perguntar-te é se achas por bem eu deixar o rapazinho o Toni a tomar conta do posto, por alguns dias, até o enfermeiro ficar curado.
A esposa, meio refeita do susto, por verem tremidas as suas almejadas férias na metrópole, respondeu-lhe:
Tu é que sabes dessas coisas. Nada tenho a ver com os assuntos administrativos da roça; o Toni parece muito atinadinho e as informações que tenho dele asseguram-me que é um bom auxiliar do enfermeiro. Até constou-me que a nossa desatinada filha deu-lhe alguns livros de estudo para ele tirar o segundo ano dos liceus. Dar livros a essa gente...
Neste ponto não concordo com a nossa filha: dar livros a essa gente é coisa perigosa...Livro é pólvora para os canhões, os motores da nossa perdição, digo, civilização! Com a quarta classe, já se armam em doutores, mormente com mais prenda. E os caboverdes não são burros, não senhor! Quem nos dera que os de cá fossem como eles...!
O marido, sentado numa cadeira de rota, tomando o café da manhã, foi acrescentando:
De qualquer forma, como o Toni está nas folhas de salários como apanhador de cocos, não vou gastar mais dinheiro.
A esposa, calada, fitava o marido, com uma xícara de café nas mãos.
6
O enfermeiro angolano era um mulherengo inveterado no dizer do Toni; frequentava assiduamente a casa de uma tal Ninja, uma angolana de corpo escultural, de cabelos negros e compridos, que até parecia uma estatueta trabalhada a canivete, num tronco de ébano no dizer do embevecido enfermeiro enamorado. Os contratados comentavam, à boca cheia, que essa Ninja, além da sua formosura natural, um dom de Deus, trazia entranhado naquele corpo de sereia uma doença ruím, que matava qualquer homem, em menos de um mês e nem os curandeiros mais famosos da terra conseguiam debelar esse desconhecido mal de feitiço. A Ninja vivia e trabalhava na roça, havia já um ror de anos. O Zé da Luz comentava com o Toni:
É vê-la passar com uma saca de cacau à cabeça, de saia puxada para cima, exibindo as pernas bem torneadas, bamboleando as ancas e atirando dichotes provocantes aos capatazes, que, de chicote nas mãos, fiscalizavam os contratados. A ela dão tarefas mais leves, mas, de vez em quando, também carrega (só para inglês ver) algumas sacas de cacau para os terreiros, quando lhe dá na veneta, claro. A sua senzala ficava no topo Norte da roça. Logo que o Sol se escondia no horizonte e o mato ficava alaranjado, o enfermeiro ia encontrar-se com ela. O tempo foi passando e nem os conselhos dos amigos o afastaram da fatal Ninja, que já tinha mandado para os anjinhos dois capatazes vindos de Lisboa no dizer de um contratado antigo, um angola muito conhecedor das coisas da roça.
Assim dito, assim feito: o enfermeiro começou a ficar sem apetite, sonolento, sem forças e sem vontade para trabalhar e a cara com borbulhas encarnadas. Toni ia vê-lo ao quarto, permanecendo muito tempo ao seu lado. Todos os remédios do posto foram experimentados, mas nenhum surtira qualquer efeito. O doente estava cada vez mais magro e amarelado. Até pensaram em mandar chamar o curandeiro, o mais falado da terra, para o tratar. Metia dó ver aquele homem, outrora cheio de vida e respirando saúde, agora embrulhado numa manta, tremendo de frio num dia de calor. Nos momentos de delírio, de boca ressequida, gritava:
Água... Ninja, Ninja...Ninja, meu amor!
Toni, em vão, procurava minorar o sofrimento do amigo, colocando-lhe algumas compressas de folhas de papaieira na testa escaldante e enrugada. O enfermo virava-se no colchão, sem posição certa e, quando parava o barulho do restolhar das palhas da enxerga, falava:
Toni! Vou deixar os meus ossos nesta terra, que não é a minha. Vai acontecer comigo o que aconteceu ao teu pai Nhô Djonzinho aquele grande amigo meu e bom tocador de rabeca!
Não! Senhor enfermeiro, o senhor vai ficar bom...
Um ruído de passos ouviu-se pela escada de madeira do quarto do enfermeiro.
Onde está o doente?
Aqui, patrão...
Resolvi mandar evacuar o enfermo para o Hospital da Cidade, ainda hoje! E tu, Toni, ficas a tomar conta do posto, até chegar um substituto doutra roça.
Sim, patrão, entendido!
O gerente desceu os degraus da escadaria de madeira, compôs o capacete colonial na cabeça e, a passos largos, dirigiu-se ao Escritório onde havia o único telefone da roça. Tratava-se de um velho aparelho a manivela, aparafusado numa das paredes. “O mais antigo telefone da ilha” no dizer de quem sabia. A caixa de boa madeira de teca já amarelada pelo uso e uma manivela cromada com o punho em ebonite. Num dos lados da caixa, uma chapa de identificação de origem: U.S.A - RCA e outros dizeres ilegíveis ou engolidos pela sujidade dos anos ou dos dedos.
Temos uma urgência na roça! berrava o gerente!. Mandem-me uma ambulância, com urgência...
Pendurou o telefone no gancho, endireitou a balalaica de caqui e saiu, muito pensativo. Depois, dirigiu-se à casa para o café do meio da manhã, coisa que fazia, invariavelmente, pelas dez horas. Só quando andava muito atarefado e fora do escritório é que o mainato Chico, de tabuleiro e garrafa-termos numa bandeja de folha, a todos perguntava pelo patrão, deambulando pelo terreiro. O enfermeiro, gemendo, aguardava a chegada da ambulância. As horas foram passando. Uma chuva miudinha, acompanhada de um leitoso nevoeiro, descera sobre a mata deixando apenas visíveis as copas altas das árvores de sombra. Uma delas, a que crescera junto ao terreiro de secagem, de tronco secular, revestido de musgos, cogumelos e trepadeiras parasitas, fazia levantar o cimento do chão estalado, minado pelas grossas raízes quais veias no pescoço adelgaçado do enfermeiro doente e escaveirado. Os ramos, naquele céu plúmbeo quase que antevendo o fim de mais um elemento da roça, abanavam-se em despedida. Toni ficara sentado na cama ao lado do amigo, não largando as suas trémulas e amareladas mãos. A ambulância metera-se a caminho, mas com a lama das picadas não conseguiu chegar mais cedo à roça. O doente foi colocado na viatura, que partiu para o Hospital da Cidade. O ruídoso motor fez-se ouvir pelo mato fora; as rodas giravam em falso, atirando esguichos de lama para o meio do capim de hastes floridas. A velha carrinha, aos solavancos, transpôs os buracos da picada, em direcção à cidade. A noite já caíra sobre a mata e o nevoeiro leitoso cada vez mais denso. Os faróis da ambulância mal conseguiam iluminar a picada. O alto capim das margens vinha bater com fúria no pára-brisas, deixando bocados de folhas agarrados às escovas que já nada limpavam. O condutor, um rapaz que acabara de sair da tropa, habituado a essas andanças, controlava a viatura com muita dificuldade. A maca dançava no piso de alumínio escorregadio e molhado da viatura, apenas sustida pelas correias de um nylon já gasto, a desfiar. A água da chuva entrava pela capota de lona já podre e gotejava para o piso polido do chão de zinco da viatura. Noite cerrada na mata. Uma triste e sinistra noite, sem lua e sem estrelas no céu. Toni, ao lado do doente, segurava um frasco de soro, suspenso do tecto, baloiçando e gotejando ao sabor dos solavancos da picada. Passado algum tempo, as estrelas apareceram no firmamento. Toni tentara localizar algumas das constelações desenhadas no compêndio da Terra e a Vida, que a Zélinha lhe dera, mais nada! Nenhuma das figuras geométricas que vira na estampa estava naquele céu negro de S. Tomé.
O enfermeiro olhava o frasco de soro, que gotejava para um tubo de plástico transparente, acompanhado do som monótono da água tamborilando na capota de lona da ambulância, e balbuciava:
Ninja, Ninja...meu amor! Onde estás agora?
Toni segurava as suas mãos, cada vez mais frias como as do pai, naquela manhã em que ele entrara na Enfermaria para o salvar. O soro, caindo no tubo, já de nada servia. A sensação fria da morte, transmitida pelas mãos do pai, veio-lhe à memória. A certeza mais certa da vida, facto que todos nós procurámos ignorar, como se eternos viventes neste Planeta fóssemos. Um mundo que, afinal, não nos pertence, nós simples passageiros, com o bilhete de ida já reservado... Enquanto a ideia da morte verrumava a sua cabeça, Toni sentia as mãos do enfermeiro cada vez mais frias; os olhos fixavam-se nas gotas de água caindo em cascata da capota de lona já podre. Com suavidade, fechou-os, para sempre... O condutor parára junto a uma mangueira do caminho, para fazer as suas necessidades fisiológicas, ficando o motor da viatura a trabalhar, inundando o ar da noite com um espesso fumo cheirando a óleo queimado. Frente dos faróis vagueavam mosquitos e borboletas da noite. O Bento assim se chamava o condutor abotoou as calças e espreitou pelo vidro de trás.
Já não vale a pena continuarmos para a cidade! Ele morreu, Toni! Vamos regressar à roça...
Não, tenho de entregá-lo ao Hospital, mesmo cadáver, para certificão do óbito!
Chegados à cidade, o médico limitou-se a verificar o caso e mandar passar a respectiva certidão.
Regressaram à roça, com um tempo melhor. Quando chegaram, as fogueiras já estavam acesas nas senzalas e o nevoeiro adormecera. Assim que a luz dos faróis rasgou o chão de cimento do terreiro e o negrume das matas de cacau se esvaiu, alguns contratados cercaram a viatura, perguntando pelo seu enfermeiro.
O nosso bom enfermeiro morreu pelo caminho!
Guisas convulsivas, gritarias, rezas e generalizada confusão tomaram conta do terreiro. O patrão, que jantava com pessoas vindas da cidade na sua bem iluminada sala, veio à janela de guardanapo branco ainda preso ao pescoço, para se inteirar do sucedido. Toni falou-lhe e ele encolheu os ombros, sacudiu a cinza do charuto, cuja ponta brilhante na escuridão da noite e mandou providenciar “um enterro decente para o enfermeiro e telegrama para a família, em Benguela”. No dia seguinte, o corpo desceu à terra, numa cova feita ao lado da de Nhô Djonzinho, campa florida com cravos de várias cores, que Toni lá colocara, plantas dos viveiros da Zélinha. Dois estranhos na terra, um de Cabo Verde, outro de Angola, irmanados pela mesma encarnada e humosa terra de São Tomé, que se agarrava aos pés dos contratados como o melaço dos cocos de cacau. Toni, triste com a perda de mais um amigo, assobiava baixinho:
Hora de bai bô ê triste,
É hora di sofrimento
(A hora da partida é triste,
É a hora do sofrimento)
Um lindo papagaio verde, empoleirado num ramo de uma jaqueira florida, olhava Toni, como que implorando-lhe:
Ensina-me essa música triste da tua terra para eu cantá-la, sózinho, ao entardecer, aos outros pássaros de S. Tomé...
CAPITULO 7
Faltavam apenas dois meses para que o grupo term inar os contratos e regressar a Cabo Verde, à terra. O Zé da Luz era um deles. Nas cartas, fazia planos para reconstruir a casinha na Mina e, se o dinheiro chegasse, comprar um burrinho para as longas caminhadas até às Fajans. Tinha de lado algum dinheiro, à guarda do tesoureiro, e que, mensalmente, ia contar e devolver para ser guardado no cofre preto, num sobrescrito com o seu nome escrito a encarnado. Não fazia compras na Cantina, preferindo ir à cidade, quando o capataz lhe dava folga. Não queria ver o seu nome botado naquele livrão de lombada negra, onde todos eram ludibriados pelo contabilista da roça. Foi o Bento o condutor da ambulância quem lhe abrira os olhos:
Olha, Zé! Se pretendes amealhar algum, aconselho-te a fugir dessa Cantina, como o Diabo da cruz!
Nas horas de lazer, o Zé ia arrumando os seus parcos haveres nos caixotes de toscas tábuas, prontos para embarcar. No tam-po, os dizeres a tinta preta do armazém:
JOSÉ DA LUZ
Ladeira
São Nicolau
CABO VERDE
Ainda com as letras pintadas de fresco, o rapaz ficou en-costado a uma jaqueira, para ver se eram bem legíveis de longe.
Para quê! - Perguntou-lhe o Toni!
Quero descobrir os meus caixotes, lá do alto da boca do porão, quando o barco chegar a Mindelo.
Enquanto observava as letras garrafais sobre as tábuas dos caixotes, vira passar a Ninja, sumida desde a morte do enfer-meiro. Ela apresentava-se mais magra, vestida de preto, elegante e olhando para o chão enlameado. Após a morte do seu último amante ficara livre e já alguns capatazes lhe dirigiam galanteios, sem medirem as consequências fatais de uma eventual ligação com essa demoníaca criatura. Bamboleando as ancas, agora mais adelgaçadas, lá seguiu ela rumo ao terreiro, com uma saca de cacau à cabeça. As benesses que usufruia foram-lhe suspensas, mas por pouco tempo no dizer do Zé da Cruz!
Ainda vamos enterrar um capataz, ao lado das covas do enfermeiro e de Nhô Djonzinho dizia Nhô Lela.
Um deles já andava a beliscar as nádegas da Ninja, quando ela largava para o chão a pesada saca que acarretava à cabeça, desde os cacaueiros da roça Sul, exibindo, de propósito, as bem torneadas pernas.
8
Entretanto, aproximava-se a época dos exames no Liceu da Cidade. Era o começo de Julho. Toni conseguiu do patrão uma licença, tanto mais que o novo enfermeiro, vindo doutra roça do mesmo patrão já assumira as suas funções no Posto. Fez a sua trouxa com umas mudas de roupa pouco mais tinha , meteu os livros numa caixa de cerveja vazia, atou-a com uma corda de bananeira e esperou pela boleia do Delegado de Saúde Local, que se deslocara à roça, em visita de rotina. Sentia-se confiante. O rapazito queria ultrapassar a barreira do segundo ano e não deixar desapontada a sua melhor amiga – a Zélinhadas tranças negras! Pelo caminho foi ouvindo as conversas do médico com um fazendeiro de cacau da zona, sentado ao lado. Falavam do preço do cacau, das doenças e do próximo vapor a chegar a São Tomé. O fazendeiro era o mais falador que o médico indiano:
Sabe, doutor Marçano, tenho más notícias. As coisas lá por Lisboa não vão nada bem. Salazar e a sua PIDE andam atrás dos políticos, principalmente daqueles comunistas vermelhos, bem doutrinados na Rússia, com o fito de darem cabo do nosso rico e invejado Ultramar! Na Guiné, um tal Amílcar Cabral um agrónomo de Cabo Verde , que estudou em Lisboa à custa do Estado Novo, claro, doutor, anda a querer sublevar os povos da Guiné e do vizinho arquipélago de Cabo Verde! Em Angola, as coisas estão feias, e em Moçam-bique, também... Na India foi o que foi...Ainda vamos ficar sem as nossas ricas Províncias do Ultramar, se a guerrilha se generaliza. Até falam em independências, caro doutor! Imagine o descaramento desses cafres! Acha, doutor, que esses pretos estão em condições de se auto-governarem? Diga lá, doutor Marçano?
O doutor Marçano conduzia a viatura, por entre os buracos da picada, desviando-se dos sulcos, das lamas e pedras caídas dos barrancos lodosos. De algumas raízes de árvores recém-caídas quais cabeleiras emaranhadas das bruxas escorria uma água avermelhada...
O monólogo prosseguia:
Sabe, doutor, um amigo meu um administrador de Concelho aquele que passou por cá a caminho da metrópole, de graciosa, lembra-se, confidenciou-me que, em Angola, os nativos já pegaram em catanas e que as autoridades não conseguem controlar a situação sem uma boa ajuda dos militares. Eu sempre pensei que um dia esses pretos quereriam ser patrões! E esse dia vai chegar, mais cedo do que muitos julgam, pois os cabecilhas estão a ser treinados na Rússia, China e na RDA, para virem dar cabo do bom trabalho feito pelos colonos e pelo Governo...
Toni, calado e atento, escutava os dois interlocutores, através da portinhola de vidro que o separava da cabine, sonhando com as provas que teria de prestar no liceu da cidade. Quanto à PIDE, certa vez, fora abordado por um capataz da roça perguntando-lhe se não gostaria de dar uma ajudinha à Corporação, tanto mais que ele era um rapazinho ajuízado e não se metia em politiquices, com os seus colegas cabo-
-verdianos que trabalhavam na roça. Toni, na altura, contara a conversa ao enfermeiro que o aconselhara a fugir dessa gente, a sete pés! A viatura já pisava o asfalto, sinal que estavam a chegar à cidade. Toni ficara espantado com as muitas casas de telhas, jardins e ruas bem direitas. Não havia senzalas, capim ou cobras pretas nas ruas como lhe disseram. A Zélinha, a sua protectora e amiga, arranjara-lhe um sítio para ficar, em casa da madrinha, num quarto ao fundo de um enorme quintal cheio de limoeiros e de laranjeiras, ao lado de uma casinha onde os mainatos engomavam as roupas da casa. Acanhado, sim, mas melhor que nada. Sem que a madrinha desse conta, a Zélinha arranjara-lhe os lençóis para cobrir a enxerga de riscas e com a palha à mostra. A menina queria ajudar o seu protegido mas sem se expôr em demasia, para não comprometer a sua condição de filha do dono de roça, bem conhecido na cidade.
A madrinha da Zélinha dona Felisberta esposa de um abastado dono de roça, sempre vivera na capital pois nunca se dera bem com a humidade das matas e não tolerava o isolamento das plantações de cacau e de café. As suas varizes, um incurável reumatismo e uma doença de ossos tolhiam-lhe os movimentos, não falando nas incomodativas picadelas dos mosquitos das sezões. Podia-se dizer mesmo, que ela odiava o mato do fundo da sua alma. Na cidade era conhecida como uma das mulheres mais linguareiras e conhecedoras da vida das gentes de São Tomé e das suas roças. Nascera no Bairro Alto, na metrópole, onde estava habituada a debruçar-se no parapeito da janela com sardinheiras floridas, para, por entre os paus de vassouras, empurrando as cordas de roupas estendidas ao sol, dar um dedinho de conversa com as vizinhas. Não havia novidade no Bairro que lhe passasse ao lado. Naquela pequena terra de São Tomé, dona Felisberta morria de saudades do seu adorado Bairro, da falta daquele cheirinho a lixívia fresca dos alvos lençóis estendidos nos arames sobre as estreitas ruelas movimentadas. Como se dava bem com a vizinha do andar de cima não havia problemas, o mesmo não acontecendo quanto à do segundo piso, com quem se guerreava constantemente por causa dos pingos que manchavam a sua roupa quase seca. Ficava na varanda de ferro forjado da casa no Bairro Alto, vendo passar os turistas altos e louros, de calções e máquinas fotográficas a tiracolo, extasiados com tudo o que observavam. Até baixavam as cabeças para se livrarem de algumas peças de roupas mais intímas, que o vento do Tejo abanava nos arames, presas às usadas molas de um pinho já amarelado pelo sol. Era dessa Lisboa das varinas, dos cauteleiros, dos vendedores de jornais, dos fados e das guitarradas saídas das tascas, do cheiro a sardinhas assadas e iscas que ela tinha saudades como contara ao Toni sentados a um canto da varanda da casa, naquela tarde em que chegou à cidade, para o exame no Liceu. A dona Felisberta era uma senhora de avançada idade, de cabelos esbranquiçados e caídos pelas costas, tez clara e mãos finas com veias azuis saindo-lhe da pele branca. Gostava de permanecer horas a fio, sentada numa cadeira de balanços de braços escuros e rangendo, compassadamente, a um canto da larga varanda que circundava a sua mansão: fazia rendas, o seu passatempo favorito, bordava ou, simplesmente, dava fé ao que se passava no Largo fronteiriço. A Zélinha, a sua afilhada de estimação, fazia-lhe companhia e estava hospedada em sua casa desde que viera da roça para o exame de admissão ao liceu. Foi pela afilhada que ela conhecera a trágica história do Toni e das dificuldades da sua família, prontificando-se a receber o rapazinho. Sentada na cadeira, conversava com o Toni, enquanto dava instruções ao jardineiro, quanto à poda das velhas roseiras do quintal e o local para os bolbos das dálias chegados de Lisboa, da Casa das Sementes.
Fala-me, Toni, da tua vida difícil, naquelas terras de Cabo Verde!
O rapaz já contara a tragédia da seca dezenas de vezes a várias pessoas, mas não podia furtar-se ao apelo da madrinha da Zélinha, que, de lunetas fora do sítio, fitava-o com uns olhos mais azuis que o mar da costa Norte. Dona Felisberta pôs de lado as agulhas de metal cromado e as folhas desdobradas da Revista Rendas e Bordados, recebida regularmente da metrópole, para escutar o Toni com atenção. A morte da irmã Nina, as pragas dos gafanhotos, o pai a vender a cabrinha Ruça e as portas de madeira da casa na Estância para comprar milho para a cachupa... Os relatos comoveram a senhora, que enxugava as lágrimas servindo-se de um lenço bordado com uma âncora azul. Toni pedira à senhora licença para se retirar, ”pois ia dar uma última olhadela às matérias para o exame do dia seguinte”.
Chegara o almejado e temido dia dos exames. Toni, nessa manhã, mal conseguira engolir o mata-bicho que a dona Felisberta mandara preparar na cozinha, onde comeu sob os olhares atentos dos mainatos, espantados com os desvelos da patroa para com um simples contratado chegado de uma roça. As paredes da cozinha viam-se forradas de panelas, tachos de bronze e latão, reflectindo a claridade da chama alaranjada de um fogão de ferro onde ardiam lenhas cheirando a resina fresca. Toni comeu e partiu a correr para o Liceu. Chegado à porta principal, benzera-se e entrara com o pé direito, confiante em Nossenhor, como no dia da primeira comunhão, na Sé. Os sapatos de lona, ainda novos, mordiam o seu dedo mindinho. Na roça, andava descalço. O piso da entrada do Liceu era de ladrilhos brancos e negros, coisa mais fina que o cimento encarnado das varandas das roças. O salão onde ia fazer o exame era maior que o salão da casa grande do patrão. Sentou-se numa das carteiras vazias, junto a uma janela que dava para o pátio. À sua volta, muitos meninos e meninas da cidade, todos bem vestidos e com os cabelos a cheirar a brilhantina, um cheiro igual ao do patrão. Conhecia-o, porque, certa vez, a mãe levara um boião ainda com um restinho lá no fundo, deitado fora pelo patrão. Dentro daquela sala, era a criatura mais pobre do Mundo. Ao lado, um rapazinho, trajando camisa de lacinho na goela, calções de boa fazenda de Lisboa e colete azul condizendo com os tons do vestuário acastanhado. Ouviu-o segredar ao um colega, muito nervoso, espetando o bico de uma Parker do pai, certamente, no tampo escuro da madeira da sua carteira:
Olha, Franklin, é ele o moço que veio da roça para fazer exame connosco e quer ser doutor...
O tom de chacota com que falou ao colega foi aplaudido, em peso, pela sala toda. Desataram a rir, ”quais macacos nos ramos dos cacaueiros, à cata dos frutos maduros”. A risada de pura troça ficara gravada na mente daquele rapaz e para sempre... O professor, que acabara de entrar, pôs ordem na sala, mandando cada um para o seu lugar. A prova ia começar. Toni concentrava-se na folha que tinha à sua frente e invocava a figura do pai, pescando nas fragas do Norte para se acalmar. Era a sua voz dizendo-lhe: ”coragem, meu filho! Luta, luta sempre e serás um Homem com H grande”... Sacudiu a cabeça, agarrou-se à esferográfica e começou a responder às questões, uma a uma, ainda com as gargalhadas dos macacos nos ouvidos. O mestre, vestido de negro, idade respeitável, gravata às bolinhas, ombros encurvados pelo peso dos anos, passeava pela sala, enquanto os outros dois elementos do juri permaneciam sentados à secretária, de olhos atentos aos movimentos suspeitos dos alunos fraudulentes. Toni não teve dificuldades em responder a todas as questões da prova. Em menos de uma hora, o papel estava pronto e revisto para ser entregue ao mestre. Da janela da sala olhava o pátio, divertindo-se com os pássaros saltitando de ramo em ramo de uma mangueira florida de amarelo. A imagem dos seculares tamarindeiros do Seminário de São Nicolau veio-lhe à mente. Era à sombra dessas árvores que brincava com os colegas, aos domingos, antes da hora da catequese; jogava com bolas de trapos e as crianças eram sim amigas umas das outras e tinham algo de comum – a pobresa. Os garotos daquela sala do exame pertenciam a outra classe de gente de gente sem alma...
Quão diferente era a Zélinha!
Levantou-se e foi pousar a prova na secretária do mestre. Os olhos dos colegas ergueram-se de espanto. O silêncio e as cabeças daqueles meninos, filhos dos fazendeiros do cacau, que, momentos antes, faziam chacota dele! O Pedrito, que estava sentado atrás dele, foi o primeiro a resmungar.
Afinal, o rapazinho da roça foi o mais rápido da turma ouviu-se.
Coitado! pensara Toni está atrapalhado e de cara vermelha de raiva. Até podia dar-lhe uma ajudinha no seu ponto, se fosse possível, claro!
O Franklin, sentado na carteira de frente, não se conteve:
Vá mas é colher o cacau do meu padrinho e que já deve estar a apodrecer na mata!
Toni ouvira tudo, calado. De cabeça levantada, disse adeus aos mestres e saiu da sala, confiante, após deixar a sua prova sobre a secretária de mogno polido. Dias após, os resultados foram afixados no pátio do liceu. Toni obtivera a melhor classificação do ano. Dona Felisberta e a Zélinha ficaram radiantes. Muitos dos que troçaram dele nem conseguiram uma classificação para irem à prova oral. O Franklin chorava, sustido pelos pais, manchando a camisa branca e punhos de rendas com o seu nome bordado num dos bolsos. Dona Felisberta, muito satisfeita, mandou preparar um bom almoço para o seu protegido, refeição também servida na cozinha, ao lado das criadas que, afanosamente, ultimavam a refeição do patrão, prestes a chegar da roça. Toni, contente, correu pelo quintal por entre os limoeiros carregadinhos de frutos. Queria dar a boa nova ao mainato José, que passava a ferro no casinha dos fundos... Após o almoço, a Zélinha veio felicitá-lo, efusivamente, e garantir-lhe os livros para o quinto ano do liceu, -”coisa que estava ao seu alcance”. Ela ia frequentar os últimos dois anos num Liceu de Lisboa e depois entrar para a Faculdade de Medicina, após o exame de admissão.
Toni regressaria à roça nessa noite, embora gostasse de ficar na cidade por mais alguns dias. Tinha uma boleia num camião que ia levar mercadorias para a Cantina e trazer de volta o cacau para embarcar no porto com destino a Leixões. A Zélinha prontificara-se em mostrar-lhe a cidade que apenas vira do convés do Borba no dia da chegada.
***
A tarde chegara ao fim. O Sol pintava o mar com um agradável tom de alaranjado. Os coqueiros agitavam as suas folhas sobre as praias de areias tintas da mesma cor. Toni e a Zélinha foram ver a marginal e ao atravessarem um pontão que ligava as duas margens de um regato, ela deu-lhe a mão, pela primeira vez; Toni agarrou-a, timidamente. De mãos entrelaçadas caminharam pelo areal, enterrando os pés descalços na fofa e ainda quente branca areia da praia de S. Tomé. Lá longe, algumas gaivotas voejavam rente ao mar e vultos de pescadores lançavam e recolhiam as últimas redes do dia, à cata de algum peixe para o jantar da família. Um bote a vela cortava a mansa baía. De vez em quando, Toni e a Zélinha paravam para contemplar a Praia do Poente, onde as ondas, igualmente tintas de alaranjado, lambiam as areias e apagavam as suas pegadas indiscretas. Conversaram sobre a dura vida dos trabalhadores nas roças e nas necessárias medidas para humanizá-la, com melhores cuidados de saúde aos contratados e erradicando as doenças que faziam verdadeiras razias, principalmente no seio das crianças e idosos, os seres mais débeis.
Falava o Toni:
Tenciono ser médico e não enfermeiro, como pensei a princípio. Quero regressar a Cabo Verde para aí dar consultas de graça a todos os meus patrícios necessitados. Quero, um dia, ir salvar as pessoas da fatal biliosa como a que matou a minha querida mana Nina.
Já cansados de andar pela praia, sentaram-se num tronco recurvado de um velho coqueiro, caído sobre o mar e cujas raízes a rebentação pusera a descoberto. Aí fizeram planos para um futuro em conjunto. Trocaram promessas amorosas, enquanto contemplavam as largas e rendilhadas folhas dos coqueiros baloiçando num céu escuro, embalados pelo marulhar das pequenas ondas que, preguiçosamente, vinham morrer aos seus pés, naquela praia deserta de São Tomé, ao cair de uma tarde de sábado. O Sol, qual bola de fogo, desaparecera engolido pela linha do horizonte. Entre eles nascera uma certa cumplicidade. Um pescador, que passara pela praia, olhara os dois vultos sem os reconhecer e seguiu pela branca linha de rebentação, transportando algumas cordas de peixe e uma rede circular às costas. O par de namorados subiu a escadaria de acesso à marginal e caminharam juntos pelo passeio de cimento ainda irradiando o calor daquele dia quente, sob as grinaldas das buganvilias pendentes dos muros caiados de branco das boas mansões, atapetando o chão com as suas coloridas pétalas roxas, que a aragem morna da tarde se encarregava de empurrar para os cantos. Despediram-se!.. Duas mãos, uma escura e outra branca agitaram-se no ar, tendo por fundo a baía e um mar tinto pelo Sol-posto.
Toni seguiu para a roça!
A Zélinha ficou a preparar as suas coisas, pois a data para o embarque para a metrópole estava marcada.
***
O regresso às terras de origem daquela “fornada de contratados de Cabo Verde” aproximava-se. O Zé da Luz não quis renovar o contrato, embora essa ideia verrumasse a sua cabeça, já fraca pelas febres. Sempre que lhe vinha a ideia de ir dar outra vez o nome no Escritório, sentava-se à sombra da jaqueira e, de cavaquinho nas mãos, revivia as festas de Santo António, as Divinas, os bailes na Rochinha e na Caixinha de Fósforos. Depois, fazia meia volta e regressava à senzala. De serra nas mãos, lá ia a caminho da ravina cortar as tábuas para os seus caixotes. Um capataz, certa vez, viera propôr-lhe:
Zé, diga-me lá uma coisa? O que vais fazer na tua terra tão seca, sem chuva e com fome? Fica mas é nesta roça, onde não te falta trabalho nem comida...!
Não e não! Não fico nesta terra! Nem mais um dia! Vou mas é acabar de pregar os meus caixotes... Com o bater compassado do pesado martelo, foi juntando as grossas e aromáticas tábuas de uma madeira recém-serrada. Ainda necessitava de mais uma mala e ia encomendá-la na cidade. Na roça havia mais rebuliço, desde que o vapor fundeara no porto. O movimento dos contratados que chegavam mistu-rava-se com o dos que iam partir. Os recém-chegados levantavam alguns géneros na cantina ou recebiam instruções dos capatazes. Depois, todos saíam porta fora, levando as doses de milho branco de Angola, arroz quebrado, peixe seco, azeite de palma, um pacote de cigarros Kentuck e meia barra de sabão azul. Noite clara e quente. Noite da festa da despedida dos que iam partir. Juntaram a lenha, compraram o peixe fresco para uma caldeirada com banana verde, mandioca e inhame. Os violeiros e os rabequeiros levaram os seus instrumentos. As mornas e as coladeiras fizeram-se ouvir no silêncio da roça. Os recados dos que ficavam, cortavam o ar:
Dizes à Djidju que estou bem e voltarei daqui a três anos, se Deus Nossenhor quiser!
Para Nhá Zepa do Morro vai uma cartinha com duzentos mil reis...
Para Nhá Mélia de Nhô Gominho, este saquinho com cacau em grão, para ela torrar e misturar no leite das dez horas para o meu professor Gominho...
Essas foram algumas incumbências pedidas ao Zé da Luz, ao subir para a caixa do camião, que o levaria ao porto de em-barque, após o seu regresso do cemitério onde fora colocar um rosário de grãos de balão, na cruz apodrecida da campa de Nhô Djonzinho, o seu melhor amigo, para sempre naquela terra longe.
O porto já não estava longe; os apitos ouviam-se. Um vapor, fundeado na baía baloiçava o seu escuro casco, à espera dos contratados, para os levar de volta, os sobreviventes, às ilhas de Cabo Verde.
Nhô Lela, sentado ao lado do Zé da Luz, filosofava:
A gente não passou fome nesta terra, mas as doenças que levamos no corpo? Tu, Zé, ainda tens as grossas tábuas de madeira para as tuas mobílias!
Sei lá se para as mobilias ou para meu caixão!
Deixa para lá, Zé! Afinal, a gente passa a vida a juntar riquezas para quê?! Somos enterrados só com uma roupa no corpo. Os brasileiros dizem e bem que as vestes dos defuntos não têm bolsos, sabias?!
Nhô Lela, debaixo da rudeza das suas palavras, escondia uma salutar sabedoria popular. Diziam que era maçónico e com poderes mágicos e diabólicos. Livrara-se da morte, ao sétimo dia, quando a mãe resolveu dar a festa de guarda-cabeça,”para afastar os espíritos maus, entranhados no filho nascido boticado”. Continuava a falar, enquanto acendia o seu canhoto:
Regressamos à nossa terra, mais pobres de que quando aqui desembarcamos. Entretanto, trabalhamos de sol-a-sol, plantando, capinando, colhetando, transportando, secando e ensacando o cacau e o café, mas para quem?
Para o patrão, não vês. Foi ele quem ganha com o suor que vertemos neste chão molhado. Certa vez, fiz uma visita à sepultura da mamãe, na Tabuga. Foi num dia frio. Um espesso nevoeiro leitoso vinha dos lados da Ribeira Seca, coisa pouco vulgar, como sabes. Nem se via o portão de ferro com as duas tíbias em X, logo à entrada. Desci a calçada e olhei sem nada ver. Um manto esbranquiçado pairava junto ao chão. Já nem sabia de que lado ficava a sepultura. Caminhei por entre as cruzes, só e triste, envolto naquele manto branco que me sufocava. Depois de andar perdido pelas ruas que margi-nam as campas do cemitério, fui encontrar o coveiro, a única vivalma naquele local – o Champino - sentado no muro, assistindo à queima dos restos das tábuas dos caixões e fumando o seu canhoto, cujo fumo se confundia com o manto de nevoeiro pairando no ar. As madeiras ardiam, lentamente, no silêncio do vale da Tabuga. O vento uivava, tristemente, nas finas folhas dos muitos tamarindeiros do despido e agreste Fundo da Manca.
- Bom dia! Cumprimentei o coveiro Champino, com um aceno de cabeça!
Então, Nhô Lela?! Você está perdido neste mar de névoa? Já reparou, Nhô Lela, nestas tábuas a arder! Elas serviram de abrigo final a muita gente e por vários anos, até os seus corpos ficarem reduzidos a ossos branquinhos e pó! O que era matéria desapareceu. As almas ou os espíritos, já nem sei ao certo, esses sim, voaram para um sítio qualquer, que também não sei onde fica.
Um corvo, empoleirado num muro caiado de branco, emitia o único som, no silêncio daquela manhã.
Nhô Lela, muitos dos enterrados, passados alguns me-ses, já ninguém os procura para pôr flores nas suas covas; outros há que, até uma bandeira mandaram colocar no local, caso daquele americano ali enterrado, onde flutua a bandeira dos Estados Unidos da América, cheínha de estrelas. A minha vida tem sido esta: enterrar ricos, remediados e pobres, mas uma coisa posso garantir-lhe, meu velho: ninguém leva nada nos bolsos, nem ouro, nem prata, nem relógio, nem joias, nem casas, nem dinheiro, nem pedrarias... nada...! E, como vê, nem as tábuas que lhes serviram da última morada vão com eles. Acabam, assim, em cinza, pó e fumo, que o vento arrasta para longe! Tudo me faz relembrar a frase latina, mil vezes ouvida dos padres, à borda dessa covas:
"Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris".
Mas o que significa isso, porque, de latim, nada perce-bo perguntei ao coveiro:
É simples respondeu-me, prontamente:
Lembra-te, ó homem, de que és pó e ao pó hás-de voltar.
Calmamente, o coveiro da Tabuga continuou a fumar o seu canhoto, na pacatez de um local que convidava à meditação. Um fumo esbranquiçado passava pelas copas dos tamarindei-ros do vale, galgando os montes. As cinzas, essas sim, caíam, como flocos, relembrando-me que o Homem era, apenas, pó e nada...
Um fumo esbranquiçado saía dos canudos do vapor ancorado na baía, mais esbranquiçado dos que Nhô Lela vira, nessa manhã em que fora visitar a campa da mãe, no cemitério da Tabuga.
Até este vapor, que é de ferro, mais dia, menos dia, virará sucata e ficará a apodrecer, comido pela ferrugem e bichos do mar, numa doca qualquer.
A visão do mar enchera de alegria a alma de Nhô Lela e de todos os que iam regressar às terras de origem.
Toni, nessa manhã, foi ao escritório renovar o contrato por mais dois anos. À sua frente, não um Nhô Jaime, mas sim um contabilista de aspecto austero, sentado atrás de uma secretária de madeira, atafulhada de papéis.
Então resolves renovar o teu contrato, menino estudante?
Sim...
Toni tinha receio de ser mandado para os montes, para guardar o gado, como acontecera a alguns colegas de menor idade.
Assina aqui, nesta linha disse-lhe o guarda-livros.
Toni leu o contrato com atenção, antes pôr a sua firma no papel. O contabilista acrescentara:
Sim! És um rapaz muito esperto e trabalhador, segun-do diz a tua ficha! Se continuares a estudar, poderás vir a ser alguém na vida... Deus Nossenhor me ajude! murmurou baixinho, descendo a escadaria de pau do Escritório.
9
Numa cinzenta manhã de muito cacimbo, o vapor zarpou da baía de S. Tomé de regresso ao arquipélago de Cabo Verde, perdido no meio desse mar. Nos porões, acomodados de qualquer forma, os contratados a caminho das suas terras. Alguns em melhores condições físicas, outros piores e com cicatrizes nos corpos e nas almas. Nhô Lela, agora tristonho, sentara-se à proa, no local onde Nhô Djonzinho seu saudoso amigo pescava, logo que o Sol morria no horizonte, pintalgando o mar de amarelos e alaranjados. Já não podia conversar nem contar com o seu inseparável companheiro das tocatinas. O vento trazia à sua face os salpicos de água salgada e conversava com as cordas do seu violão, numa linguagem em que ambos se entendiam, a da música. Tocava a solo, sem a maviosa rabeca do amigo, embalando as sereias que bailavam nas suas mentes. Mais alguns dias estariam a navegar nas águas do arquipélago de Cabo Verde aquela terra que julgava ficar no fim do mundo mas que, agora, sabia não ser bem verdade.
Dias depois:
Ilha de São Tiago à vista! gritava um marinheiro, de serviço à proa.
Entretanto a Zélinha partira para a roça, para se despedir dos pais. Ao chegar, perguntara pelo Toni, que se ausentara para o extremo Sul, em socorro a uma parturiente. A menina, lá em casa, sentia-se só e dizia à mãe do Toni:
Se o Toni cá estivesse ainda podíamos conversar um pouco...
Após três dias de ausência no mato, Toni regressara à roça com a mochila de lona vazia de medicamentos e suja de lama. Após o banho, foi procurar o patrão para lhe dar conhecimento dos trabalhos que efectuara, bem como do estado geral do cacau nas ramadas das árvores, que ficavam nos topos da roça. Ao entrar pela porta do fundo, dera de caras com a Zélinha, que saíra do banho com uma toalha turca enrolada à cabeça.
Menina, patrão está?
Bom dia, também se diz...
Toni, por momentos, ficara mudo, petrificado!
Meu pai não está! Penso que foi à Cantina ver as mer-cadorias que chegaram da cidade. Se não tens pressa, podes esperar por ele e conversamos aqui na varanda. Só um momento pois vou lá dentro arranjar-me...
Um capataz veio à procura do Toni, para um curativo de urgência!
Já me tinham dito que tu andas a tentar rondar a filha do patrão, mas pensei ser uma brincadeira. Pelo que vejo, agora, até pode ser verdade! Aonde já chegámos, meu Deus!
Toni acompanhou o capataz ao posto de socorros, sem antes acenar à rapariga, que ficara à varanda, lendo e respirando o perfume das muitas roseiras sempre floridas no seu belo jardim. A mãe veio sentar-se ao seu lado, após ter andado na cozinha a fazer doce de papaia, ajudada pela Sabina... Dava conselhos à filha, enquanto ia bordando:
Não andes sózinha naquela cidade grande para onde vais; Lisboa é perigosa; na ida para o liceu nunca passes pelo Parque Eduardo VII; cuidado com as tuas amizades e não te metas em politiquices de estudantes que não querem estudar...
A Zélinha observava uma aranha, tecendo a teia a um canto da varanda...
E não te esqueças que não quero ver-te a conversar com esse Toni, mormente nesta minha varanda. O que as pessoas vão dizer! Ainda não entrou na tua cabeça que o rapazinho não é da tua classe social? Mesmo que ele vá estudar na metrópole (o capataz Silva disse-me que tem essa ideia tola metida na cabeça!), não quero repito , não quero, essa tua amizade com ele!
A aranha acabara de tecer a teia, que brilhava ao sol, cheia de gotas do cacimbo da noite. Uma vespa lutava para se livrar do emaranhado de fios.
Sim, mãe! Já ouvi as tuas palavras por várias vezes, mas uma coisa te digo: não vai ser por causa da sua cor da pele que vou deixar de ser amigo ou namorado do Toni ou de qualquer outro rapaz! De resto, até gosto da cor acastanhada da sua pele, aquela cor para a qual passámos dias inteiros estendidos ao sol nas praias, como lagartos nos muros. Vocês têm mas é inveja! E sabes mais uma coisa, mãe?
Diga lá...
Se me der na veneta, uma dia até ainda posso vir a casar-me com ele!
A mãe, que sofria de angina do peito, ia caindo da cadeira de balanço abaixo. Um mainato prontamente surgiu do fundo da escadaria, trazendo uma bandeja com um copo de água e uma caixinha de prata trabalhada, cheia dos milagrosos comprimidos, para pôr por debaixo da língua, quando surgissem os primeiro sinais de falha do coração.
Vocês matam-me, qualquer dia destes! Como a minha avó dizia, e ela tinha razão, os filhos só servem para encurtar a existência dos pais...Ela tinha razão! Quero mais água fresca e meu leque de bambu...
A Zélinha, impávida e serena, continuara sentada e com as botas de montar apoiadas sobre a mesa de verga, rangendo com o peso.
Um silêncio, apenas cortado pelo cair da água na cascata do jardim, foi quebrado pelo roçar das pesadas botas de couro do pai, subindo a escadaria de cimento encarnado da varanda. Trazia a testa suada e a balalaica de caqui manchada nos sovacos. Pousou o chicotinho e o capacete colonial sobre a mesa, fazendo despreender algumas pétalas das rosas amarelas que enfeitavam uma jarra ao centro. Chamou o mainato, para lhe trazer “uma Laurentina bem fresquinha, da parte de cima da geleira”!
Dirigindo-se à mulher:
Estás com afrontamentos, mulher?
Não! Porquê...!
A tua cara está tão encarniçada! A nossa filha sempre embarca amanhã. Há um lugar no avião e acabei de receber uma confirmação de Luanda, por cabo.
CAPÍTULO 10
O vapor com os contratados já navegava em águas de Cabo Verde, cortando o oceano com a sua altaneira e branca proa. Dos canudos, pintados a preto e riscas encarnadas, saía um fumo espesso. Ao longe, alguns barcos rumando a Europa. Uma gaivota branca viera repousar no topo do mastro da ré, trazendo no bico um peixe ainda saltitante. O mastro estava salpicado pelo branco dos excrementos das aves. O Zé da Luz olhava o mar azulado, conversando com Nhô Lela, já mais animado por estar quase a pisar a sua terra natal:
Sabes que aquelas manchas brancas (apontara com os dedos para o mastro) fazem-me recordar algumas coisas da minha meninência. Sobranceiro à minha casa, na Mina, fica o Monte Fora, um planalto que domina a Vila cujas rochas estão salpicadas de manchas brancas. Quando menino, metiam-me medo dizendo que essas cavernas eram as moradas dos gongons que comiam meninos. Ainda hoje, olho para lá, com o mesmo respeito e já estou velho...
Ilha de São Tiago à vista! gritara um contratado do Tarrafal, pescador muito batido naquela costa e de vista bem apurada.
O Pico de Antónia via-se, meio engolido por um capacete de nuvens brancas. Nos porões, reinava uma grande confusão de gentes e bagagens atadas com cordas de bananeiras. A ânsia de pôr os pés em terra firme, após muitos dias no mar, invadira aquelas almas atormentadas. Os contratados da ilha de São Tiago seriam os primeiros a desembarcar e vinham trajados com as suas melhores roupas domingueiras. Não queriam chegar à terra como simples mendigos no dizer do pescador do Tarrafal.
Um contratado da região de Santa Catarina, com os olhos marejados de lágrimas, contemplava as praias, os coqueiros, os botes na faina da pesca, o fumo das hortas a serem preparadas para as sementeiras e as rochas da costa escarpada. Foi então, que contou aos circunstantes a triste desgraça da derrocada do muro do quintalão da Assistência, local onde centenas de famintos iam procurar a única refeição do dia...
Eu estava lá! dizia e Deus Nossenhor quis que eu escapasse para contar o sucedido. Ainda não tinha chegado a minha vez. Momentos antes, saíra da fila para fumar um cigarrinho, à sombra de uma acácia. Um estrondo, o pó e gritos. Depois o silêncio dos mortos...
Após os coices vem a pancada! afirmava Nhô Quiqui um outro pescador, que, por pouco, se livrou de ser apanhado pela derrocada de pedras nesse fatídico dia.
Estamos a passar por Tarrafal, local para onde Salazar mandava os presos políticos, seus inimigos afirmou um contratado daquela vila.
Há um outro Tarrafal, na ilha de São Nicolau, para onde foram mandados também muitos deportados políticos: médicos, majores, tenentes do exército e muitos mais acrescentara o Zé da Luz. Dizem que o capitão do vapor recebera ordens para rumar Tarrafal e, como havia dois, escolheu um deles, o de São Nicolau. Os deportados foram largados à entrada da Ribeira de Bau, um local muito quente, não muito longe do porto. Construiram alguns barracões. Os desgraçados, para não morrer à fome, pescavam e faziam alguma agricultura nos sítios mais sombrios e húmidos do vale, guardados por tropas landins.
Sabes muito, rapaz!
Algumas coisas! Quando menino, e jogava à bola com as bexigas dos porcos, ouvia o meu pai contar tudo. Cheguei a conhecer alguns desses deportados. Cito as figuras de um major, conhecido por Majorona pela sua corpulenta figura e morava ao lado da Enfermaria Regional; o tenente Pélico, outra simpática figura, não falando no prestígio e estima do doutor Camões um médico muito dedicado e amado por todos os Sanicolaenses. Andei na primária com os seus filhos e filhas. Posso testemunhar-lhes o meu sentimento de gratidão pela coragem dos pais, batendo-se pela Liberdade dos povos e desafiando o ditador Salazar, num período áureo da sua ditadura.
O barco apitara três vezes. Dos canudos saía mais fumo e va-por de água que desapareciam num céu sem nuvens. A cidade da Praia desafiava a baía. Os botes multicores remavam em direcção ao barco. Nhô Quiqui saltou para o bote Santa Maria e sentou-se à popa, com água nos olhos. Os remos puseram-se em movimento, impelindo a embarcação rumo ao cais onde os garotos brincavam. O bote parou. Nhô Quiqui desembarcou e, de joelhos, beijou a areia negra, rezando em seguida:
“... Pai Nosso...”
Os contratados, que pisavam a areia mole, olhavam para ele, quase querendo fazer o mesmo, mas envergonhados, desistiam. À tarde, o vapor zarpou para a ilha de São Nicolau, a ilha do Zé da Luz. A Ponta da Vermelharia, amarelada e altaneira, após umas centenas de milhas, estava à vista. O Monte Gordo e o Morro Bissau viam-se com os cocurutos tapados de nuvens que não davam chuva. Por fim, o porto da Preguiça e o seu Forte. A pesada âncora mergulhara nas profundezas da baía. Nhô Lela, postado à proa, ainda via o corpo da comadre, afundando-se no mar, na viagem de ida para São Tomé. Os remos, batendo cadenciadamente, impeliram o Deus-Nos-Guia para o cais. Nhô Lela foi o primeiro a pisar terra firme. Os corvos, pousados nos muros, grasnavam ao desafio. As gaivotas voavam junto ao farol. Uma camioneta, estacionada no largo da Alfãndega, recebia os contratados da Estância. Alguns pescadores chegavam da pesca com bicudas e moreias para vender. A primeira paragem dos contratados foi no botequim da Dona Augusta: uma groguinha”para tirar o gosto do salitre da boca” no dizer de Nhô Filipe. O condutor da camioneta, um rapaz folgazão, de tez clara, pôs o motor a funcionar largando um fumo espesso, naquela manhã limpa e quente do dia da chegada. Os pescadores deixavam os peixes nos botequins da dona Bita e dona Augusta. Os que restavam eram vendido às peixeiras que partiam para a Estância. Ainda vejo uma dessas vendedeiras de peixe, de xaile preto, lenço à cabeça, de balaio pousado nas lajes do quintal da casa dos meus pais, com os pés cobertos pelo suor e pó do caminho. Ela salvava a mamãe, vendia o peixe e partia Ladeira acima, deixando as marcas dos pés suados estampadas no negro basalto das calçadas de pedras.
Fi num domingo.
A notícia do regresso dos contratados correra célere pela ilha. A camioneta já ia a caminho da Estância, passando pelo Campo da Preguiça, Morro, Lombinho. Por fim, o povoado à vista. A secura ainda dominava, passados tantos anos.
Como a nossa terra está acabada, Deus Nossenhor nos valha! Até parece que o Diabo passou por ela era o desabafo de um contratado do Campinho.
As amendoeiras do Terreiro estavam quase sem folhas. A La-deira da Igreja desnudada, sem as carrapatas e com os plenos à mostra. O relógio da Sé, com o mostrador tisnado, batia as doze pancadas desse dia. A estátua do doutor Júlio José Dias médico benemérito e considerado mágico pelo povo de barbas brancas, espreitava do alto do pedestal de um mármore já estalado pelos anos. Algumas pessoas queriam saber das novidades. Uma trágica chamada fazia-se na mente de todos, qual contagem de combatentes após uma batalha:
Nhô Djonzinho do Norte?
Morreu...!
Nhô João do Caleijão...?
Também...!
As lágrimas dos que chegavam misturavam-se com as guisas dos parentes, ávidos de notícias frescas dos seus, que por lá ainda ficaram. Uma idosa, que mal conseguia levantar a cabeça da sua coluna vertebral, quebrada pelos anos e as agruras da vida, perguntava a um contratado recém-desembarcado:
Dê-me novas de Nhá Engrácia?
Coitada! respondeu-lhe uma contratada faleceu, após prolongada doença...!
Mais guisas, mais tristezas no Largo do Terreiro...
De pé, no jardim, atrás da estátua do doutor Júlio, juntamen-te com o meu primo Nildo, observava a multidão que enchia o Largo. Parecia o regresso de soldados de uma batalha. Sim, tratava-se mesmo de uma batalha contra a fome, que teimava em dizimar os nossos companheiros da Escola Central. A missa da manhã terminara. O padre capuchinho, um italiano, vestido de castanho, de cordão preto preso à cintura e missal o debaixo do braço, num português meio italianizado, conversava com os contratados. O Zé da Luz tomou a direitura da Ladeira onde morava a mãe. Agarrado às paredes, parou junto ao portão da minha casa para lá deixar um saquinho com o cacau em grão, trazido de São Tomé lembrança de um aluno para o seu professor, meu pai. A minha curiosidade levara-me a trincar um grão desse fruto desconhecido. Em vez do esperado adocicado dos chocolates, senti o gosto do cacau amargo daquele amargo a que os contratados se habituaram na dura labuta das roças de S. Tomé, sabor amargo que amargamente guardo na minha memória para sempre!. A vizinhança queria ver o Zé da Luz aquele rapaz que partira novo e voltara velho e acabado das terras de São Tomé. As perguntas, inevitavelmente, surgiam:
Não trazes nenhuma cobra preta nesses caixotes, Zé?
O Sol pôs-se lá para os lados da Centinha, deixando o céu tinto de laranja. Os corvos voejavam em círculos nas rochas de Rezadouro. Ladeira acima, lá seguiram o Zé e seus caixotes de madeira. Depois ele iria recobrir a sua casa com palha de cana sacarina nova, fazer as mobílias e arrastar-se pela vida fora, quiçá até à morte, com as maleitas trazidas no corpo das matas de café e de cacau daquela Terra Longe de São Tomé.
CAPÍTULO 11
A Zélinha encontrou-se pela última vez, em S. Tomé com o Toni, antes de embarcar para a metrópole. Foi numa cascata, local previamente combinado, longe dos olhares dos capatazes e dos colegas. No silêncio da mata, apenas cortado pelo ruído da água jorrando lá do alto, trocaram promessas e juras de amor. A Zélinha deu-lhe um beijo ligeiro e subiu para o impaciente cavalo partindo em correria para desaparecer numa curva, tapada pelas árvores do cacau, como se trivesse levado o Adão a comer a maçã diabólica. Toni, meio atordoado, ficou sentado num tronco até o cair da noite, só, triste e abandonado, ouvindo o cantar dos pássaros multicores.
O avião, um Dakota, partiu da pista, onde uma mãe chorosa fora despedir-se da filha. O pai pediu a um administrador de Concelho, de passagem para Lisboa, em viagem desde Luanda, que olhasse pela filha durante o voo. A bordo, muitos colonos e funcionários públicos viajando, em gozo da licença graciosa. Sentada num dos bancos da frente, ela veio ouvindo, mesmo sem querer, as estafadas conversas dessses africanistas, já na segunda rodada do tinto, que a TAP distribuia gratuitamente aos passageiros, juntamente com as apetitosas refeições.
Até parece que já estamos na metrópole! Boa pinga ouvia-se!
O avião já sobrevoava terras algarvias, terras da Europa...
Alguém falava da difícil situação em Angola, com os Movimentos de Libertação em formação e as autoridades administrativas sem poderem auxiliar os colonos no tradicional recrutamento de trabalhadores baratos para as suas fazendas abandonadas.
Um dos colonos quase que discursava:
Movimentos de Libertação, não! Bandos de terroristas armados, bandidos, fascínoras, a soldo do imperialismo soviético e chinês! O que nos vale agora são as máquinas agrícolas, pois, sem elas, estaríamos tramados.
A mulher, que era enfermeira, acrescentara:
Já disse ao meu António que não volto para África, depois da graciosa. Temos algum dinheiro de lado, que conseguimos transferir por intermédio de um alferes, nosso amigo, e já podemos comprar um bocado de terra e lá fazer uma vi-venda. Um administrador de Concelho, que fizera a sua vida naquela terra desde chefe de posto e, enquanto uma graciosa hospedeira fora ao fundo da aeronave buscar mais uma garrafinha do”tal tinto”, segredava a um colega do banco de lado:
- Não vou regressar a Angola. Irei frequentar um curso no Instituto da Junqueira e refazer a minha vida por cá, não obstante as dificuldades por que passa o país. Até consta que Salazar vai mandar mais tropa para lá, e o barulho será ainda pior...
A Zélinha, de olhos fechados, tudo ouvia, além dos roncar dos motores do DC3. A conversa fora interrompida pelo piscar do aviso luminoso:
APAGAR OS CIGARROS
A península de Setúbal estava a ser sobrevoada. O avião, aos solavancos, tomara o caminho da Portela. Em poucos segundos, passara sobre o monumento do Cristo-Rei, de braços abertos à espera que "Os Belenenses" ganhem o campeonato, cumprimentando Tejo, Alcântara, cemitério dos Prazeres, Campo Grande, Santa Maria e, por fim, Portela de Sacavém..
CAPÌTULO 12
Enfim,Europa, enfim a Civilização! A Europa! afirmava um administrador, de pasta e gabardina nas mãos, penteando os cabelos com a palma de uma das mãos...
Lisboa é Lisboa...! O resto é mato, meu caro amigo Semedo ouviu-se!
Era a voz de um fazendeiro que, anos antes, conseguira saltar a fronteira para Espanha e França, e partir para a “nossa Província Ultramarina de Angola” como ironicamente dizia.
***
Três anos depois:
Na roça em São Tomé, Toni preparava-se para as provas do quinto ano dos liceus, para as quais sentia-se bem preparado e confiante. Algumas dúvidas ainda pairavam na sua cabeça, mas o médico goês deu-lhe algumas explicações. Na cidade, já se falava de um menino da roça que estudava para poder a vir ser doutor. Chegara a época dos exames. Toni ficara hospedado em casa da madrinha da Zélinha. A senhora não tinha filhos, mas sim um sobrinho, que andava a estudar em Lisboa, havia um ror de anos, sem conseguir tirar um curso,“comendo o dinheiro do meu cacau que lhe mando, pontualmente, todos os meses e na paródia pegada”.
Falando ao Toni, sentados na varanda:
Sabes, rapaz, estive a falar com o meu marido e resolvemos custear as tuas despesas de estudo na metrópole, durante a tua estadia para o curso de medicina.
Curso?
Sim! Não pretendes ser médico?
Sim! Queria, mas...
No dia seguinte começaram as provas e os resultados finais foram os melhores, para alegria da sua protectora.
Quem me dera que o meu sobrinho Serafim fosse as-sim!
Toni estava calado e escutava-a:
Sabes, Toni, mais alguns anos, vou viver na metró-pole na companhia da minha irmã, em Paços d’Arcos, na linha do Estoril. Meu marido não gosta do frio de Portugal; já fez a sua vida por estas bandas e diz que prefere deixar aqui os ossos; ficar sentado à varanda, jogando às cartas com os seus velhos amigos, bebericando alguns whiskys com água de coco enquanto puder, claro está ou, simplesmente, cavaquear com o pessoal da roça; diz ele que na metrópole só iria encontrar pessoas desconhecidas e que as saudades desta terra iriam ensombrar os últimos dias da sua vida...
Dona Felisberta deu ao Toni algum dinheiro para o cinema.
Vais para a roça preparar as tuas coisas, para seguires para a metrópole, no próximo barco. Alí, farás o sexto e sétimo anos no Liceu Camões, onde o reitor é meu amigo de peito. Há lá um lugar para ti, assegurou-me.
Chegado à roça e com o consentimento do patrão, pessoa a-miga da dona Felisberta, Toni fez as malas e encaixotou os livros do enfermeiro, que guardara com carinho, como recordação daquele bom amigo. Num deles, um pedaço de um jornal marcava uma das páginas, a última lida por ele.
Depois fechou o livro, sacudiu o pó agarrado à capa amarelada e guardou-o na caixa de cartão...No dia seguinte foi pôr umas buganvilias na sepultura do pai e despediu-se da mãe chorosa. Entrou no Jeep de um fazendeiro, que o levaria à cidade, mas ainda viu a mamãe, de braços no ar, acenando-lhe com um imaculado lenço branco. Para trás, ficara a roça e as duas pessoas que ele mais queria no mundo.
***
Adeus S. Tomé
A baía de São Tomé, com a sua cor verde-esmeralda, ficara na esteira da branca espuma do Sofala, com os porões carregados de cacau, café e de humanos contratados. Toni veio ao convés apanhar um pouco de ar fresco. Agora, já não viajava como contratado num imundo porão, mas sim como passageiro da segunda classe, comendo no salão e dormindo num camarote, com mais dois rapazes bolseiros que vinham de Luanda para o Instituo de Agronomia de Ajuda. No porão, amontoavam-se os contratados. Espreitou pela sua bocarra escura e, num impulso quase irresistível, desceu a escadaria para ajudar os que careciam de cuidados de enfermagem. Após uma escala em Cabo Verde, que viu de longe, com lágrimas nos olhos, o paquete Sofala aportou Lisboa.
Bugio à vista era a frase mais ouvida...
A Zélinha, ansiosa, aguardava Toni, no varandim do cais de Alcântara...
A Zélinha das tranças, mais adiantada nos estudos, ajudara a sua integração do Toni no agitado e perigoso meio estudantil lisboeta, e depois na Casa dos Estudantes do Império, no Arco do Cego, no começo da década quente de sessenta.
Os anos passaram:
Com a preciosa ajuda da sua benfeitora, Toni concluiu o curso de Medicina e com excelente classificação. Mensalmente, recebia um cheque e uma carta da dona Felisberta com os melhores conselhos que a vida lhe ensinara. Até lhe mandara uns ossos e uma caveira que o coveiro, seu amigo, lhe arranjara, “para fazer um esqueleto para o consultório”. O Toni ficara instalado numa República, lá para os lados da Alameda D. Afonso Henriques, perto do Técnico. Encontrava-se com os estudantes no Café Império, com as mesas tomadas pela estudantada, durante as tardes de estudo, ao lado das bicas quentes. Falava-se de estudos e questões políticas de então. Aos domingos, Toni subia o Chiado, mirando os caros livros de Medicina expostos nas montras das Livrarias, sem os poder comprar.
Um dia havia de ter dinheiro para isso...
Terminado o curso e o internato no Hospital de Santa Maria, Toni conseguira uma colocação no Hospital do Ultramar, local donde via o Tejo a correr e ouvir os apitos dos vapores entrando e saindo do porto de Lisboa.
Foi com tristeza que recebeu a notícia da vinda urgente da dona Felisberta de S. Tomé, para ser internada, por sofrer de enfermidade grave e incurável. Já como médico interno do Hospital, Toni manteve-se à sua cabeceira, fazendo o impossível para a salvar, que resumia-se em conversar com ela, relembrando-se dos velhos tempos de S. Tomé, e com nó na garganta, pois a sua ciência lhe dizia que o fim da sua protectora estava a chegar. Um pássaro pardo cantava no cimo do coqueiro cujas tristes folhas se despediam de uma Alma boa, daquelas que Deus gosta de chamar para junto dele...
Numa manhã de domingo, dona Felisberta viria a falecer! Ele estava de serviço, ao seu lado, segurando-lhe as mãos, aquelas mãos que lhe faziam relembrar as mãos esbranquiçadas, de veias azuis, fidalgas, saídas como as do senhor Jaime Neves ou da dona Augusta da Preguiça, ao balcão do seu botequim , quando ele embarcou, ainda menino, para as Roças de S. Tomé.
A Ciência médica não encontrara e ainda hoje não encontrou uma forma de debelar a enfermidade de que padecia a sua segunda mãe.
Toni veio à janela.
Olhou o Tejo, que corria calmamente para o mar bravio, nessa triste tarde de Inverno. A imagem do pai veio-lhe à memória, bem como a de todos os colegas da Escola Primária do ressequido Campo do Norte da ilha de S. Nicolau, que, um a um morreram de fome sem ver aquele grande rio de que tanto gostavam de percorrer na infantil imaginação, com os dedos gordurosos, seus afluentes à direita e esquerda, num estafado mapa de um Portugal longínquo que ia do Minho a Timor, já desbotado pelo Sol de uma janela velha, de uma Escola em ruinas, quebrada, sem vidros. Os mesmos colegas, que, à hora da fome do recreio, repartiam com os outros - com os que nada levavam por nada ter - os seus parcos farnéis de milho torrado ou cozido, miragens ou sonhos infantis...
Era Inverno!
Fazia muito frio nesse dia.
Os plátanos do pátio do Hospital do Ultramar estavam despidos e as folhas amareladas amontoavam-se nos cantos e cobriam os frios e cinzentos bancos de cimento do jardim. Apenas as palmeiras africanas, verdadeiros resistentes como ele –Toni - tinham as folhas intactas..O médico Toni fechou a janela embaciada do quarto do Hospital. Enxugou os olhos várias vezes. Sentou-se ao lado da falecida, visivelmente amargurado e com a alma anavalhada por não ter podido salvar a sua segunda mãe, a dona Felisberta, senhora que conhecera através da Zélinha, aquando da sua passagem por uma das roças de café e cacau de São Tomé...
Adeus, dona Felisberta! Deus Nossenhor te dê um merecido descanso à tua grande Alma, porque a palavra Gratidão não tem preço e não se pode explicar por palavras ...É um sentimento da Alma...
Agarrado à Zélinha, única tábua de salvação, choravam juntos no silêncio do Inverno deste Mundo cruel e injusto para os bons...
Um vapor, de canudos pretos deslizando suavemente, largava a barra do Tejo. Apitara três vezes. E o som ecoou nas paredes do quarto da defunta! Era um daqueles barcos que ele e o papai contemplavam quando, trepados nas fragas do Norte da ilha de S. Nicolau, pescavam moreias e bodiões..
.Adeus papai...Adeus dona Felisberta...
Anos depois:
Toni viria a casar com a Zélinha. Foram algumas vezes a Cabo Verde dar consultas grátis aos doentes pobres da terra, carentes de cuidados especializados.
Zélinha também se desloca com frequência a S. Tomé para dar assistência aos contratados das roças, acompanhada do marido e dois netos mulatinhos que até gostavam dos avós, como sempre.
Cumprira, assim, a promessa que fizera ao pai, na amurada do Borba, no CAMINHO LONGE DE S. TOMÉ:
Viajar num camarote de um vapor e cuidar desinteressadamente dos doentes pobres...
De lágrimas nos olhos, lembrava-se das últimas linhas do Livro de cabeceira sobre o Racionalismo Cristão, volume retirado, como recordação, da estante do enfermeiro angolano, seu amigo e protector, na terra de São Tomé.
“...Lembrem-se dos grandes benfeitores da Humanidade que vieram do NADA...” Pensam alistar-se nos Médicos sem Fronteira para concluiram, assim, os seus alargados desejos
FIM
. A
Lisboa,
Início da escrita 27.5.1994
Fim: 18.6.1997
1ªRevisão, pelo autor em: Almeria -Roquetas de Mar
Espanha - Verão de 1977
2ª revisão – Lisboa, Fev.2004
3ª revisão – Lisboa, Agosto 2005
EDIÇÃO PREPARADA PARA SER VERTIDA EM CDR E- BOOK - Setembro 2006
Nota do autor: Ao terminar este Romance tive conhecimento do falecimento do Zé da Luz (aquele rapaz que serrava as tábuas, talvez para o seu caixão, lembrem-se?, pelo que nunca o poderá ler, ele é foi dos seus protagonistas) Paz à sua alma, juntamente com a Dona Felisberta...Quanto a Toni e Zelinha infelizmente há poucos neste Mundo capitalista de hoje, mas existem caros leitores.
GLOSSÁRIO PARA TERRA LONGE
Dado que este Romance foi escrito num contexto
específico de uma das ilhas de Cabo Verde a de
São Nicolau achou por bem o autor, natural dessa ilha, fazê-lo em português, língua falada e lida
por milhões de lusófonos, em vez do crioulo, dia-
lecto de leitura difícil, até para o autor, apenas apre-
ciado por um universo infinitamente pequeno de lei-
tores.
Fica, por isso, um Glossário de alguns termos crioulos
de S. Nicolau, como eventual auxiliar da sua leitura,
para os não cabo-verdianos, claro está!
(O autor)
As-águas: época das chuvas (Julho a Outubro)
Angola: o mesmo que angolano
Açucrinha: rebuçados de fabrico caseiro
B
Balão: semente de uma planta com que se faziam os rosários
Brodjudo: archote feito com as semente de purgueira (oleaginosa)
Brabo: bravo (a mesma troca de V por B, vulgar no Nordeste de Portugal)
Bombardeira: planta silvestre que fornece plumas para colchões
Barba-de-bode: espécie de gramínea (pasto)
Boneca: espiga de milho ainda na cana
Babosa: variedade de cacto com propriedades medicinais, de seiva amarga. Aloé planta hoje muito canhecida por todos
C
Chacina: carne de cabra seca ao sol (ilha da Boa Vista)
Chicharro: peixe miudo seco ao sol (ilha da Boa Vista)
C’o licência: as minhas desculpas, com a sua licença
Covas de manhánha: redemoínhos na água
Canhoto: cachimbo
Carrapata: sisal
Cuscuz: bolo de farinha de milho, cozido a vapor
Calamã: cabaça cortada ao meio
Cancaran: esteira de canas tecidas
Canhota: espécie de abutre
Colá-São-Pedro - dança popular
Chevalier: os homens nos bailes
Caboverde: em vez de cabo-verdiano
Camioneta: camião que transporta carga e passageiros
Corsôge: pirata
Carvão de rocega: carvão apanhado nas praias
Cambar: desaparecer
Carinha: retrato do tipo passe
D
Desmaquenado: avariado, maluco
Damas: as mulheres nos bailes populares
Descocar: arrancar com força
E
Escrebêjo: chave de afinação
Enxertar: operação de unir as flores masculinas das aboboreiras às femininas.
Filho-de-parida: criatura
Fogão ou poial: local onde se faz a comida, fora da habitação principal
Freira: lantuna ou lantana ( planta utilizada para lenha).Cá, em Portugal, é empregue como planta ornamental, pelas suas lindas flores.
G
Grogue ou groguinha: aguardente de cana sacarina
Gongon: Lobisomem
J
Jack: Joaquim
Junça: erva daninha
M
Manégatinho: planta herbácea cujas sementes possuem picos para uma melhor disseminação, agarrando-se às pessoas e aos animais
Milho-antor: espiga de milho cozida e comida no dia seguinte
Menino-de-uma-figa: traquinas, irrequieto
Micróbio: coisa que provoca danos, pode ser até uma vaca...
Mandôde: enviado
Manduco: cacete de pau
Mocho: banco de madeira tosca
Manchê: amanhecer
Moçambique: o mesmo que moçambicano
Mão-trocada: Trabalho comunitário
N
Nhá: senhora
Nhô: senhor
Não-sei-que-diga: sem classificação possível
O
Olho-de-boi: lanterna de pilhas
Osso-de-varanda: clavícula
P
Plenos: socalcos
Péga-saia: planta herbácea cujas flores em espigas e folhas se agarram às vestes dos caminhantes
Prima: a primeira corda num instrumento musical, o violão
Papiar: falar
S
Salgadeira: caixote para salgar a carne de porco
Salvar: cumprimentar
Soca: palha
Supleta-e-fogo: ave noctívaga
Sangue-de-drago: Seiva encarnada do dragoeiro (planta que chega a viver milhares de anos)
T
Tortolho: planta para lenha
Tarafe: Tarrafe, género de plantas do grupo das dicotiledóneas dialipétalas. Abundava na ilha de São Nicolau, há décadas. Hoje, quase extinta. Planta halófila (de terrenos salgados), de lenha rija, usada nos fornos de cal. As folhas, em forma de agulhas, por serem decorativas, eram utilizadas para enfeitar os mastros para as festas.
Talisca: Mandioca descascada e seca ao sol
Tanchon: tanque muito grande
NOTAS BIOGRÁFICAS:
Adriano de Almeida Gominho, nascido na ilha de
São Nicolau, Cabo Verde, a 15 de Setembro de l940;
concluiu o antigo sétimo ano no Liceu Gil Eanes, em
São Vicente; aspirante administrativo na ilha do Fogo,
alferes e tenente miliciano em Timor, de l963 a l968,
após um curso em Mafra; administrador de posto, ad-
junto de administrador, tendo administrado os Concehos de Aileu e Viqueque, em Timor; Presidente dos
mesmos Municípios; regressou a Portugal em 1975,
dois dias antes do início dos trágicos acontecimentos
militares na ilha.
Em Portugal: chefe de secção em vários organismos públicos e, finalmente, chefe da Repartição de Pessoal da
Direcção-Geral da Aviação Civil, tendo-se aposentado
em 1993.
Dedica-se, presentemente, a escrever sobre Timor e Ca
bo-Verde.(romances e narrativas) e frequenta o IV ano do Curso de Direito numa
Universidade em Lisboa, aos 65 anos de idade.
FIM
Lisboa, 14 de Setembro de 2006

